garoa paulista

Alan Blair ~

Foto e Texto: Alan

hoje faz um ano que nós nos conhecemos, e se desse para voltar no tempo eu voltaria, para não apenas te olhar molhado, mas levantar do chão e ir me molhar junto com você. Se desse para fazer isso eu faria, com uma felicidade muito grande, pois eu sempre penso em você, desde quando te vi, molhando na chuva, desejando me molhar também.

;*

black snow

Alan Blair ~

“so I know it’s just a spring haze”

Foto: Vista de casa em Ouro Preto. Texto: Alan

É muito sol quente no couro cabeludo e eu sempre quis comer uma bola de neve, mas aqui nem neva. Quando era menor, eu raspava o teto do congelador e enfiava tudo na boca, até que um dia a minha mãe viu e disse que aquilo era tóxico. Acabou com o meu desejo de comer bolas de neve.

Ela me disse que me deu, bem pequeno ainda, água da chuva na casca do ovo para eu poder falar mais, superstição, mas eu nunca fui muito de falar as coisas, desde pequeno, e acho que a casca do ovo não ajudou tanto. Mas mesmo assim eu sinto a neve que não neva, como Lorelai Gilmore, nós sabemos quando ela cai, mesmo sem cair um pedacinho de gelo.

Deve ser por isso que eu fico encantado quando chove granizo. Ou quando acaba toda a energia da cidade. Eu gosto de quartos escuros. Todo mundo é escurinho um pouquinho por dentro, mas eu sou um apagão. É quando dá para ver as estrelas da melhor forma.

Um garoto me disse que é impossível comer uma bola de neve, ela é tão gelada que me queimaria a garganta.
Mas ele nunca comeu.

Então eu ainda tenho chances.

Maria Bonitinha

Alan Blair ~

Foto e Texto: Alan

A graça dela era fingimento.

Sorria o dia todo sem descansar a boca, avental de borboletas amarelas, arco na cabeça e sandalinha moleca.
Pintava, bordava e, ainda por baixo, dava aulas particulares de matemática. 

Deitava-se pontualmente às nove e meia, cabecinha no travesseiro depois da oração.
Só que rolava na cama, meio zonza de olcadil.
Desejava matar o marido e matar os filhos e depois se matar.
De prazer, escondidinha no banheiro, sem dar um pio, dando pra qualquer um.

?

Alan Blair ~

Foto e Texto: Alan

(Ele possui a necessidade absurda de escapar para longe, de mergulhar-se, de cavar um buraco cada vez mais fundo, revelando-se para si mesmo, mas assustando-se com esse interior tão cru.
Foge-se de tudo,
Mas não consegue fugir de si próprio.
Refúgio)

Aquela vontade de fugir das pessoas, trancar portas e janelas, atravessar as ruas, de apagar-se, invisível, se possível fosse, mas não, infelizmente, não é possível, então ele corre da multidão da rua e dos carros e das contas, crediários, atrasados, atolados na caixa de correio que ele não abre tem seis meses e meio, porta retratos abaixados, relógios desligados, telefones cortados, a macieira cuspindo folha no jardim nesse outono da cidade grande bucólica eólica meteórica e chuva o dia todo, sapatos molhados, paletó encardido, pneu vazio, vitamina de abacate estragando no copo do liquidificador tem três dias, roupa sem passar, jornais acumulados na porta da casa vazia, não se sabe, não se vê, não se escuta, não se, absolutamente nada, já faz tempo, desde o momento exato que ele deixou de existir para as pessoas e passou a existir para si.

Então correu, a bota batendo na lama, a lama batendo na cara sem expressão fisionômica gastronômica astronômica, pseudônimo Zinho, sozinho, disfarçado de nada para as pessoas nas ruas não repararem, invisível possível, sim, agora pode, mesmo que visível, pouco o importa, já que agora corre daquilo tudo que deixou pra trás, os crediários, os telefonemas vespertinos matutinos, despertadores, dores, o outono seco da cidade grande bucólica eólica meteórica metafórica que agora passou a ser.

E assim, nesse espirro redemoinho, cúmulo-nimbo, se deixou levar até um vilarejo, distante do caos e do ozônio e do asfalto quente, e de repente, no meio daquela gente nova que nada sabia de correria e horários a cumprir, filas de banco e lotéricas, tele sena, enlatados, semáforos e escadas rolantes, disse que ali ficaria, repousado na casinha que ficava em volta de outras casinhas que estavam ao redor de outras menores casinhas daquela gente inteligente que não sabia ler nem escrever.

A delícia do silêncio.

Fechar os olhos e não ver nada e escutar o zumbido do silêncio no ouvido e cavar fundo a memória e lembrar que ele deixou a roça e se mudou para a cidade por causa do emprego e por isso ganhou um escritório e um telefone que atendia todo dia usando o terno que deixara na lavanderia no dia anterior, pois sujou com o vinho que derramou quando assustou-se com a buzina o alarme o disparo o choro da filha da vizinha que o acordava sempre às quatro da manhã, olheiras fundas embaixo dos olhos, voçorocas já abertas, o despertador berrando alto, a assinatura atrasada, a vida amorosa inexistente, cavando fundo dentro de si, agradecendo a deus que nada mais disso ele temia e nada tinha além de uma cadeira, o café que a boa senhora preparava toda tarde e as casinhas ao redor de sua casinha, poder fechar os olhos e lembrar de si nos três anos de idade, a bola colorida, o pai, a mãe, já falecidos, filtro de barro, fogão a lenha, goiabeira, ribeirão, folha de taioba pra fazer copinho e beber água da mina e se perguntar o por quê do universo e de vida em outro planeta e por quê nascer em setembro e não agosto, de farinha e ovo virar bolo e porque esse nome bolo? e por quê ele nunca teve uma namorada, um namorado, um cachorro ou um gato, nunca mandou cartas, nem foi ao teatro ou passeou domingo no parque, tomou banho de mangueira, riu sozinho, riu em conjunto, riu forçado, e tentava lembrar, na verdade, qual o dia do seu aniversário que ele já não comemorava nem sabia quanto tempo, qual foi seu último beijo, se existia o primeiro, e fechava bem mais forte os olhos naquele silêncio, e não via nada, só o escuro e aquele zumbido rouco no ouvido, então foi quando ele descobriu que morria de medo da escuridão, e queria, na verdade, a claridade, luz de farol, de sinal de trânsito, ozônio, e aquele zumbido de silêncio estourando nos ouvidos era desesperador, queria buzina, telefone, despertador, a filha doente da vizinha chorando quatro da manhã, o vinho manchado no paletó, o outono da cidade grande bucólica eólica meteórica e a enxurrada da chuva ensopando seus pares de sapatos cujo crediários atrasados entopem sua caixa de correio e pelo amor de deus, meus deus do céu, se me escuta, me ajuda que eu não decorei o trajeto que me trouxe até aqui, me faz voltar para as filas do banco onde eu não me escuto, onde eu não me existo, mas existo para todo o resto que não seja para mim.

Ontem veio

Alan Blair ~

Foto e Texto: Alan

Às vezes vêm, depois do banho, do chão encerado.
Vem em fantasia, disfarçado de coisa boa, de amigo oculto.

Às vezes vêm não se sabe quando, mas eu sei que vêm, e quando vêm, imaculado, de tão forte, nem faz estrago. Só congela e dói à mão, entortam os dedos, vêm às vezes quando você assiste a TV ou abre a janela, lava o banheiro, e você nem pensa muito, como bandido, vai infiltrando, “sem pedir licença, sem bater na pele”, eu gosto tanto da minha mãe, puxei tudo dela, que quando vêm me dá uma vontade de ganhar um abraço de presente que te falta o ar, te entope o nariz.

Você sabe quando vem, pelo aperto, e a gente nunca sabe se quer afrouxar ou apertar mais ainda, tragar, ou não, é que vêm torrencialmente, te molham os sapatos e você fica desconfortável o resto do dia, há a possibilidade de calçar, quem sabe, um chinelo, ou esperar secar tudinho, preso nos seus dedos, preso nessa força catastrófica do que vêm tão repentinamente que você mente, mas nem sente que a enxurrada te carrega para longe, e daí você se molha mais ainda.

E, às vezes, quando vêm, é tão assustador que se não viesse, eu não sei, não haveria graça, não haveria texto, não haveria nada, aí eu me alegro até, por vir, e por se tornar visita, e eu querer deixar entrar.

Então, quando vier da próxima vez, faça festa pelo corredor, serenata na minha janela, escancare a minha porta e saiba que sempre será bem-vindo.

