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O vestido de Apolo.

Alan Blair ~

Foto e Texto por: Alan.

Eu gostava dos filmes antigos de velho oeste.

As cidades eram sempre vazias, de chão de terra, e aquela bola de poeira/palha/vento rolava na rua, sem ninguém, sem nada, e o vento zumbia no ouvido, assobiando uma canção qualquer.

Lugares vazios me dão um tipo de solidão.

Há um tempo atrás costumava passar na TV propagandas de cigarros onde motoqueiros percorriam enormes estradas de chão, tudo muito deserto, no meio do nada, aquelas montanhas de terras enormes. Eu era bem pequeno e assistia com uma certa fascinação ruim, e quando eles paravam suas motos, acendiam um cigarro, assim meio no êxtase. No meio do nada, aquilo me dava um aperto no peito muito grande. Como “Thelma e Louise” com seu carro e seus sonhos, fugindo da polícia e se jogando de penhascos, suicidando pra viver.

Ainda pequeno, minha mãe ia pra aula e me deixava em casa. Não sei quantas horas demoravam pra ela voltar, mas demorava o bastante pra me sufocar. Eu deitava na sua cama e cheirava seus travesseiros como garantia que o cheiro dela ainda estava dentro de casa e que ela logo voltaria. Eu tinha medo dela nunca voltar. Ainda tenho medo.

Scarlet têm um mapa e um caminho que é só dela. Ela precisa caminhar para se encontrar, eu precisava me encontrar para me caminhar, só que eu não tenho o mapa que Scarlet têm.

” Apollo, your frock

Was always as beautiful

Always as beautiful as the saddest rainstorm

Apollo, your frock

Was always as beautiful

Always as beautiful as your sister’s

That your light shined on”

Original Sinsuality.

Alan Blair ~
Foto e Texto por: Alan.

Sentado sobre o meio fio da esquina três – aproximadamente uma hora e vinte e seis minutos da madrugada – olhava o relógio, pisando em urina de gato, rato, tato que fazia arrepiar, e assim, meio sem rumo, sozinho na esquina três, o olho ardendo de sono, a bunda dormente de tudo e a cabeça estourando de dor, batia o pé, em urina de gato, em urina de rato, tato que não tateava nada.

Uma hora e vinte e sete minutos da madrugada, levantou, ainda sem sentir a bunda, desequilibrou alguns passos, balbuciou gemidos e seguiu ao norte da esquina três, por vez parando, por vez andando, por vez cantando qualquer coisa em inglês,

E eu daqui do décimo terceiro andar do Edifício Flores, número cinqüenta e sete da esquina dois, olhando da janela, a luz apagada, meu peito parado e, de fundo, aquela ruiva histérica de sempre, tocando pianos com sua sensualidade original, observava aquele homem sumir, diminuir, desfalecer. E antes de desaparecer completamente, perto de uma hora e meia, ele estranhamente parou.

Tirou sua blusa,
Abriu os braços,
Abriu a boca,
E olhou para o céu, como quem espera alguma salvação divina, um perdão, uma seta indicando o caminho, a saída.

E eu queria que chovesse estrelas, que brilhasse qualquer tipo de coisa, poste purpurina farol, indicando qualquer vestígio de vai meu amigo, segue teu caminho tranqüilo que eu te cuido e te velo e te ajudo daqui de cima, mas nada.
Nem um pássaro, um avião, uma nuvem passou no céu.

E ele abaixou os braços, vestiu sua blusa, desequilibrou alguns passos, balbuciou gemidos e seguiu ao norte da esquina três, por vez parando, por vez andando, por vez cantando qualquer coisa em inglês que eu já não escutava mais aqui da janela com a ruiva gritando,
Com a ruiva gritando em meus ouvidos,
Com a ruiva gritando

“You are not alone
I say, you are not alone in your darkness.
You are not alone, baby,
You are not alone.”


Duas partes de um gomo:


O Alan:

20 anos; mineiro que come quieto e sonha.
SON-HA.


A Bergamota:

Eu tropeço, mas levanto. Eu acerto, mas nem tanto. Eu espero e não me canso. Eu me encontro em teu balanço.

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durante as estações…

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