Arquivo para a categoria 'Leopoldina'

travessura

Alan Blair ~
Foto e Texto: Alan

Pretendo sair daqui na sexta feira dia 30, ta quase chegando, vamos fazer deveras coisas legais e “matar essa saudade que me invade o coração”. Mande encher as ruas de confetes e serpentinas, tocar banda no coreto e balão de festa nos postes da avenida pra eu passar, agarradinho com vocês, os cachorros seguindo atrás como sempre, barraquinha de churrasco e queijo quente do Getúlio, sorvetes Sol & Neve e as velhas liquidações do Bazar Renée que ninguém nunca compra, pra de noite paquerar sentadinho na pracinha do Banco do Brasil. Os animais, a gata, cachorras e a família reunida comendo pizza e se amando nessa cidade gostosa chamada Leopoldina.

Grecin 2000

Alan Blair ~
Foto e Texto: Alan

Cortei meus cabelos.
(Mais uma vez).

Ao escorrer para o ralo, ameaçou não descer.
Forcei com os dedos fincando forte no buraco do ralo nojento,
cabelos grudando nas minhas unhas, tufo, maço,
punhado de esperma grisalho, Grecin 2000.

Ameaçou não descer, mas desceu.
Depois de muito esforço desceu,
a água girando anti-horário, redemoinho louco berrando rouco, e eu de pé, tampouco importa,
dando tchau, como quem fecha a porta, tranca duas vezes e joga as chaves fora.

marasmo.

Alan Blair ~
Foto por Ronald Péret – “Dama da Noite”, Alan Villela.
Texto: Alan.

Cheiro de bosta de cachorro pisada entre o garcía marquez, drummond e josé saramago.

Música envangélica berrando “amém senhor amém senhor amém senhor”, sem nem ter certeza se evangélico diz “amém”.

A tosse seca da moça lá desgranhada cabelo nojento de puta velha mal comida me olhando de um jeito desconfiado
como se fosse roubar seus livros podres, enfia o “amém senhor” na xota e para de me olhar assim que eu só tô folheando.

Poeiras e aranhas entre Sabrinas, quadrinhos e revistas pornôs,
polegar direito direto na coxa desnuda daquele lá que eu não sei dizer quem é mas bem que eu gostaria de saber.

A puta velha entretida no louvor do amém senhor, aí eu saco a minha arma e me preparo pra atirar, atrás da estante,
da poeira nojenta, do cheiro da bosta de cachorro pisada, amém senhor, amém senhor, ai man señior!

Porra melada na coxa desnuda daquele lá que eu não sei dizer quem é mas agora pouco me importa,
poeira, porra e traça entre literatura, cultura e sexo.

Adoro o marasmo dos dias nublados.

trem bão.

Alan Blair ~

Foto e Texto por: Alan.

(Férias, Leopoldina e Márcia Goldsmith)

e a gente, nós, sempre sabe, sabemos, da tranquilidade de voltar, estar, em casa.

aguardente

Alan Blair ~

Foto e Texto por: Alan.

Mastigo os meus fones de ouvido.

O joelho encostado na mesa de mármore, gelado.
Luminária de argila com furos.
Olhos quentes, aguardente, água ardente descendo pelo meu pescoço, alcançando o peito, barriga.

Eu vou respirando fundo, assim, puxando o ar, soltando o ar, o nariz fazendo barulho,
entupido de catarro querendo escorrer.

Nos meus dentes, o fio dos fones, e eu pressiono mais forte, mais forte,
tocando qualquer Tori do tipo que me desfalece e me corta, e, mordendo mais forte,
mais forte, quase arrebentando o plástico dos fios, para que assim, no silêncio,
reste apenas o barulho do nariz entupido, olhos quentes, água ardente, aguardente queimando meu rosto, meu pescoço, meu peito, minha barriga e o catarro já escorrendo sem nem conseguir mais segurar, a respiração presa, sufocando.

Eu queria pausar tudo agora para poder ter mais colo de mãe, sentindo o cheiro de bolo de banana e dizer coisas do tipo como é difícil saber que meu tempo está acabando
e de como é bom estar aqui, presente,
mas eu não consigo escrever, por mais que eu tente, não sai.

Me enxugo antes que alguém suba para beber água,
já que pesar compartilhado é sempre mais difícil.

Amanhã é menos um. E aí?

Bösendorfer e brigadeirös.

Alan Blair ~
Foto e Texto por: Alan.

Sobre esse desconforto, há conforto nas lâmpadas quebradas, sendo assim, brilha mais um céu Leopoldinense, e a gente, cá de dentro, quase fora, gritando para os vizinhos “I am piecing a potion, to combat your poison” por volta dás vinte horas e quarenta e oito minutos da noite, desafinando, desafinado, porque eu sempre gostei mais do desafinado desconcertado descompassado desesperado que eu canto gritando.

