” escapulida.

Alan Blair ~
Foto e poesia por: Alan Blair

Enchi um balão com amor.
Mas escapuliu dos meus dedos.
Fugiu no ar.
Porém, na verdade verdadeira, o “escapulir” foi uma desculpa, para o meu balão te encontrar

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~viela das flores.

Alan Blair ~
Foto e poesia por: Alan Blair

Atravessei a viela das flores, e, ao passar, todas as pétalas vieram grudadas em mim.
Com a ponta dos meus dedos, recolhi cada uma delas e as transformei em uma única flor.
Com o contorno do meu coração, a envolvi e dei um laço.
Então, caminhei em passos lentos até a margem mais catita, e, enchendo o peito de esperança, a mergulhei e fiquei só, a observar.
E, aos pouquinhos, ela foi se distanciando, e de você, se aproximando, regada com meu amor.

– – Dois em um.

Alan Blair ~

Foto e poesia por: Alan Blair

Meu colchão é só para um, mas se você for merecedor, eu chegarei mais
para o canto.
Entrelaçaremos nossas pernas (como sempre ansiei) nos momentos mais
cândidos de nossa fuga? (Barganharia por tudo na vida).

Eu queria saber se o escuro é mesmo escuro perante toda a nossa luz.
As portas e janelas estão devidamente trancadas, e, ainda assim, estou
ofuscado no meio de tanto brilho, tanto amor (da sua alma).

Amarro-me em você, com medo de me perder pelo caminho. Estarei
completamente sã e salvo estando com você.
Minha mão está pingando suor. Você a beijaria?

Se tudo der mais do que certo (e ainda é incerto), se você for realmente
merecedor, então eu comprarei uma cama
maior, só para gente. Um casal. Somos dois, mas seremos, então um.
Dois em um.

*sorriso de sol

Alan Blair ~

Foto e poesia por: Alan Blair

Amanheceu nublado hoje.

Podia fazer sol.

As pessoas lá embaixo correm de um lado para o outro, inutilmente, tentando escapar do vendaval que varre as ruas.

Eu gosto de tomar banho até minhas mãos e pés enrugarem, mas está nublado lá fora, logo começa a chover, raios e relâmpagos irão me assombrar.

Bem que podia fazer sol.

É que dias assim, sem sol, me tiram a coragem que eu já nem sei se ainda tenho.

Se não pode fazer sol, que escorra, de uma só vez, toda a tristeza lamentada pelo céu.

Mas eu estou seguro aqui dentro desse quarto vazio.

Eu e o pó.

Eu e a velhice.

Eu e o desgasto.

E ainda está tão nublado lá fora.

Nuvens carregadas me assombrando.

Será mesmo que vai chover?

Os pássaros se protegem aonde?

Carteiros trabalham durante a chuva?

E os cães de rua, mendigos, estátuas vivas?

Deus, despeja sobre eles toda sua proteção.

Podia mesmo fazer sol.

¨Prisão

Alan Blair ~

Foto e poesia por: Alan Blair

Tenho vivido em uma prisão, grudado no teto, pisoteado no chão.
Por favor, não abra a janela. Por trás das persianas, todos me observam grudado no teto, pisoteado no chão.

Já disse que sinto gosto de sangue na boca? E nem ao menos mordi a minha língua após ter dito tanto mal de você, sua mãe, sua família (tipicamente perfeita, católica, T-O-D-O-S heterossexuais. Eu disse “todos”)?

Lembro-me das suas verdadeiras mentiras antes de você provar meu corpo, como o pão, e beber meu sangue, como vinho.
Hoje eu percebo que seu paladar enjoa facilmente daquilo que você mais precisa consumir.

Veja como as estações mudam tão rapidamente que nem temos tempo para nos vestir adequadamente.
Não se assuste, criança, quando eu fincar minhas raízes em outra terra. Poderei, então, desabrochar mais rapidamente.
(por acaso, já reparou que minhas primeiras pétalas começaram a aparecer)?

; nosso outono.

Alan Blair ~

Foto e poesia por: Alan Blair

Eu dormi com um gosto de flores.
E eu acordei com um gosto de flores, e, sem perceber, cantarolando “Here Comes The Sun”.
Dormi com você. Acordei com você.

Eu precisava correr para alcançar a chuva, mas ela batia no chão antes de chegar até meu corpo. Como serei purificado?

Sinto flores na minha garganta, mas não me lembro de tê-las comido ontem.
Lembro-me de você, de suas escritas, de nossa esperança, do como será bom e precioso.
Eu me lembro de suas flores, e ao recordar, minhas pupilas tomam formas e cores diferentes.
Fico cego no meio de tanta flor.
Fico sem olfato perante todos os cheiros.
Mas fico seguro, se fico com você.

Não precisamos, nesse momento, da neve gelada para esconder as flores do chão. Esse inverno todo pode esperar por um segundo – queria dizer eternidade – pois precisamos plantar essas sementes internas e fazê-las florir.
Serão as únicas flores que não cairão no outono.
Seremos, portanto, únicos.

De minha crueldade.

Alan Blair ~

Foto e poesia por: Alan Blair

Nem por um milhão de formas ou de jeitos diferentes, eu deixarei de tornar-me, de permanecer cruel e impecável com você.
Desta forma e desse jeito, [somente desse jeito] é o “como” da questão.

Como segurar você, ou como agüentar você, ou como tornar tudo mais fácil quando realmente as coisas parecem seguir uma direção oposta do que eu preciso.

Prendo-me em toda essa crueldade como cola de sapateiro [não venha me cheirar].
Transformo-me em toda essa impecabilidade que você precisa encontrar de manhã do lado oposto da cama [não tente me apalpar nesse horário].

Então, eis que surge o “por quê” da questão.

Porque eu preciso me apegar no poder que eu exerço sobre você e sobre suas coisas, suas paixões, aquelas loucuras pré-determinadas, pré-destemidas, sua jovialidade [menino certinho], e o que mais me assombra e o que eu odeio invejar: esse seu caminhar totalmente seguro.

Preciso e tenho que se cruel pelo que você me faz passar, e como forma de agradecimento pelo modo como você torna tudo perfeito [eu não suporto perfeições] serei o mais impecável dos homens, das mulheres, dos seres.