
Foto e Texto por: Alan.
Me mudei para debaixo da escada.
As paredes brancas, tenho uma cama e com a falta de bombril, improviso bolinhas de algodão nas pontas da antena da TV, mesmo sabendo que não dará em nada.
Agora eu tenho um peixe vermelho-sangue feito a tinta desta caneta, que bate suas asas, como se voasse, remexendo a calda dentro daqueles aquários redondos. É como pingar corante vermelho na água, dissolvendo bem aos pouquinhos, até ficar um líquido homogêneo.
Ta tudo cheirando a mofo e eu mastigo um caroço de azeitona, com cuidado para não quebrar.
Substituí as fotos antigas por novas, tentando transformar Ouro Preto em Leopoldina. Mas estar aqui, ladeiras e barroco, é tão intenso lúdico e frio que eu me sinto em frases de Caio Fernando Abreu, querendo ser como ele, imundo e brilhante.
Dolorido.
O Caroço se partiu e veio um gosto amargo de dentro, tenho que cuspir na pia da cozinha.
O filete de sangue vermelho batendo as suas asas, nadando para cima e para baixo nesse pequeno espaço de oceano, e vê-lo assim, balançando que nem cetim no ar, ondulando, roda viva, roda, como notas de piano em deserto, em uma introdução de “Beauty Queen”.
Faz um ano.
“Don´t know why she´s in my hand
Can´t figure what it is but I lie again”.
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