E a gata tentando pegar um mosquito, e a cachorra dormindo no sofá, e meus pais dormindo em seus quartos, e o irmão fora de casa e eu aqui,

sendo um quase,
sendo um nada.

“She is risen
She is risen
Boys
I said she is risen”

– Barons of Suburbia – Tori.

cafés e(m) cama.

Alan Blair ~
Foto tirada pelo Tiago, Texto por: Alan.

“Maria Bethânia diz em seus shows que “felicidade a gente encontra em horinhas de descuidos”.
Venho me descuidando propositalmente.

Eu me peco em demasia e, as vezes, parece que deus esquece de tomar a pílula.

Deito na cama dos meus pais, sempre ao lado que minha mãe costuma dormir. Não sei, parece que é sempre mais aconchegante e quentinho deitar aonde deita a sua mãe.

Fecho os olhos. O ventilador na velocidade máxima faz barulho de arranhado. Assim, de olhos fechados, eu lembro de portões grandes e antigos, daquela casa que eu costumava pensar em comprar pra minha mãe se um dia fosse rico. (Ainda há tempo).

Tento parar de dar atenção ao barulho e percebo o quanto dói meu joelho direito.
Lateija, incomoda, arranha, que nem o ventilador.

Faz dois meses que tenho pesadelos constantes, com Leopoldina, com Ouro Preto.
Aí eu fico acordado até às cinco da manhã, dançando na cama desconfortável, mastigando o lençol, e acordo às duas da tarde. A casa toda de pé e o almoço já fora da mesa.
Fico, assim, sem comer o dia todo, só na base das canecas de café, andando pela casa, subindo e descendo as escadas, subindo e descendo as paredes, feito um disco arranhando,
repetindo, re-petindo, repet.indo…

“But I believe in peace
I believe in peace Bitch
I believe in peace
I believe in peace
But I believe in peace
I believe in peace Bitch
I believe in peace”

– The Waitress – Tori Amos.

Guarda-chuva para os sapatos.

(já dizia Tori Amos…)

Alan Blair ~
Foto: Tiago. Texto: Alan Blair

Chove torrencialmente em leopoldina.
Os rios de toda a região ficaram cheios e transbordaram, levando casas, carros e árvores por todo o caminho, até desaguar em qualquer lugar.

Já são quatro longos dias de chuvas sem pausa.
Fico trancado em casa, só escutando e molhando meus braços esticados para fora da janela.
Vez ou outra, pego um jornal e faço barcos.
Solto na beirada da calçada, desejando caber nele.

Apago as luzes, e propositalmente despercebido, apago minha luz.

A chuva não se cansa de cantar em meu telhado (e eu não me canso de escutá-la).

Gold Dust

Alan Blair ~
Foto e Texto: Alan Blair

Dona Márcia,

Meu nariz se enche de cosca quando penso na gente.

PULSE

Alan Blair ~
Foto e Texto: Alan Blair

Têm um bico de chaleira enfiado no meu peito esquentando a pele que se machuca rasga sangra de dentro para fora para dentro do bico da chaleira.

São 04h07min da manhã, está um barulho estranho lá fora e eu me lembrei que esqueci de lembrar de trancar o portão. Tenho medo de sapos, não ponho meus pés lá fora – chão de terra – telefonaria para Campos Pereira – 34413425 – chamaria para tomar um chá dás 04h7min da madrugada, refletir sobre o futuro perdido de como a vida ainda pode melhorar vamos desligar a televisão com essas notícias de morte por balas perdidas, mas ela está dormindo e meu telefone cortado.

A gata tem um sininho prata, por onde ela passa faz um barulho e eu sei que gosto disso, não me sinto sozinho já que às 04h a casa é sempre escura, aí eu dou play no Pink Floyd, estourando meus ouvidos a madrugada toda e prometo que só experimentarei maconha na hora do “Another Brick In The Wall (Part II), fumando com meus pais.

Acendo a luz do banheiro e enfio fundo os dedos nos olhos até arder para imitar o sono. Mas o sono não vêm.

E esse bico de chaleira rasgando a minha pele, tá tocando os ossos, passando a cavidade toráxica e pulsando meu órgão muscular – SÍSTOLE – DIÁSTOLE – mandando sangue quente para a parte mais gelada do meu COR-po.


Duas partes de um gomo:


O Alan:

20 anos; mineiro que come quieto e sonha.
SON-HA.


A Bergamota:

Eu tropeço, mas levanto. Eu acerto, mas nem tanto. Eu espero e não me canso. Eu me encontro em teu balanço.

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Ouro Preto em Bergamota
Anna em Grecin 2000
giordana em marasmo.
giordana em P&B
Victor em P&B

durante as estações…

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