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, à espera do gosto seco.

Alan Blair ~

Foto: Arquivo pessoal. Poesia por: Alan Blair

As flores produziam um cheiro forte que ardiam as narinas. Um cheiro tão singular e natural daquele lugar que fazia arrepiar os cabelos crespos do pescoço.
Passou, apressadamente e insegura, por três lotes, dobrou à direita e suspirou de alívio ao deparar-se com uma cruz de madeira, quase imperceptível, fazendo contraste com os outros jazigos daquele lugar.

Rezou, rezou, rezou e chorou, habitualmente, como fazia no primeiro dia de cada mês.
Brincos de plástico que pendiam até a nuca, de um esverdeado velho, descascado.
Por volta dos olhos, várias voçorocas, onde um bom leitor de mãos desvendaria ocultos destinos. Cabelos longos, armados, de duas cores: brancos no topo, e no que sobrava, vermelho desbotado-descascado-desgraçado, até a ponta.

Depositou as margaridas encostadas no pedaço de madeira que lutava com os cupins.
Sinal da cruz e disse amém.
Caminhou tentando privar-se dos arrepios e do gosto de nada na boca – vazio, seco, catarro.
Cloc, cloc, cloc, eram os barulhos de suas sandálias esmagando as pedras no chão, cada vez mais rápido.
Mal sabia ela – desaventurada – que havia alguém pronto para atacar.
Mal sabia ela – desgraçada – que ali, naquele cemitério imundo e esquecido, seus dias tomariam rumos diferentes.

Sentiu aquela pressão na cabeça – pancada, soco, paulada – e despencou no chão.
Arrancaram a roupa, devassaram suas pernas, rasgaram sua pele, cavaram buracos.
Mordia a boca tão forte que conseguia sentir gosto de sangue.
Pancada, soco, paulada – sangue na boca, rasgava a pele, cavava buracos.

Estirada no chão – acabada, fodida, cortada – decidiu que, desde então, visitaria sua mãe todos os dias no cemitério, à espera de arrepios e do gosto de nada na boca – vazio, seco, catarro.

; par.

Alan Blair ~
Foto e conto por: Alan Blair

Apertaram as mãos do tempo.
Sentiram o frio nos pés descalços.
Tremeram com o vento.
Brilharam com as estrelas e perfumaram-se com as flores do canteiro.

Estavam sozinhos – os dois – debruçados diante de toda a infinidade de prédios que se extinguiam não sabiam aonde.
Contavam os carros – inofensivos, visto de cima – e espiavam, indiferentes, o cotidiano refletido pelas janelas abertas do cortiço mais sem graça de toda a cidade.

Passou um pássaro – passou um avião – passou uma estrela – as horas passaram – passou o silêncio.
Passou, diante de toda a simplicidade dos dois, um gemido nascente de algum beco, com ou sem saída, esquecido e intacto.
Um gemido que não foi capaz de desafinar a sintonia daquele par.

Então, choveu branco-sólido-puro.
A neve fria derretia no encontro da pele dos dois e escorria, remoçando toda a velhice, indo, por fim, de encontro com o chão, direto para o ralo, remoçando, também, as valetas, bueiros, tristezas, desilusões e os destinos de todos os aventurados que cruzavam com o tico da esperança daqueles dois.

Em cima do terraço, enfrentando o tempo, o desgasto e o frio, petrificaram-se, fazendo parte da arquitetura de toda uma eternidade.
Para sempre, um par.

~ o casamento de uma flor com a lua.

Alan Blair ~
Foto: Fabrício Valente. Edição Fotográfica: Alan Blair. Conto: Alan Blair

Assim se fez, abrindo espaço pelas beiradas da calçada, despertando de sua excentricidade, cada pedaço de seu brilho, diante de toda a multidão que nem ao menos percebia.

Foi subindo, devagar, e abrindo lentamente, refletindo suas pétalas nos cantos sujos de toda a rua.
Bailava em pleno ar na medida em que subia, salpicando com seu verde, o rosto das pessoas sem rosto.

Fincada no chão do viaduto, conquistava os prédios, arranhando todo o céu, misturando-se com as nuvens e confundindo-se com a chuva, convidando as estrelas à presenciarem seu casamento com a lua.

Foi tanto brilho e tanta mistura de cores, que as pessoas lá embaixo – apressadas, distraídas – confundiram o amor de uma flor e de uma lua com fogos de artifício, comemorando a procissão que passava pela rua.

¨realidade –

Alan Blair ~

Foto e conto por: Alan Blair

- Abriu a porta da realidade como quem abre enlatados.

Lá dentro tilintava e brilhava, repleto de salpicos chamativos que desviavam toda a atenção.

Poderia pular de uma só vez, penetrando em cada pequeno e incógnito espaço dessa misteriosa realidade. Mas poderia, também, voltar os passos e fechar os olhos. Entre seguir e voltar, resolveu ficar em pé, parado, três passos antes de conseguir descobrir o que precisava e tanto queria encontrar.

Mas o medo, esse tal medo que nos encomoda, esse medo que aparece várias vezes ao dia em nosso interior… sabe? Então, foi esse medo que não permitiu o PROSSIGA.

Ficou ali, como estátua, à mercê dos pássaros. Mas ele pudia ver através do caixilho da janela toda a luminosidade presente na realidade.

Em seu pensamento rodava e rodeava frases incompletas, atos imprecisos, vontades insatisfeitas e medos permanentes.

MEDOS PERMANENTES.

Estaria, ele, o mundo, as coisas, as pessoas, preparadas para essa realidade?

Nó na garganta, frio no estômago. Um passo à frente, um medo para trás.

Se seguir não poderá mais voltar. Se voltar, como conseguirá, enfim, penetrar nessa realidade tão brilhante e convidativa?

Descobriu a alma e descalçou os pés, e, bem devagar lá foi ele penetrando na luminosidade. Era tanto brilho e tanta cor aparecendo e misturando-se que já não era mais possível distingüir pessoa, cor, porta, caixilho, janela, pois tudo era, então, realidade.

Pura-Sólida-Verdadeira.

Real realidade.

– in-fi-ni-to.

Alan Blair ~
Foto e conto por: Alan Blair

E foi sem desespero nas mãos e forças nos dentes que ele se levantou daquela cadeira (única cadeira) no centro da sala (única sala) e caminhou (em nome do pai) em direção à janela (em nome do filho), e aos pouquinhos, foi abrindo, fresta por fresta (em nome do Espírito Santo).

Abriu.

(Amém).

Lá fora era infinito.

“In-fi-ni-to”, ele pensou.

E olhou em volta, e viu, novamente, a velha cadeira daquela sala.

Com as mãos, ajeitou os cabelos, tirou os sapatos, a sua blusa, calça, casca, carne, tristeza, limitações. Ficou só alma-alma e subiu no parapeito da janela.

Antes de derramar-se, ainda olhou em volta e pensou “porquê não?”.

Fechou os olhos, sem desespero nas mãos e nem força nos dentes. Ficou leve, e foi, devagarzinho, escorregando da madeira gasta da janela velha e suspirou.

Era gostoso assim, não ser mais parte morta daquela sala, e sim vivacidade de todo o céu. Antes de desaparecer de nossas vistas, ele pensou “In-fi-ni-to” e disse “Amém”, catito, na gostosura que era viver.


Duas partes de um gomo:


O Alan:

20 anos; mineiro que come quieto e sonha.
SON-HA.


A Bergamota:

Eu tropeço, mas levanto. Eu acerto, mas nem tanto. Eu espero e não me canso. Eu me encontro em teu balanço.

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