Virol

Alan Blair ~
Foto e Texto: Alan

(uma carta para ele)

Eu, Alan Villela Barroso, Brasileiro, 21 anos, solteiro(a), filho de Márcia de Almeida Villela Barroso e Francisco Vargas Barroso que, além de minha própria pessoa, geraram Filipe Villela Barroso, o primogênito heterossexual da família. Sou moreno claro, olhos castanhos, não muito alto, mas não muito pequeno, tipo sanguíneo não me recordo, sapato tamanho 38 ao 41, dependendo da marca, sou extremamente necessitado de cafeína pela manhã, tarde e noite, não assisto televisão pela falta de tempo, pela falta de vontade, gosto de literatura, pintura, música, com um gosto propriamente diversificado, sou vegetariano, mas não do tipo fresco enjoado, adoro pimentão, azeitonas e suco de caju. Já operei minha cabeça quando tinha seis anos de idade, operei três vezes o apêndice devido a sérias complicações. Nasci prematuro e quase não vinguei, mas por benção do senhor jesus cristo, meu amigo, eu sou uma pessoa saudável e não viciada em remédios, apesar de sempre tomar dramin quando eu não consigo dormir, o que me leva a ter um peso na consciência com o medo de me tornar viciado. Nunca experimentei maconha, bebo com moderação, mas nem sempre (fica a dica), eu sou loucamente viciado em doces, qualquer tipo, adoro o macarrão da minha mãe e o café que ela faz. Gosto muito muito muito de animais, quero ter filhos. Gosto de seriados, videogame e tomar banho, sempre viajo de ônibus e sempre faço o sinal da cruz antes de ele começar a andar, mesmo não sendo católico, mas acredito que me proteja de todo o mal, amém. Já tive fã clube da turma da mônica, backstreet boys e chiquititas, já fiz coleção de azulejos, figurinha, gelocos, cartão telefônico, notas antigas e selos. Quando eu era pequeno eu queria ser cantor de ópera, mas desisti da ideia para ser arqueólogo, mas desisti da ideia para ser ator, que ainda não desisti da ideia. Eu me chamava Alan Blair, por causa da Bruxa de Blair, já namorei três vezes, tenho um gosto por homens bastante peculiar, fumo de vez em quando, sou bastante caseiro, tenho fobia social, preguiça das pessoas, atravesso a rua para não ter que cumprimentar os outros, finjo que não enxergo, mas vejo tudo, finjo que estou dormindo, mas estou sempre acordado, ando com fones de ouvido, mas com a música desligada para ouvir conversa alheia, sempre escuto as pessoas batendo na minha porta, mas eu fico quieto e nunca atendo, assim como não atendo telefone sem identificador de chamadas e nem a campainha da minha casa de Leopoldina, tenho um sério problema com sinais de trânsito e ônibus de cidades grandes e ruas de cidades grandes e centro de cidades grandes e cidades grandes, tenho vergonha de ficar sem blusa em público, o que automaticamente me faz não gostar de praias, sempre digo que vou entrar na academia, mas tenho preguiça da preguiça dos primeiros dias da academia, aí eu adio pro ano seguinte e assim sucessivamente, adoro quando acaba a energia da cidade toda e demora horas pra voltar, então eu pego a lanterna do meu pai e saio na rua, adoro também quando chove muito, principalmente quando tem muito raio e trovão. Quando eu era pequeno um raio quase me atingiu, o que parece mentira, mas eu juro que é verdade. Adoro fantasmas e espíritos e aquelas brincadeiras do copo e do compasso, mas nunca consegui um contato com alguém do além, mas já vi diversos vultos e coisas brancas pela casa que morava, uma vez eu amarrei uma cobra de borracha na linha e escondi na calçada, aí uma moça passou e eu puxei, o que a fez pular e gritar e consequentemente berrar pra vizinhança inteira ouvir “seu filho da puta eu tô grávida caralho se meu filho morrer eu vou jogar na porta da sua casa seu peste”, desde então nunca mais fiz esse tipo de brincadeira, exceto uma vez na casa de praia da minha avó que eu comprei uma lagartixa de borracha na feira hippie e coloquei do lado dela e ela gritou e ficou louca e correu atrás de mim com um pedaço de pau enorme, a minha mãe viu e ficou puta com minha avó que estava puta comigo e eu puto com a lagartixa, aí eu fiquei morrendo de vergonha e dormi durante o dia todo e quando eu acordei tudo já tinha voltado ao normal e esse caso me faz lembrar que uma vez um garoto me deu uma bexiga de festa cheia de água, mas esqueceu de me avisar que estourava, minha mãe me levou para buscar meu irmão na aula, enquanto esperávamos no meio de um monte de adultos fiquei balançando a bexiga até que ela estourou no meu colo e eu levei muito susto e fiquei morrendo de vergonha com todo mundo me olhando, mas minha mãe me deu os super óculos escuros dela que me tornava invisível e eu perdi a vergonha. Já apareci na TV cultura, sempre choro em Titanic, sou prendado, viciado em cera para o chão, em farofa pronta da marca Yoki, em canecas, tomo muito água, então eu urino absurdamente muito, o que me deixa bem irritado, pois eu sempre tenho que levantar de madrugada para ir ao banheiro, não gosto de claridade, meus óculos não tem grau, já andei de ultraleve, mas nunca de avião, eu já quis me mudar para o Tibet, no ensino médio eu pintava as minhas unhas de preto e de verde bandeira, já me masturbei dentro de um caixão que alugamos para uma festa do dia das bruxas no meu bairro, e acabei, sem querer, gozando no teto e, inacreditavelmente, uma vizinha velha morreu e foi enterrada no mesmo caixão, já me masturbei também dentro de um elevador e só depois eu vi que havia câmera registrando tudo, recentemente, enquanto eu estava em Leopoldina, quebrei a câmera digital dos meus pais, mas coloquei tudo no mesmo lugar e eles ainda não sabem, gosto de Floribella e sei a coreografia das músicas, minha cachorra mordeu minha bunda uma vez e eu fiquei muito triste, e a mesma cachorra mordeu minha boca e eu levei cinco pontos, aí quando eu cheguei do hospital, a primeira coisa que eu fiz foi abraçá-la e ela me pediu desculpas e hoje em dia temos uma relação ótima, eu não tenho charme pra contar piadas, eu dançava “É o Tchan”, toco piano na minha escrivaninha todo dia, tenho muito déficit de atenção, já roubei uma pipoqueira, tenho saudades da trema, fiz uma promessa que sempre que passasse em frente ao barbeiro que mora na minha rua eu iria cumprimentá-lo, tanto na ida quanto na volta, e eu faço isso até hoje, eu queria ser a Fada Bela, acredito e vejo óvnis com minha mãe, sempre tocava “Marrom Bombom” depois do almoço no rádio e me dava náuseas, pois eu sabia que era o horário de eu ir pra aula, eu tinha mania de pegar qualquer pedaço de mangueira na rua e jogava em cima das pessoas falando que era uma cobra, até o dia em que eu REALMENTE peguei em um cobra ao invés de uma mangueira. Eu sou feliz, eu amo a família que tenho, o lugar onde eu moro, o curso que eu faço e meus amigos que são meus amigos, e esse perfil todo é pra dizer que eu estou a fim de você e que se você não estiver a fim de mim, eu pelo menos tento te conquistar pelo meu carisma.

E então?

travessura

Alan Blair ~
Foto e Texto: Alan

Pretendo sair daqui na sexta feira dia 30, ta quase chegando, vamos fazer deveras coisas legais e “matar essa saudade que me invade o coração”. Mande encher as ruas de confetes e serpentinas, tocar banda no coreto e balão de festa nos postes da avenida pra eu passar, agarradinho com vocês, os cachorros seguindo atrás como sempre, barraquinha de churrasco e queijo quente do Getúlio, sorvetes Sol & Neve e as velhas liquidações do Bazar Renée que ninguém nunca compra, pra de noite paquerar sentadinho na pracinha do Banco do Brasil. Os animais, a gata, cachorras e a família reunida comendo pizza e se amando nessa cidade gostosa chamada Leopoldina.

I Don´t Like Mondays.

Alan Blair ~
Foto e Texto: Alan

Ele se engasga,
Arroto rouco,
Ele se difama, só.

Ele acha que seria melhor privar-se menos, na verdade, ele perdeu o potencial que tinha desde que voltou pra cá, e as coisas andam bem mais rápidas que a capacidade que ele tem para captar, um certo déficit de alguma coisa.

Meio de setembro com gosto de agosto e aparência de dezembro sem o cheiro de natal que ele tanto adora, luzes verdes e vermelhas e roupa nova, mas é meio de setembro e é como se ainda fosse tudo muito longe.

Ele se machuca no fato do silêncio após as 22h40min, voto de silêncio, é assim que se fala? Ele não queria tanto isso, janela fechada, cortina fechada, mesmo possuindo fotofobia, é assim também que se fala? Dor nos olhos na claridade exposta, a cabeça quase explode.

Ele queria perfume novo na porta se abrindo, colorindo o corredor, música nova no som e cor de sol nas paredes do seu quarto, mas só de vez em quando, ele enfatiza, para tentar variar os passos na dança oca louca que ele tem ensaiado, sozinho, para conquistar algum par da forma charmosa que ele move seus pés no seu conga amarelo, para lá e para cá, ritmado, marcha de carnaval no inverno gelado que faz naquela cidade oca louca onde ele mora, sozinho, sol e chuva dividindo o céu no mesmo instante, onde ele mora, sozinho, repleto de amigos de todos os lugares de todos os sotaques de todos os jeitos variados diversificados possíveis onde fica tudo mais lindo no lugar mágico e lindo onde ele mora, sozinho, calando a sua voz depois das 22:40, rodando no quarto junto com as luzes coloridas que ele liga para intimidar alguma coisa que ele insiste em não definir como algum de tipo de solidão, é assim que se fala? Solidão? Tanto faz, é tudo mágico e lindo, mágico e lindo, repito, mágico e lindo no lugar lindo onde ele mora, sozinho.

Por que quer, ele diz.
Por que é preciso, eu digo.

Uma garrafa inteira de café só pra mim, a idéia não é tão ruim assim, ele justifica.
Mas é que eu não sou tão egoísta, dividir às vezes é bom, eu confesso.

Ele ta querendo a sua mãe, o seu pai, o seu irmão e um beijo da xuxa, se possível for.
É que, às vezes, as coisas dificultam um pouquinho para o lado dele, little earthquakes, me compreende bem? Ele queria, após 22h40min, ligar para o mundo e dividir café, mas o mundo ta todo dormindo depois desse horário, mas uma garrafa inteira de café só pra ele não faz tão mal assim, ele lembra.

Haroldo, ele ta querendo te ligar nesses dias.

