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machê

Alan Blair ~

Foto por Ronal Peret, “Vertigem do Pecado” – Direção: Eliane Rocha – Atuação: Alan Villela e Higgor Vieira.
Texto por: Alan.

O bombril nas pontas da antena da tv.
Papel machê secando na lâmpada acesa.
Nossos peixes dourados molhados no aquário e, no armário, pão e bolo que eu comprei pra nossa noite.

Os barulhos das chaves são marteladas na minha cabeça. Porta trancada duas vezes, conferindo.
Eu ligo o som na tomada e o que toca é o silêncio…
Fiz um chá de alfazema (?) pra fazer descer o bolo que eu engulo, sozinho.

Eu imagino que seja só uma brincadeira de mau gosto, uma surpresa pra mim, mas no fundo eu sei que não, não é, mas mais lá no fundo a esperança desesperada berra como louca, mas eu sei que não, não é.

Embrulhei minhas semanas no silêncio esse semestre. Economizei palavras e acumulei sentenças, e o que eu sei é dessa necessidade de explodir junho com porradas de garrafas de café.

Agora eu tenho um manicômio inteiro só para mim, minha loucura particular que ele não foi capaz de suportar.
Três meses é uma camisa de força pra você, dezessete. Nem deu tempo de marcar meu dedo.

É que eu só queria ser o mocinho, mais uma vez, e me esqueci que, literalmente, o mocinho era você.

Acumulei mais um pra minha pequena agradável lista de “unsent”.

O José Saramago está embrulhado de dourado no fundo da gaveta, esperando por alguém.

(Que não amarele com o tempo…)

10/06/2009
01h53min.


“You live you learn
You love you learn
You cry you learn
You lose you learn
You bleed you learn
You scream you learn”

estados físicos.

Alan Blair ~
Foto e Poesia por: Alan Blair

Bem-me-quis, pássaro verde,
Distribuindo em flores, doces beijos,
Colhendo em troca, amarga jóia,
Dissolvendo em lábios, ácido líquido,
corroendo peitos,
fixando danos,
roendo, pouco a pouco,
até solidificar-se.

Podridão

Alan Blair ~
Foto e poesia por: Alan Blair

Irei escutar aquele silêncio gritante que te mete medo
Defecar lamentos e vomitar esperanças
E amanhã voltar para casa com um gosto febril na boca.

E lá vamos nós (novamente) sentir o cheiro podre do hospital.

(papai no hospital, Bergamota também.)

– pingo vermelho

Alan Blair ~
Foto e poesia por: Alan Blair

Ninguém está me notando
Ninguém vai me notar
Eu vou para a rua e grito alto, e ninguém escuta, ainda assim.
Se o mundo não estiver surdo, estarei eu, ficando louco?
Lá em cima, no céu, está caindo chuva vermelha.
Chuva de sangue.
Vem fervendo.
Se te encostar
Tzzzzz.

¨Prisão

Alan Blair ~

Foto e poesia por: Alan Blair

Tenho vivido em uma prisão, grudado no teto, pisoteado no chão.
Por favor, não abra a janela. Por trás das persianas, todos me observam grudado no teto, pisoteado no chão.

Já disse que sinto gosto de sangue na boca? E nem ao menos mordi a minha língua após ter dito tanto mal de você, sua mãe, sua família (tipicamente perfeita, católica, T-O-D-O-S heterossexuais. Eu disse “todos”)?

Lembro-me das suas verdadeiras mentiras antes de você provar meu corpo, como o pão, e beber meu sangue, como vinho.
Hoje eu percebo que seu paladar enjoa facilmente daquilo que você mais precisa consumir.

Veja como as estações mudam tão rapidamente que nem temos tempo para nos vestir adequadamente.
Não se assuste, criança, quando eu fincar minhas raízes em outra terra. Poderei, então, desabrochar mais rapidamente.
(por acaso, já reparou que minhas primeiras pétalas começaram a aparecer)?

De minha crueldade.

Alan Blair ~

Foto e poesia por: Alan Blair

Nem por um milhão de formas ou de jeitos diferentes, eu deixarei de tornar-me, de permanecer cruel e impecável com você.
Desta forma e desse jeito, [somente desse jeito] é o “como” da questão.

Como segurar você, ou como agüentar você, ou como tornar tudo mais fácil quando realmente as coisas parecem seguir uma direção oposta do que eu preciso.

Prendo-me em toda essa crueldade como cola de sapateiro [não venha me cheirar].
Transformo-me em toda essa impecabilidade que você precisa encontrar de manhã do lado oposto da cama [não tente me apalpar nesse horário].

Então, eis que surge o “por quê” da questão.

Porque eu preciso me apegar no poder que eu exerço sobre você e sobre suas coisas, suas paixões, aquelas loucuras pré-determinadas, pré-destemidas, sua jovialidade [menino certinho], e o que mais me assombra e o que eu odeio invejar: esse seu caminhar totalmente seguro.

Preciso e tenho que se cruel pelo que você me faz passar, e como forma de agradecimento pelo modo como você torna tudo perfeito [eu não suporto perfeições] serei o mais impecável dos homens, das mulheres, dos seres.

0% Algodão ;

Alan Blair ~

Foto e poesia por: Alan Blair

Recordando os acontecimentos passados, eu me encontro perdido bem no meio de toda essa multidão que passa, vai, volta e foi. E percebo todo o tempo perdido e gasto com suas lamentações, meu tédio e suas loucuras.
E o pior, e irônico, e errôneo, e imutável de tudo isso é que eu sou completamente viciado e necessitado e responsável por suas lamentações, meu tédio e suas loucuras.
Você me oferecia ar fresco enquanto eu trancava portas e janelas.
Eu cobria sua boca com o lenço da minha avó enquanto você me vendava os olhos com a blusa do seu ex-namorado.
Você me vendava os olhos com a blusa do seu ex-namorado?
Você vendava meus olhos com a blusa do seu ex-namorado.

Você é católico devoto e ao menos sabia que ele – seu ex – menosprezava Deus?
E ainda assim, continuava a vendar meus olhos com a blusa dele.

Nem o seu Deus, nem você, nem ele e nem ninguém poderiam saber o quanto eu desprezo aquele pedaço crespo de pano.
0% algodão.


Duas partes de um gomo:


O Alan:

20 anos; mineiro que come quieto e sonha.
SON-HA.


A Bergamota:

Eu tropeço, mas levanto. Eu acerto, mas nem tanto. Eu espero e não me canso. Eu me encontro em teu balanço.

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giordana em P&B
Victor em P&B

durante as estações…

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