É que eu só queria perfume novo quando abrisse a porta,
Ou alguém que me abrisse a porta,
Música nova no som e mais claridade no meu quarto, de vez em quando.
Aqui é tudo tão mágico e lindo, três vezes mágico e lindo no lugar lindo onde eu moro, só que sozinho, após as 22h40min, aí eu me perco dentro de um quarto com banheiro.

Ainda bem que eu tenho minha Lorelai Gilmore.

Grecin 2000

Alan Blair ~
Foto e Texto: Alan

Cortei meus cabelos.
(Mais uma vez).

Ao escorrer para o ralo, ameaçou não descer.
Forcei com os dedos fincando forte no buraco do ralo nojento,
cabelos grudando nas minhas unhas, tufo, maço,
punhado de esperma grisalho, Grecin 2000.

Ameaçou não descer, mas desceu.
Depois de muito esforço desceu,
a água girando anti-horário, redemoinho louco berrando rouco, e eu de pé, tampouco importa,
dando tchau, como quem fecha a porta, tranca duas vezes e joga as chaves fora.

marasmo.

Alan Blair ~
Foto por Ronald Péret – “Dama da Noite”, Alan Villela.
Texto: Alan.

Cheiro de bosta de cachorro pisada entre o garcía marquez, drummond e josé saramago.

Música envangélica berrando “amém senhor amém senhor amém senhor”, sem nem ter certeza se evangélico diz “amém”.

A tosse seca da moça lá desgranhada cabelo nojento de puta velha mal comida me olhando de um jeito desconfiado
como se fosse roubar seus livros podres, enfia o “amém senhor” na xota e para de me olhar assim que eu só tô folheando.

Poeiras e aranhas entre Sabrinas, quadrinhos e revistas pornôs,
polegar direito direto na coxa desnuda daquele lá que eu não sei dizer quem é mas bem que eu gostaria de saber.

A puta velha entretida no louvor do amém senhor, aí eu saco a minha arma e me preparo pra atirar, atrás da estante,
da poeira nojenta, do cheiro da bosta de cachorro pisada, amém senhor, amém senhor, ai man señior!

Porra melada na coxa desnuda daquele lá que eu não sei dizer quem é mas agora pouco me importa,
poeira, porra e traça entre literatura, cultura e sexo.

Adoro o marasmo dos dias nublados.

P&B

Alan Blair ~

“Há dois anos atrás nós nos conhecemos e o amor veio em bloco, entupindo a avenida, feito enxurrada, cheio de cor e brilho, feito bloco de carnaval. E nós dois dançávamos lindamente, sambando as nossas marchinhas particulares, jogando confete e serpentina pro alto, a cara pintada de vermelho e lantejoulas pelo nosso corpo. E você sempre na dianteira do bloco de nós dois, segurando alto o estandarte, sem nunca deixar cair.”

“Você é o preto e há dois anos eu venho tentando ser o branco; a junção de todas as cores, enquanto você se tornou à ausência de todas elas. Virei uma criatura com medo da escuridão, de me perder dentro dela, de entrar na curva errada dentro dos labirintos. Aí eu evito, cautelosamente eu me policio e evito entrar em becos sem saída.”

P&B: preto e branco, claro e escuro, bom e mal, presa e predador.

P&B é meu primeiro trabalho como dramaturgo que vale realmente algo para ser publicado. O tema central da peça é o reencontro de um ex-casal de namorados que, depois de muito tempo, sentam no bar, fumam, bebem e conversam, sobre o presente, sobre o passado e, quem sabe, sobre o futuro?

Meu objeto de pesquisa para a criação da dramaturgia foram cartas que eu escrevi e que nunca mandei, xerox de cartas que eu, audaciosamente, enviei, e cartas de ex que recebi e não rasguei.

Como a peça é grandinha, achei mais cômodo disponibilizá-la para download.

P&B ~ Alan Villela

Botão direito do mouse, salvar como…

Caso queiram comprar o livro, é só entrar no link abaixo:
http://clubedeautores.com.br/book/3417–PB

(E Leopoldina está linda, sem o frio de Ouro Preto… aquele frio que aperta a gente…)

trem bão.

Alan Blair ~

Foto e Texto por: Alan.

(Férias, Leopoldina e Márcia Goldsmith)

e a gente, nós, sempre sabe, sabemos, da tranquilidade de voltar, estar, em casa.

Lícito

Alan Blair ~

Foto e Texto por: Alan.


“Se a realidade te alimenta com merda, meu irmão, a mente pode te alimentar com flores”
– Caio Fernando Abreu

Expele a fumaça boca à fora.
Rodopia no ar até desaparecer.
Deposita as cinzas na Alegria que sentia/sente, sorridente nessa loucura mansa de viver.

A tontura leve esculpindo um sorriso no rosto, um arrepio no braço.
Queria mais gente, ainda mais agora, a TV pifada, o dedo pelado.
E roda na cama macia com os olhos fechados, aquela necessidade insana de dançar, nem que seja sozinho, errando os passos consigo mesmo e não se importando com nada disso.

Tira a roupa, nu no frio que faz lá fora, mas no quentinho que está aqui dentro.
Fuma o filtro e acha graça, e gargalha num instante de criança, de infância, de presente de natal com um laço enorme.

E o que ele quer, menina, é vivacidade, textura, tato e cabelos cacheados, se possível.

Ele só quer as luzes apagadas e um par para dançar agarrado, enquanto o mundo congela lá fora e eles se descabelam aqui dentro.

Domingo

Alan Blair ~

Foto e Texto por: Alan.

Para Haroldo Ferreira Lima
Diego Monti Silva
Leonardo Velten Anacleto

“Mas sua luz não se apaga, e até se vê melhor – porque vastas e assustadoras são as trevas dos nossos dias” – Cecília Meireles

Ele chegou perfumado com aquele velho cheiro azedo de hollywood vermelho. A blusa de coqueirinhos verdes que ganhara de sua irmã – “bem Tropicália” – ele me explicou certa vez. Me olhou sem graça e sorriu. Eu, sem graça, sorri também, antes de me engasgar com o “Oi” que eu disse e que, logo em seguida, achei que teria sido melhor não ter falado nada. Só sorrido, como ele.

Faria frio, muito frio, segundo o noticiário que passava de manhã e que eu escutava enquanto terminava de empacotar as minhas coisas, logo antes do telefone tocar e soar rouco pela casa quase vazia, exceto pelas caixas de papelão. Mas eu já não tinha empacotado esse telefone? A voz rouca do outro lado da linha dizendo “Alô?” me fez pensar que foi um erro não tê-lo empacotado.

Ou talvez não.

Era um barzinho aparentemente bacana de uma metrópole qualquer, com árvores na calçada quadriculada. Tocava alguma coisa tipo samba ou bossa-nova, enquanto os pedestres corriam para escapar das nuvens cheias que se preparavam para derramar toda aquela chuva ácida, sobre nossas cabeças e nossos sapatos brancos, enquanto eu, sentado e imóvel, percebia o quanto era difícil, meu deus, olhá-lo nos olhos sem desviar o olhar.

E não mudara nada. Nada. Os cabelos pretos e lisos escorrendo na testa. O mesmo óculos de armação grossa que eu tanto gostava e aquele tortinho charmoso no dente. Florentino Ariza, eu costumava chamá-lo. Que audácia minha querer ter sido uma Fermina Daza.

Pediu um uísque com bastante gelo e me perguntou o que eu iria beber. Respondi, incerto, que o mesmo, nem sei porque, nunca bebi conhaque e o que eu queria era uma garrafa térmica de café preto bem forte e sem açúcar. Acendeu seu hollywood espantado ao me ver acender meu carlton – “de vez em quando, só de vez em quando”, eu disse. Então eu tragava fundo tudo pra dentro esperando pela vertigem que não vinha com ele ali, bem na minha frente, amarelo e intocável. DO-GMA.

Crostas grossas de sujeira com mosquitos em cima na toalha da mesa, eu observava e cutucava com as pontas dos meus dedos enquanto ele falava da saudade louca que sentia, meu bem, que havia se formado fazia um tempo, que aumentou a sua coleção de livros, entrou na academia, parou de tomar tarjas pretas, maconha e loló, e que, no almoço, fez arroz com ovo frito, assim bem de propósito, para comer a gema do ovo molinha estourada em cima do arroz, uma delícia, simples toda a vida, como a vida que queria.

E me olhava com algum tipo de medo, de cautela, olhar de culpa querendo desculpa que eu não dizia, não dizia, resistia, puta merda, caralho, por que isso agora, porra? Logo agora?
E eu me entortava e me debatia naquela claridade escura dos olhos dele.
Olhos de medusa: traiçoeiros, assassinos, irresistíveis.

O conhaque rasgava fundo por dentro. Esperei o gelo derreter um pouco mais pra ver se ficava mais fraco. Queria ter algum veneno mortal, mas não saberia em qual copo colocar: se no meu ou no dele? Acendi mais um carlton. Meus pés subiam e desciam, feito nervoso de espera. Nervoso de espera. E ele, ele falava, cantando.

A toalha da mesa já encharcada com o suor das minhas mãos, ou apenas um gelo perdido derretendo por aí, quente, fervendo, da forma exata como eu, por dentro, fervia também, até que ele, catito e inocente, perguntou: “E você? Como vai você?”

Esses dois segundos duraram-me a eternidade, e a visão daqueles olhos, refletidos em meus olhos, me paralisaram.

Então eu pisquei.

Naquele exato instante, centenas de milhares de crianças nasciam e centenas de milhares de pessoas morriam enquanto os astros se alinhavam com a terra, e ele ali, bem na minha frente, me perguntando como eu ia.

Como eu ia?

E eu não fui capaz de gritar que não. Não!
Eu não ia.
Eu não ia há muito tempo.
Que eu já tinha me esquecido da última vez que eu cheguei a pensar a ir há algum lugar, e o que você está fazendo aqui? Agora? Quem te deu esse direito? Essa permissão? Com essa blusa, esse cheiro e essa sua postura patética que eu tanto amei?

Veio para tomarmos conhaque, fumarmos e rirmos do tanto que você me foi importante e o quanto que impotente eu fui naquele quarto branco, vazio, exceto pelo bombril na antena da tv e dos nossos peixes dourados, afogando no aquário, enquanto eu mastigava os lençóis da cama, o olho vermelho de febre, de mágoa. O disco arranhado e a sopa esfriando no canto da mesa. E eu fumando, fumando os hollywoods que você esqueceu de buscar junto com todo o resto que você deixou, impregnado. Suas ervas daninhas, matando a sala, matando a casa e me matando depois.

Veio para que eu te diga que, de todos, você foi o maior. Que, com você, eu queria comprar animal de estimação, sabão em pó, buquê de flor, cama de casal, lavar roupas no domingo, cultivar flor em pote de margarina Delícia, tomar banho de mangueira no quintal de casa, tirar seu casaco quando você chegasse do trabalho, e, no fim da noite, assistir televisão com nossas pernas enlaçadas – imortais – até a velhice chegar.

Que, agora, eu quero te bater forte na cara, mas eu quero te beijar longo, e o tanto que eu te odeio, eu te odeio, mas o tanto que eu te amo, eu te amo.
E isso me dói, porque, por mais que você não mereça, eu te quero, mas por mais que eu te queira, eu me proíbo, porque eu sou bobo e o meu orgulho é maior.

Senti algum arrepio gelado correr em meu corpo. Respirei o mais fundo que eu fui capaz e respondi:

“Eu vou bem, muito bem, sempre muito, muito bem”.

Fita cassete

Alan Blair ~

Texto por: Alan.

E ele temia, antecipadamente, debruçado na cama, meia noite e cinquenta, exato, a fita rolando dentro do som, que quase ter vinte e um era assustador.
Incomodava feito aquele barulho agudo de silêncio que, às vezes, dá no ouvido.

A cabeça já doendo e tentando lembrar aonde enfiou a cartela de dramin que toma, às vezes, só às vezes, para dormir.
Ligava a televisão e mais uma vez constatava o quanto odiava o José Luíz Datena.

Vegetariano por opção, clamava clandestinamente por um bom pedaço de bacon com bastante queijo derretido. Só por hoje.
Ficava deveras assustado com o fato de que o tempo não descansa para tomar um café e que ele era efêmero, como o resto de toda a bosta do mundo.

E era estranho saber que amanhã acordaria e que dormiria de noite para novamente acordar até, quem sabe, se deus quiser, e que ele queira, se passar mais vinte e um anos e ele, debruçado na sua cama, talvez meia noite e cinquenta, a fita velha rolando dentro do som, o Datena já morto, menos mal, assustado e lamentando os quarenta e dois anos acumulados e que, se você não arregaça a vida, a vida te arregaça e ainda ri da sua cara.

Tác.

O lado A da fita termina e ele aproveita que já estava levantando e coloca a água para ferver. Enquanto corta os cabelos (como quem corta o passado) decide se café ou chá?

Vira a fita cassete e dá play, mais uma vez, feito uma música no repeat, en-jo-ativa.

Cavalos Marinhos

Alan Blair ~

Foto e Texto por: Alan.

Assim foi sendo, solto nesse devaneio seco, nessa tontura “fádiga”.

Descobriu que cavalos marinhos existiam quando morreu afogado, mas já não fazia tanta diferença.
Antes de perder o último gole de fôlego, agarrado entre as algas do mar, achou gostoso, silêncio quentinho, morrer como um navio naufragado daqueles que escondem dentro de si um baú de tesouros, e que jamais alguém encontraria, fantasiado de natureza viva entre algas e cavalos marinhos, fóssil humano.

Gostou da idéia e fechou seus olhos, como quem fecha o punho e atira pedrinhas no mar.

12/06/2009

machê

Alan Blair ~

Foto por Ronal Peret, “Vertigem do Pecado” – Direção: Eliane Rocha – Atuação: Alan Villela e Higgor Vieira.
Texto por: Alan.

O bombril nas pontas da antena da tv.
Papel machê secando na lâmpada acesa.
Nossos peixes dourados molhados no aquário e, no armário, pão e bolo que eu comprei pra nossa noite.

Os barulhos das chaves são marteladas na minha cabeça. Porta trancada duas vezes, conferindo.
Eu ligo o som na tomada e o que toca é o silêncio…
Fiz um chá de alfazema (?) pra fazer descer o bolo que eu engulo, sozinho.

Eu imagino que seja só uma brincadeira de mau gosto, uma surpresa pra mim, mas no fundo eu sei que não, não é, mas mais lá no fundo a esperança desesperada berra como louca, mas eu sei que não, não é.

Embrulhei minhas semanas no silêncio esse semestre. Economizei palavras e acumulei sentenças, e o que eu sei é dessa necessidade de explodir junho com porradas de garrafas de café.

Agora eu tenho um manicômio inteiro só para mim, minha loucura particular que ele não foi capaz de suportar.
Três meses é uma camisa de força pra você, dezessete. Nem deu tempo de marcar meu dedo.

É que eu só queria ser o mocinho, mais uma vez, e me esqueci que, literalmente, o mocinho era você.

Acumulei mais um pra minha pequena agradável lista de “unsent”.

O José Saramago está embrulhado de dourado no fundo da gaveta, esperando por alguém.

(Que não amarele com o tempo…)

10/06/2009
01h53min.


“You live you learn
You love you learn
You cry you learn
You lose you learn
You bleed you learn
You scream you learn”

Alan Blair ~

Foto e Texto por: Alan.

ando silencioso…

cri cri cri…

Pequeno Incendiário

Alan Blair ~

Foto e Texto por: Alan.

“Just say yes, you little arsonist.
You’re so sure you can save every hair on my chest.
Just say yes, you little arsonist.”

Carros atropelam minhas pegadas antes de, literalmente, me encontrarem.

E eu estou correndo.
To correndo, to correndo, to comendo as migalhas que Maria deixou pelo caminho antes de, literalmente, me encontrarem.

Há muitos anos eu perdi em algum lugar o meu senso infalível de direção.
Fujo de encruzilhadas.
Então eu corro.
Eu corro, eu corro, eu escorro o suor da minha mão na sua mão antes de, literalmente, me encontrarem.

Eu estou tentando te acertar, garoto.
Eu estou tentando te acertar com a ponta afiada da minha faca, antes de, literalmente, me encontrarem.

E se me encontrarem, nu e sádico mordendo sua panturrilha, eu levanto e me visto e persigo os carros que, propositalmente, tentam me alcançar, para descobrir que você está no controle da direção, a duzentos por hora, tentando me acertar, tentando me acertar com a sua faca afiada antes que eu te acerte com a minha, te envenenando com a minha adoração.

17×20

Quem vai matar primeiro a fome?

from the other side.

Alan Blair ~

Texto por: Alan.

(uns reflexos de “Scarlet´s Walk” e uma semana e meia de cama, doente.)

Martelam um prego na minha cabeça três vezes mais rápido que os ponteiros de um relógio.

Pá – Pá – Pá.

Sozinho nessa caixa, afundando feito sonho em areia movediça. A porta trancada pelo lado de fora e eu aqui dentro, feito um palhaço de mola.
Há uma janela na parede com grades de ferro.
Depois das grades, há uma montanha,
E após a montanha, um rio, e dentro do rio, os supostos sapatos vermelhos de Scarlet, afogados e esquecidos, como eu, mofando nesse quarto com um termômetro enfiado no rabo, apitando 39º.

Sinusite
Faringite
Amidalite
Calma, não se irrite.
Estou suando feito uma cabra.

Deixa eu te contar uma coisa:

Eu to sentindo gosto de nada na boca.
To morrendo de fome, e não têm nada pra comer.
To trancado, cara, dilacerando meu estômago com meu próprio estômago, entende?

Esse vazio, esse silêncio, essas quatro paredes que me prendem aqui nesse quarto vazio, comigo e com minha sede. Eu grito por água e ninguém responde.

To perdido em algum lugar que eu não sei aonde é, e às vezes fica tão escuro que eu não consigo me enxergar.

Aí eu fecho os olhos.

“Mas eu acredito na paz.
Eu acredito na paz, sua vagabunda”

O vestido de Apolo.

Alan Blair ~

Foto e Texto por: Alan.

Eu gostava dos filmes antigos de velho oeste.

As cidades eram sempre vazias, de chão de terra, e aquela bola de poeira/palha/vento rolava na rua, sem ninguém, sem nada, e o vento zumbia no ouvido, assobiando uma canção qualquer.

Lugares vazios me dão um tipo de solidão.

Há um tempo atrás costumava passar na TV propagandas de cigarros onde motoqueiros percorriam enormes estradas de chão, tudo muito deserto, no meio do nada, aquelas montanhas de terras enormes. Eu era bem pequeno e assistia com uma certa fascinação ruim, e quando eles paravam suas motos, acendiam um cigarro, assim meio no êxtase. No meio do nada, aquilo me dava um aperto no peito muito grande. Como “Thelma e Louise” com seu carro e seus sonhos, fugindo da polícia e se jogando de penhascos, suicidando pra viver.

Ainda pequeno, minha mãe ia pra aula e me deixava em casa. Não sei quantas horas demoravam pra ela voltar, mas demorava o bastante pra me sufocar. Eu deitava na sua cama e cheirava seus travesseiros como garantia que o cheiro dela ainda estava dentro de casa e que ela logo voltaria. Eu tinha medo dela nunca voltar. Ainda tenho medo.

Scarlet têm um mapa e um caminho que é só dela. Ela precisa caminhar para se encontrar, eu precisava me encontrar para me caminhar, só que eu não tenho o mapa que Scarlet têm.

” Apollo, your frock

Was always as beautiful

Always as beautiful as the saddest rainstorm

Apollo, your frock

Was always as beautiful

Always as beautiful as your sister’s

That your light shined on”

16:45

Alan Blair ~

Foto e Texto por: Alan.

(“A casa girou ao redor de si mesma duas ou três vezes e ergueu-se lentamente no ar. Dorothy teve a impressão de que estava subindo em um balão”) – “O Mágico de Oz”.

O estômago vazio desde o jantar do dia anterior, salvo apenas pelas sete xícaras de café e quatro bolachas de água e sal desde às oito da manhã do dia de hoje quando acordou com a música alta do vizinho do andar de cima.

Enviou “Boa prova mais tarde. Se quiser passar aqui em casa quando chegar, sei lá, tomar um café, conversar com o Brian, seria bacaninha, AP 401, beijos”.

Varreu a casa
Passou pano no chão
Mudou móveis de lugar
Abriu portas
Olhou a correspondência (essa carta que não chega!)
Repetiu o mesmo cd três vezes
Deitou
Levantou
Deitou
Levantou
Olhou o relógio
Olhou o relógio
Olhou o relógio
Defecou lendo “Ovelhas Negras”
Gozou no box
Rabiscou no vapor do espelho do banheiro
Pés gelados

A hora sem passar cada vez que volta a olhar para o relógio. Aquele fundo ácido no estômago de um maço inteiro de cigarros fumados sem fumar e o pulsar no peito, a mão molhada, sempre molhada.

Três incensos queimados, o pinguim de porcelana da geladeira limpo com Veja, o pulsar do peito, o relógio, mão molhada, vozes distribuídas pelos cômodos da casa.

Tem uma aranha na minha parede tecendo a teia traiçoeira que eu quase sem querer me envolvo, sufoco, enrolando rolando rolando rolando três quatro cinco vezes a teia bem na veia grossa do me pescoço.

16:21
16:22
16:24 – Brian se contorce no aquário.
16:26
16:29 – café.
16:30 – há fé.
16:34
16:35 – Uma nova mensagem na caixa de entrada – Pulsa, Pulsa- SPAM.
16:40
16:45
16:46 – Ter 10 Mar 09
16:48 – “I´m lost but I´m hopefull baby”.

Desconfortável(mente), Brian balança no aquário e eu o acompanho aqui da cama. Latidos perturbadores vindo de fora e até agora nada.

16:52

Nada.

17:05 – O interfone grita. Eu grito junto.

É.
Sim.
Ele chegou.
Ele chegou e leu pra mim:

“- Eu não posso entender por que você deseja sair deste lindo país e voltar para o lugar seco e cinzento que você chama de Kansas.

- Isso é porque você não tem cérebro – respondeu a menina. – Não importa o quanto nossos lares sejam monótonos e cinzentos, nós, pessoas de carne e osso, preferimos morar lá do que em qualquer outro país, por mais bonito que seja. Não existe nenhum lugar como o nosso lar.

O Espantalho suspirou.

- É claro que eu não posso compreender – disse ele. – Se as suas cabeças fossem cheias de palha, como a minha, vocês provavelmente viveriam em lugares lindos, e então não haveria ninguém morando em Kansas. A sorte do Kansas é que vocês têm cérebros.”

(“Apesar do balanço da casa e dos gemidos do vento, Dorothy fechou os olhos e adormeceu profundamente”)

Randon

Alan Blair ~

Foto e Texto por: Alan.

Estraçalho cravos e espinhas.

São três da tarde. Não tenho pressa, mas tenho sede. Bebo Lygia Fagundes Telles para matar essa secura torta da minha garganta.

“Lembra, Romana?; eu perguntei. Da nossa festa de formatura, ainda tenho o retrato, você comprou para o baile um sapato apertado, acabou dançando descalça, na hora da valsa te vi rodopiando de longe, o cabelo solto, o vestido leve, achei uma beleza aquilo de dançar descalça.”

Não dancei na minha formatura, pois eu não fui. Algumas coisas daquela época de princípio de hoje em dia me perseguem fielmente. A Maria José me telefonou ontem. Deu um toque e parou. Queria dizer coisas para ela, me pinte um quadro, me faça um bolo, mas há burocracia demais, cara fechada demais, me leva na praia com você, beijo.

Existem músicas em momentos específicos que eu prefiro pausar, pular, arranhar meu disco. Eu olho para este livro e penso que devo me presentear com um caderno de caligrafia. Ainda tenho sede, está quente e minhas mãos e pés suam abundantemente, jorrando rasgando borrando essa folha branca de preto, caneta 0.8.

Três e vinte e um e eu espero o carteiro incansavelmente, mas sei que hoje não chega nada para mim, nem alegria, nem dó. Ando atrasado, perdendo ônibus, subindo morro pra poder descê-los depois, de braços abertos, de camisa aberta, de olhos fechados, perigo de bater em poste, vontade de bater nos outros.

Gostaria, ligeiramente, de fazer um resumo desse fim de semana. Tente captar.

macho fome macho

macho examina macho

macho come macho. 

E mais daqui a pouco, quatro e meia,

macho reencontra macho.

Rasuro minhas palavras de cabo à rabo. Eu tenho vontade de gritar nessa cidade. A semana começou hoje e eu só penso na sexta-feira. Thálita escutando músicas de mexicanos, Brian dançando no aquário, a minha cabeça começando a doer, e atrás de mim está Scarlet, colada na parede em oito imagens P&B e uma colorida, fazendo seu caminho, de 1. Amber Waves até 18. Gold Dust. Me canso da forma de como escrevo as coisas, forçando uma casualidade trivialidade subjetividade, sorteando palavras difíceis no dicionário. Acho que vou mandar um e-mail para Fiona pedindo por favor maçã lance um cd novo logo adoro você beijos thakns.

Escolho a roupa mais bonita e provocante que escarra de uma forma inocente a minha ânsia de carne fresca branca juvenil. Pingo pingo pingo em meu pescoço três gotas gotas gotas de veneno cristalino, aroma de bergamotas que ele suga pelas narinas e se deixa levar por todo o meu caminho, como Scarlet em seu vestido de flores e babados e fios ruivos voando na brisa.

Mas eu não tenho brisa.

Mas eu não tenho flores.

Mas eu nem sou Scarlet e não sei o caminho.

Eu te carrego no colo, te abraço por trás, esfregando a barba invisível na sua pelugem prematura e vou lambendo a sua orelha com a ponta da minha língua.

Sou cobra que não troca de pele.

Sou homem que provoca homem.

E todas as minhas tias fingindo um não saber o porquê de eu ser o único sobrinho que nunca apareceu com uma namoradinha loirinha patricinha cheirosinha sonsinha idiotinha perfeitinha alisadinha maquiadinha em  saias curtas e salto alto. Vai ver é porque eu gosto de allstar e calça jeans rasgada.

Mamãe já sabia. Papai idem.

Vamos lá, Scarlet, cante para mim, me mostre seu caminho, sua armadilha, Sweet Sangria.

I can´t see New York from the other side. I can´t see.

Cinco prás quatro. Amarro o tênis, arrumo o pênis, pego minhas chaves e tranco as portas por onde passo. Caminho nas ruas com as mãos no bolso, preparado e ensaiado para sacar a minha arma e te atrair e te atirar bem no meio do seu peito de menino de dezessete anos.

Medusa vira pedra olhando no espelho.

Aperto o gatilho e atiro.

Não sei aonde, certo, Mas sei que acerta.

Roda Viva, roda.

Alan Blair ~

Foto e Texto por: Alan.

Me mudei para debaixo da escada.
As paredes brancas, tenho uma cama e com a falta de bombril, improviso bolinhas de algodão nas pontas da antena da TV, mesmo sabendo que não dará em nada.

Agora eu tenho um peixe vermelho-sangue feito a tinta desta caneta, que bate suas asas, como se voasse, remexendo a calda dentro daqueles aquários redondos. É como pingar corante vermelho na água, dissolvendo bem aos pouquinhos, até ficar um líquido homogêneo.

Ta tudo cheirando a mofo e eu mastigo um caroço de azeitona, com cuidado para não quebrar.

Substituí as fotos antigas por novas, tentando transformar Ouro Preto em Leopoldina. Mas estar aqui, ladeiras e barroco, é tão intenso lúdico e frio que eu me sinto em frases de Caio Fernando Abreu, querendo ser como ele, imundo e brilhante.
Dolorido.

O Caroço se partiu e veio um gosto amargo de dentro, tenho que cuspir na pia da cozinha.

O filete de sangue vermelho batendo as suas asas, nadando para cima e para baixo nesse pequeno espaço de oceano, e vê-lo assim, balançando que nem cetim no ar, ondulando, roda viva, roda, como notas de piano em deserto, em uma introdução de “Beauty Queen”.

Faz um ano.

“Don´t know why she´s in my hand
Can´t figure what it is but I lie again”.

aguardente

Alan Blair ~

Foto e Texto por: Alan.

Mastigo os meus fones de ouvido.

O joelho encostado na mesa de mármore, gelado.
Luminária de argila com furos.
Olhos quentes, aguardente, água ardente descendo pelo meu pescoço, alcançando o peito, barriga.

Eu vou respirando fundo, assim, puxando o ar, soltando o ar, o nariz fazendo barulho,
entupido de catarro querendo escorrer.

Nos meus dentes, o fio dos fones, e eu pressiono mais forte, mais forte,
tocando qualquer Tori do tipo que me desfalece e me corta, e, mordendo mais forte,
mais forte, quase arrebentando o plástico dos fios, para que assim, no silêncio,
reste apenas o barulho do nariz entupido, olhos quentes, água ardente, aguardente queimando meu rosto, meu pescoço, meu peito, minha barriga e o catarro já escorrendo sem nem conseguir mais segurar, a respiração presa, sufocando.

Eu queria pausar tudo agora para poder ter mais colo de mãe, sentindo o cheiro de bolo de banana e dizer coisas do tipo como é difícil saber que meu tempo está acabando
e de como é bom estar aqui, presente,
mas eu não consigo escrever, por mais que eu tente, não sai.

Me enxugo antes que alguém suba para beber água,
já que pesar compartilhado é sempre mais difícil.

Amanhã é menos um. E aí?

What it all comes down to?

Alan Blair ~
Texto por: Alan.

(sobre o show da alanis, sobre são paulo, rio de janeiro e meus amigos com benefícios)

(para se ler com madness e orchids repetidas vezes…)

Em terras leopoldinenses dessas minas gerais, saí do ônibus às duas e quarenta da tarde com um arco-íris desfocado no céu.
Em seis dias algumas muitas coisas aconteceram, e por mais que eu tenha sido protagonista de tudo (dentro do meu ponto de vista pessoal), acabei sendo mais um telespectador daqueles que, com uma enorme bacia de pipoca, senta no sofá e assiste vidrado um dvd, um jagged little pill, live, talvez.

E agora, na minha pequena Leopoldina, sentado no banheiro com a porta fechada, aproximadamente nove da noite, tentando digerir tudo o que me aconteceu, com 39,5° de febre e a garganta estourando, sem saber se é conseqüência pós-alanis ou apenas uma puta gripe.

Tem algo de estranho acontecendo, cara. É como terminar de ler o último capítulo de um livro e, imediatamente, começar a ler outro, quem sabe até uma continuação do livro anterior, feito uma saga. Mas o que resta é perceber que, em alguns dias, coisas aconteceram e geraram mudanças e da mesma forma que a minha garganta está estourando, a minha cabeça também está, louca para sair por aí, rodando que nem you learn, nu na sala de visitas.

Oi, Alanis.

Alan Blair ~
Foto e Texto por: Alan.

Nove dias agora, só nove dias e parece que eu não durmo tem nove anos e parece que eu não como nada sólido e parece que eu estou cada vez mais deslocado, desmembrado, distorcido, desgrenhado, e parece, realmente parece, que eu tô morrendo de medo de morrer.

Eu to com um tubo, um cano, uma crosta entalada bem no meio da garganta e eu estou implorando por uma vontade de vomitar, de escarrar, de me explodir e me cortar de cima a baixo, em pedaços, em trapos, surdos e mudos, sem postura, sem direito, sem dever, sem prever, sem,
mas ainda é prematuro.

Quarto sem porta, estalando dedos estalados, sufocando, su-focando, catarro escorrendo pelo nariz que não respira, descendo pela boca que não faz um som, assim, desfocado sentado na privada do banheiro, disse que ia cagar pra todo mundo, mas foi chorar, foi chorar com seus fones de ouvido, “And you’ve never met anyone”, com as luzes apagadas ninguém vê nada, ninguém escuta nada, exceto a torneira aberta pra disfarçar uma lavada de mão.

E quando a gente vai dormir, a gente gira, roda, se revolta por não conseguir e se desespera por saber que amanhã, oito dias, sete dias, seis dias, já é o dia e, nisso tudo, não dormimos uma noite.

Eu não sei,
eu realmente não sei,
mas preciso me livrar de tudo isso logo pra poder ficar tranquilo,
mas só tranquilidade não me basta.

Talvez, pedir um abraço já é pedir demais, e eu peço tão pouquinho, que seja, ao menos, um abraço sem carinho, mas que seja um abraço.

“You’ve brought water to me, making sure my bloom rebounds
you know best of what my special care allows” ~ Orchids.

Original Sinsuality.

Alan Blair ~
Foto e Texto por: Alan.

Sentado sobre o meio fio da esquina três – aproximadamente uma hora e vinte e seis minutos da madrugada – olhava o relógio, pisando em urina de gato, rato, tato que fazia arrepiar, e assim, meio sem rumo, sozinho na esquina três, o olho ardendo de sono, a bunda dormente de tudo e a cabeça estourando de dor, batia o pé, em urina de gato, em urina de rato, tato que não tateava nada.

Uma hora e vinte e sete minutos da madrugada, levantou, ainda sem sentir a bunda, desequilibrou alguns passos, balbuciou gemidos e seguiu ao norte da esquina três, por vez parando, por vez andando, por vez cantando qualquer coisa em inglês,

E eu daqui do décimo terceiro andar do Edifício Flores, número cinqüenta e sete da esquina dois, olhando da janela, a luz apagada, meu peito parado e, de fundo, aquela ruiva histérica de sempre, tocando pianos com sua sensualidade original, observava aquele homem sumir, diminuir, desfalecer. E antes de desaparecer completamente, perto de uma hora e meia, ele estranhamente parou.

Tirou sua blusa,
Abriu os braços,
Abriu a boca,
E olhou para o céu, como quem espera alguma salvação divina, um perdão, uma seta indicando o caminho, a saída.

E eu queria que chovesse estrelas, que brilhasse qualquer tipo de coisa, poste purpurina farol, indicando qualquer vestígio de vai meu amigo, segue teu caminho tranqüilo que eu te cuido e te velo e te ajudo daqui de cima, mas nada.
Nem um pássaro, um avião, uma nuvem passou no céu.

E ele abaixou os braços, vestiu sua blusa, desequilibrou alguns passos, balbuciou gemidos e seguiu ao norte da esquina três, por vez parando, por vez andando, por vez cantando qualquer coisa em inglês que eu já não escutava mais aqui da janela com a ruiva gritando,
Com a ruiva gritando em meus ouvidos,
Com a ruiva gritando

“You are not alone
I say, you are not alone in your darkness.
You are not alone, baby,
You are not alone.”

Bösendorfer e brigadeirös.

Alan Blair ~
Foto e Texto por: Alan.

Sobre esse desconforto, há conforto nas lâmpadas quebradas, sendo assim, brilha mais um céu Leopoldinense, e a gente, cá de dentro, quase fora, gritando para os vizinhos “I am piecing a potion, to combat your poison” por volta dás vinte horas e quarenta e oito minutos da noite, desafinando, desafinado, porque eu sempre gostei mais do desafinado desconcertado descompassado desesperado que eu canto gritando.

E a gata tentando pegar um mosquito, e a cachorra dormindo no sofá, e meus pais dormindo em seus quartos, e o irmão fora de casa e eu aqui,

sendo um quase,
sendo um nada.

“She is risen
She is risen
Boys
I said she is risen”

– Barons of Suburbia – Tori.

cafés e(m) cama.

Alan Blair ~
Foto tirada pelo Tiago, Texto por: Alan.

“Maria Bethânia diz em seus shows que “felicidade a gente encontra em horinhas de descuidos”.
Venho me descuidando propositalmente.

Eu me peco em demasia e, as vezes, parece que deus esquece de tomar a pílula.

Deito na cama dos meus pais, sempre ao lado que minha mãe costuma dormir. Não sei, parece que é sempre mais aconchegante e quentinho deitar aonde deita a sua mãe.

Fecho os olhos. O ventilador na velocidade máxima faz barulho de arranhado. Assim, de olhos fechados, eu lembro de portões grandes e antigos, daquela casa que eu costumava pensar em comprar pra minha mãe se um dia fosse rico. (Ainda há tempo).

Tento parar de dar atenção ao barulho e percebo o quanto dói meu joelho direito.
Lateija, incomoda, arranha, que nem o ventilador.

Faz dois meses que tenho pesadelos constantes, com Leopoldina, com Ouro Preto.
Aí eu fico acordado até às cinco da manhã, dançando na cama desconfortável, mastigando o lençol, e acordo às duas da tarde. A casa toda de pé e o almoço já fora da mesa.
Fico, assim, sem comer o dia todo, só na base das canecas de café, andando pela casa, subindo e descendo as escadas, subindo e descendo as paredes, feito um disco arranhando,
repetindo, re-petindo, repet.indo…

“But I believe in peace
I believe in peace Bitch
I believe in peace
I believe in peace
But I believe in peace
I believe in peace Bitch
I believe in peace”

– The Waitress – Tori Amos.

Unsent em 2008.

Alan Blair ~

(eu e minha tia e meu primo na época de praia e avô joão).

Texto e Foto: Alan Blair

Querido Otávio…

Menino, como você era legal, e como tudo o que aconteceu entre a gente foi verdadeiro. Parecia filme, escondendo bilhetinhos por muros das ruas.

É uma pena que, agora, você abaixa a cabeça e disfarça o olhar quando a gente se cruza.

(Cuidado, querido. Ainda tenho cartas guardadas para incriminar teu amor).

Querido Ariza…
Sei que você está em minas, nesse momento. A lis me disse que deu de cara com você na sexta feira de noite. Se isso tivesse acontecido comigo eu acho que te sorriria amarelo e desajeitado, mas bastante amargo por dentro.
Você foi uma das coisas mais importantes que me aconteceu e eu sei que você sabe disso, e isso me machuca. Queria pegar uma faca bastante pontiaguda e cortar seu coração, lentamente e em pequenos pedaços, para que você chorasse pelo que eu chorei por você. Ainda assim foi bom. Te ver jantando e almoçando na mesa com a minha família foi como domingo, cachorro quente e refrigerante no quintal com crianças tomando banho de mangueira.

Eu penso em você todos os dias desde 28 de junho de 2007.
Todos os dias.
Não que eu seja obcecado por você ou completamente apaixonado por você ou deseje você. Mas é que você foi meu primeiro namorado e você foi o primeiro (e único ainda) que conheceu meus pais e que me mostrou músicas, livros, filmes e me fez superar aquele medo bobo de viajar.

Eu não devia ter viajado. Você não mereceu às oito horas de ida e às oito horas de volta de Leopoldina para Vitória.
Sempre morei em cidade pequena, nunca havia visto nada tão grande. Eu nunca havia atravessado um sinal de trânsito e você não deveria ter brigado comigo por causa disso. São coisas que machucam a gente, como a sua completa falta de etenção e de diálogo.

Aí hoje em dia eu penso em vocês todos os dias quando eu escuto algumas músicas, leio alguns livros e vejo alguns filmes, de certa forma você ainda está impregnado no meu coração, infelizmente. É que nós terminamos de uma forma não terminada e as coisas que eu tinha pra te falar na época, que eu não falei, só olhei pra você, forcei um riso (e não engoli o choro, depois) ainda estão aqui, engasgadas, como o prato de arroz e feijão que eu comia no dia que voce me ligou dizendo que estava à 3 minutos de mim e queria me ver.

Filho da puta.
Filho da puta mesmo.
Passar no vestibular, na federal, de primeira. Foi lindo pra mim te mostrar que eu consigo algumas coisas mesmo sem esse seu pseudo-intelecto de garoto maior e responsável. Bem feito pra você.
E responsável o caralho, se drogar da forma que se drogou não é nada responsável, e eu pelo menos nunca experimentei maconha e passei de primeira no vestibular.

Esse seu cabelinho de lado, a sua blusinha branca de botons, a calça rasgada e a mochila nas costas, quase que um revolucionário segurando uma bandeira. Só faltaria a blusa do che, pra você mostrar para todo mundo que um garoto como você – comunicação social e muito cigarro fumado – tinha idéias e opiniões e linhas para escrever um livro.

Eu vou conquistando um punhado de coisas e vou pensando em você. Queria sentar contigo, tomar uma cerveja, te mostrar o que estou aprendendo, saber da sua vida vitoriana e relembrar esse teu jeito.Quero te mostrar que aprendi a viajar sozinho e sei que pato bota ovo. Falei aquilo só de zueira, nem sei porque.

Eu devia era ter traído você quando tive oportunidade, mas eu não seria mais eu, sabe que não gosto dessas coisas.

Aí você volta na minha casa depois de 20 dias, assim, de surpresa – bergamota, estou à 3 minutos da tua casa e vou ai te ver – e me pega sem jeito, e eu digo – ah, agora? tá – mas na verdade eu grito – caralho, o que eu vou fazer? – e eu te abro a porta e bate vento e vem aquele cheiro de cigarro violento (você nao tinha parado de fumar quando a gente começou a namorar?) e eu olho pra voce e voce olha pra mim e me mostra sua blusinha nova – a maira quem me deu, de coqueirinhos (você sempre foi tao movimentista, senhor tropicalia) e vai pro meu quarto, pergunta se estava estudando pra passar de ano (vai tomar no cú) e pergunta se estava gostando do livro que me indicou (vai tomar no cu) e me fala que sente falta da minha casa, dos meus pais, de mim e que você era um idiota (mmm, é, você tá certo, idiota). Aí você desce, diz que volta nas férias pra gente sair e nunca mais volta, deixa a porta aberta, você deixou a minha porta escancarada, filho da mãe, e eu to aqui, mais de um ano depois e o que mais me doi de tudo isso é que eu, infelizmente, ainda penso frequentemente em você e tenho um carinho por você, velho, e se rolasse da gente ir tomar uma cerveja e conversar sobre o futuro e o novo ano e as coisas velhas, ia ser bem bacana. Você sabe onde me achar. Feliz ano novo.

:)

Querido Diego…

Você foi o cara mais sexy com quem eu já me deitei. Você foi a pessoa mais bonita que eu já me relacionei.
Lembro de te ver e falar – meu deus, que homem bonito… – e a forma como as coisas aconteceram com a gente foi da forma que eu mais prezo e admiro.
Voce do meu lado, sentado na roda, sua mao no meu joelho, minha mão na sua mão e o meu rosto corado, olhando pra baixo, morrendo de vergonha, morrendo de vontade, morrendo de esperança de desamar um outro alguém.
E foi intenso e verdadeiro e bonito demais.

Você é do tipo de homem trabalhador que chega em casa cansado e ainda tem disposição para agradar a sua mulher, dar todo o amor pra ela e ser o dono do pedaço.

Acho que foi aí que apareceu o erro, meu querido.
Eu não era mulher, eu nao sou mulher, eu nao era e não sou o “seu menininho”.
eu tenho vinte anos nas costas e não “meu menininho de 14 anos” como costumava falar.

Tenho as mesmas necessidades que as suas necessidades, e posso ter cara de anjo mas posso ser muito mais forte e bravo do que sua mãe ou seu pai.

Te desejei demais, e tive você demais, e achava lindo as coisas que você fazia para estar comigo… lindo, meu lindo.
Mas acontece que depois de sete meses com algumas privações a gente cansa, né?

É bom falar com você sempre, meu querido, e foi lindo a gente terminar sem brigar, se amando e chorando esse término. Eu to aqui sempre para o que você precisar, fique a dica, fomos lindos juntos e eu te agradeço por isso.

Obrigado por tudo.

Ah, diego, seja mais flexível se houver outro relacionamento homossexual e pare de escrever alternado no msn.

Beijos!

Wanted.

Alan Blair ~

Texto e Foto: Alan Blair

Sou um cara bacana, tranquilo e legal que busca uma pessoa preferencialmente do sexo masculino que seja também bacana, tranquilo e legal. Não precisa ser bonito em demasia, mas também não precisa ser from hell. Fico satisfeito com as pequenas coisas e demonstrações de amor. Se quiser me comprar caros presentes ficarei grato, mas uma flor não me faria mal nenhum. Essencial que goste de bons filmes, boas músicas, bons livros e uma boa sogra, que durma de conchincha e que ela não se desmanche durante a noite, e que esteja apto a enfrentar tempestades, dificuldades e obstáculos, sejam eles quais forem, e acima de tudo, seja livre para amar sem preceitos.

Dear Alanis,

Alan Blair ~
Texto: Alan Blair

Oi alanis, tudo bom?
Você me alegra em momentos de micro felicidades, sabia?
(macro também, mas as felicidades menores são sempre as gostosas).
Gosto um pouco bastante de você já faz um tempo, eu me perco às vezes gritando pela casa a sua música, meu remedinho amargo, que nem é mais amargo assim.

As vezes, quando eu to querendo dormir, eu ligo o mtv e fico lá, com no pressure over cappuccino, e me lembro da vanessa – alan, vou fazer um filme e vai ter uma cena da protagonista que segue a rua chorando, tocando no pressure de fundo, vai ser lindo – e realmente ia ser lindo. Aí eu lembro de tantas coisas que já aconteceram na minha vida em que você estava presente. Meu primeiro amor de verdade verdadeira – Vanessa, rio de janeiro, carnaval, mulher e não homem, fiquei louco de amor, amor de carnaval desses legítimos, iniciam no primeiro dia de festa e terminam na quarta-feira de cinzas. Meu irmão diz que não gosta de você, mas sei que no fundo é tudo para implicar comigo. Agora que moro fora de casa e ele sente saudade de mim ele diz que até gosta de ti.

Alanis, eu sonho com você. Sonho com você diversas vezes e fico triste um dia inteiro quando eu acordo.
Penso em você todos os dias.
Penso na gente andando por aí, juntos, eu te contando sobre minhas vontades, você sobre esse teu mundo que eu conheço de fora, e fico louco para conhecer de dentro, (não literalmente).
As pessoas me perguntam se eu te beijaria. Beijaria. Não de língua. Eu não beijaria minha mãe de língua. Eu não te beijaria, então, de língua.

Te escrevo coisas mas ficam por aí, tipo largadas, como eu vou te mandar? Aí eu acho melhor mandar tudo em pensamento, que vira energia positiva, essas coisas, chakras, kundalini, vibrações positivas, você que já foi pra índia sabe como é. Om mani padme hum para todos nós.

Alanis, mmm, alanis é quase alan, lembro que na sétima série, eu ainda tinha um bloqueio sobre a minha sexualidade e os meninos me chamavam de “alanis, alanis, alanis” eu ficava puto e queria te matar, garota, ter logo esse nome e ser famosinha, poxa, acabava comigo. Mas como sou felizinho com esse meu nome e a nossa semelhança. Agradeço muito a dona márcia e seu chico por isso, valeu.

Sempre vou me lembrar de Hands Clean pessando no sbt e a voz da moça falando “o mais novo álbum de Alanis Morissette – Under Rug Swept” – a forma como ela gesticulava as palavras estão aqui na minha cebeça até hoje, e a sensação de deixar o volume bem alto e te escutar, limpando as suas mãos.

Eu estou contigo no sempre e no constante, garota, e eu te elogio pela sua coragem, te saúdo pela sua perseverança e te abraço por sua fé.
Temos ainda um bom tempo pra sonhar, e se nesse tempo a gente conseguir se esbarrar, tomar um chá, contar sobre nossas futuras esperanças, assim, um para o outro, eu ficarei bastante lisonjeado e agradecido, e então eu poderei dizer que irei morrer sendo um homem feliz, porque uma de minhas mão está no meu bolso, e a outra, garota, está segurando a tua.

Um beijo do teu amigo brasileiro.

Alan.
Xoxo.

Guarda-chuva para os sapatos.

(já dizia Tori Amos…)

Alan Blair ~
Foto: Tiago. Texto: Alan Blair

Chove torrencialmente em leopoldina.
Os rios de toda a região ficaram cheios e transbordaram, levando casas, carros e árvores por todo o caminho, até desaguar em qualquer lugar.

Já são quatro longos dias de chuvas sem pausa.
Fico trancado em casa, só escutando e molhando meus braços esticados para fora da janela.
Vez ou outra, pego um jornal e faço barcos.
Solto na beirada da calçada, desejando caber nele.

Apago as luzes, e propositalmente despercebido, apago minha luz.

A chuva não se cansa de cantar em meu telhado (e eu não me canso de escutá-la).

Palidez______________ .

Alan Blair ~
Foto e Texto: Alan Blair

Folha em branco,

vazia,

cheia de nada

é folha que grita.

Gold Dust

Alan Blair ~
Foto e Texto: Alan Blair

Dona Márcia,

Meu nariz se enche de cosca quando penso na gente.

PULSE

Alan Blair ~
Foto e Texto: Alan Blair

Têm um bico de chaleira enfiado no meu peito esquentando a pele que se machuca rasga sangra de dentro para fora para dentro do bico da chaleira.

São 04h07min da manhã, está um barulho estranho lá fora e eu me lembrei que esqueci de lembrar de trancar o portão. Tenho medo de sapos, não ponho meus pés lá fora – chão de terra – telefonaria para Campos Pereira – 34413425 – chamaria para tomar um chá dás 04h7min da madrugada, refletir sobre o futuro perdido de como a vida ainda pode melhorar vamos desligar a televisão com essas notícias de morte por balas perdidas, mas ela está dormindo e meu telefone cortado.

A gata tem um sininho prata, por onde ela passa faz um barulho e eu sei que gosto disso, não me sinto sozinho já que às 04h a casa é sempre escura, aí eu dou play no Pink Floyd, estourando meus ouvidos a madrugada toda e prometo que só experimentarei maconha na hora do “Another Brick In The Wall (Part II), fumando com meus pais.

Acendo a luz do banheiro e enfio fundo os dedos nos olhos até arder para imitar o sono. Mas o sono não vêm.

E esse bico de chaleira rasgando a minha pele, tá tocando os ossos, passando a cavidade toráxica e pulsando meu órgão muscular – SÍSTOLE – DIÁSTOLE – mandando sangue quente para a parte mais gelada do meu COR-po.

A criança se foi.

Alan Blair ~
Foto: Tiago e Texto: Alan Blair

“From the roots of my soul come a gentle coercion
And I ran my hand oer a strange inversion
A vacancy that just did not belong
The child is gone…”

(ouro preto, noite de 29/11/2008 )

Tô escrevendo quando algumas coisas já estão perto do seu fim.
Há uma necessidade enorme de que logo tudo termine, preciso de três meses de dona márcia, seu chikinho, lis, vanessa, demm´s, entre outras coisas supostamente excepcionais e essenciais.
Vou sentir falta desse quarto, e tá um barulho de chuva lá fora que torna tudo bastante confortável, (daqui dá pra escutar as gotas batendo no teto, é engraçado).
Até faria um bom “chá contra gripe”, mas não estou gripado e a preguiça está presente nessas quatro paredes, vou ficar aqui, parado, feito meus quadros abstratos.

Algumas coisas vão chegando ao seu fim na hora que realmente precisam acabar, enquanto outras coisas vão sendo, aos poucos, tecidas, para que num futuro nem muito perto, mas também não muito longe, possam acontecer e aí, novamente, acabarem, como tudo, graças a deus amém.

passatempo

Alan Blair ~
Foto e Texto: Alan Blair

volta logo que eu tô de saudade, e nesse meio tempo, eu desaprendi a aguentar.

Take to the Sky.

Alan Blair ~
Foto: Fabrício e Texto: Alan Blair

Viagem com Fabrício – Rio – Show da Maria Bethânia – Leopoldina

Sexta-Feira, 07/11/2008, 5h – Ouro Preto-Mariana-Viçosa-Rio de Janeiro-Leopoldina-Ubá-Viçosa-Mariana-Ouro Preto, Terça-Feira, 11h15min.

A gente passa pela vida rapidinho, com um sorrisinho bacana, assim meio de lado, feito astro de cinema, de paletó rasgado, calça jeans desbotada, botina e cigarro queimando, cantando Bob Dylan.

Ou então a gente entra no ônibus, oito ônibus, vê tudo em câmera rápida do lado de fora e, no lado de dentro, com o joelho doendo, escutando “take to the sky”.

A segunda opção certamente é mais favorável.

” you can say it one more time
what you don’t like
let me hear it one more time then
have a seat while i
take to the sky…”

welcome to sunny flórida.

Alan Blair ~
Foto: Fabrício e Texto: Alan Blair

Tem um mosquito subindo e descendo a tela do computador, e, depois de tanto calor que fez em Leopoldina, está chovendo um pouquinho. Todas as luzes estão apagadas. O que mais clareia essa escuridão é a televisão ligada, com a Tori cantando só para mim.

Está tudo bastante silencioso, apesar da música e do barulho que a chuva faz batendo no telhado de alumínio, (se é que o telhado é mesmo feito de alumínio).

Queria que a chuva despencasse muito mais forte, (eu sempre gostei de trovões barulhentos e da falta de energia, sempre achei velas um objeto bem cênico), e queria também aumentar o som no último volume, fazer a voz da Tori cortar meus tímpanos, mas já são 23:42 e a vizinha não gosta muito dela. Aí eu abro a geladeira, (pelo caminho vejo a Julie deitada no canto), e pego um saco de azeitonas para comer enquanto escrevo coisas como essas.

O mosquito desceu mais pela tela do computador. Daqui a pouco ele sobe novamente.

Saio daqui umas três da madrugada, pego o celular, ligo a lanterna para não cair da escada, abro e fecho as portas pelo caminho, tiro minha roupa e me deito.

No domingo, pego cinco ônibus de volta para a saudade, escutando e cantando (baixinho) “father lúcifer, you never looked so sane…”

dramin

Alan Blair ~
Foto e Texto: Alan Blair

Durante todo o ano foram vinte e nove ônibus,
sempre indo e sempre tendo que voltar.

Durante todo o ano eu venho aprendendo a crescer,
mas até agora não consegui aprender a conviver com toda essa ausência.

Durmo em um quarto de quatro paredes e sem janela.
Durmo em um quarto de quatro saudades e sem saber como aguentar.

It´s a Bitch to Grow Up

Alan Blair ~
Foto e Texto: Alan Blair

O que mais me dói é ter que ir embora quando eu mais quero ficar, sem saber, ao menos, quando vou voltar.

Caligrafia de asfalto.

Alan Blair ~
Foto e Texto: Alan Blair

Já não escrevo mais como antes.
Assim como o sossego, as palavras caíram no asfalto, entre uma cidade e outra.

Se sair no noticiário que palavras se findaram no chão, saibam que foram as minhas,
a fim de transformar as estradas em poesia.

Isto é Leopoldina, sonora verdade.

Alan Blair ~
Foto e Texto: Alan Blair

Peguei um ônibus, sentei na 13, abri a janela, tocando alanis.

(Não há nada realmente melhor do que o cheiro da nossa cidade natal)

Quando a gente tem que voltar.

Alan Blair ~
Foto e Texto: Alan Blair

(Pegando o ônibus, deixando Leopoldina, voltando pro preto do ouro para subir e descer ladeiras)

A minha saudade não tem cheiro, cor e nem gosto.
(Ela tem desespero)

cinematográfico.

Alan Blair ~
Foto: Demm – Texto: Alan Blair

Querido Demm,

talvez estivéssemos no terraço do maior prédio da maior cidade do mundo, e lá de cima conseguíssemos ver todas as luzes e carros e pessoas sem privacidade pelas janelas abertas. Aí tocariam violinos e, feito mágica, acenderiam as velas.

Então estamos no alto da maior montanha e temos uma bergamoteira bem em frente a gente, e atrás, uma casinha de madeira com janelas de cortinas brancas, bebedouro de beija-flor e uma jardineira cheia de amores-perfeitos, e ao invés de violinos, uma orquestra de bem-te-vi, bem-te-quero, bem-te-amo.

Mas talvez não tivesse lugar bonito, nem música de fundo, fosse quase um nada… fosse mesmo uma longa distância quilométrica de horas e preços não-promorcionais, e ainda assim fosse tão forte quanto o amor do casal que vai à pracinha de mãos dadas tomar sorvete num domingo à tarde. É desse amor que eu te digo, menino, que eu sinto e que eu prezo e, mesmo que eu me canse, é desse amor que eu espero.

Colírio.

Alan Blair ~
Foto e Texto: Alan Blair
(Fugindo de Ouro Preto, vindo escondido passar o dia das mães, brigadeiro e amigos, mata saudade.)

Sempre que eu fecho os meus olhos eu consigo te enxergar.
Seria muito pedir que, para quando eu os abrir, conseguir te encontrar?

fome come.

 
Alan Blair ~
Foto e Texto: Alan Blair

A minha saudade me dá fome,
e eu não tenho o que comer.

um pulo.

Alan Blair ~
Foto e Texto: Alan Blair

(Ouro Preto, Bergamotas, feriado sozinho, quero colo de mãe).

Me soprapram para tão longe que eu não consigo mais distingüir a distância. (Poderiam ter-me soprado para tão alto a fim de não mais conseguir distingüir o meu medo de altura).

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Duas partes de um gomo:


O Alan:

20 anos; mineiro que come quieto e sonha.
SON-HA.


A Bergamota:

Eu tropeço, mas levanto. Eu acerto, mas nem tanto. Eu espero e não me canso. Eu me encontro em teu balanço.

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オテモニャン em black snow
Anna em black snow
Renata em black snow
Victor em black snow
Renata em ?

durante as estações…

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