; Mosaico

Alan Blair ~

Foto e poesia por: Alan Blair

Pobre peito.
Terei absurdas convulsões de amor.
Dilatei-me em dezenas de micro pedaços.
Mosaico de vitral.
Cores novas partidas de contornos velhos.
Caleidoscópio.
Filtrei-me em centenas de macro partículas.
Cores boreais, aquareladas por paletas enferrujadas, manuseadas por mãos em calos, farpas, cacos.

Estou em expansão, hipnotizado pela sua capacidade pura de coragem.
Dos fios de seus cabelos, farei uma trança, ligando seu peito até o meu coração.
Artesanalmente, pegarei todas as linhas de suas mãos, e, unindo com as minhas, bordarei nosso futuro.
Juntos, intactos, simples.

Descubra sua cabeça, meu jardineiro. Descamaremos cada espaço desse escudo que envolve o seu peito vasto, e sem dor, benzeremos seus medos com as lágrimas que ainda precisam cair, lavando seu rosto, levando os receios, cristalizando sua alma.

Alma.
Calma.
Palma unida de nossas mãos.
Olhos bem abertos e passos firmes.
Na cabeça, fica a certeza da incerteza.
No coração, estampa-se a verdade de nosso amor.

Anúncios

– in(e)terno.

Alan Blair ~
Foto: Arquivo Pessoal. Poesia por: Alan Blair

Por trás dessas paredes (sólidas/mortas), tudo continua (a)normal.
Por trás dessa casca, dessa pele crespa, dessa roupa rasgada, tudo continua igual.
Por trás daquelas montanhas, existem nuvens tempestuosas, intempéries intermináveis, vertentes distantes.
Mas, por dentro desse oco/louco coração, existe o toque do assombro, o sopro da certeza e a prece nossa de cada hora.

¨realidade –

Alan Blair ~

Foto e conto por: Alan Blair

– Abriu a porta da realidade como quem abre enlatados.

Lá dentro tilintava e brilhava, repleto de salpicos chamativos que desviavam toda a atenção.

Poderia pular de uma só vez, penetrando em cada pequeno e incógnito espaço dessa misteriosa realidade. Mas poderia, também, voltar os passos e fechar os olhos. Entre seguir e voltar, resolveu ficar em pé, parado, três passos antes de conseguir descobrir o que precisava e tanto queria encontrar.

Mas o medo, esse tal medo que nos encomoda, esse medo que aparece várias vezes ao dia em nosso interior… sabe? Então, foi esse medo que não permitiu o PROSSIGA.

Ficou ali, como estátua, à mercê dos pássaros. Mas ele pudia ver através do caixilho da janela toda a luminosidade presente na realidade.

Em seu pensamento rodava e rodeava frases incompletas, atos imprecisos, vontades insatisfeitas e medos permanentes.

MEDOS PERMANENTES.

Estaria, ele, o mundo, as coisas, as pessoas, preparadas para essa realidade?

Nó na garganta, frio no estômago. Um passo à frente, um medo para trás.

Se seguir não poderá mais voltar. Se voltar, como conseguirá, enfim, penetrar nessa realidade tão brilhante e convidativa?

Descobriu a alma e descalçou os pés, e, bem devagar lá foi ele penetrando na luminosidade. Era tanto brilho e tanta cor aparecendo e misturando-se que já não era mais possível distingüir pessoa, cor, porta, caixilho, janela, pois tudo era, então, realidade.

Pura-Sólida-Verdadeira.

Real realidade.

; arde saudade.

Alan Blair ~

Foto: Haroldo Lima. Edição Fotográfica: Alan Blair. Poesia por: Alan Blair

Chorei de saudade.
SAU-DA-DE.
Em cada parte de cada sílaba é um corte no peito.
Desgraçados e cândidos são todos os amantes que se aventuram entre as vielas do coração.
Tropeçam, escorregam, esfolam joelhos
e a cada novo corte, mais forte é a coragem de suportar a saudade,
que como ferida viva
lateja, lateja, lateja…

– in-fi-ni-to.

Alan Blair ~
Foto e conto por: Alan Blair

E foi sem desespero nas mãos e forças nos dentes que ele se levantou daquela cadeira (única cadeira) no centro da sala (única sala) e caminhou (em nome do pai) em direção à janela (em nome do filho), e aos pouquinhos, foi abrindo, fresta por fresta (em nome do Espírito Santo).

Abriu.

(Amém).

Lá fora era infinito.

“In-fi-ni-to”, ele pensou.

E olhou em volta, e viu, novamente, a velha cadeira daquela sala.

Com as mãos, ajeitou os cabelos, tirou os sapatos, a sua blusa, calça, casca, carne, tristeza, limitações. Ficou só alma-alma e subiu no parapeito da janela.

Antes de derramar-se, ainda olhou em volta e pensou “porquê não?”.

Fechou os olhos, sem desespero nas mãos e nem força nos dentes. Ficou leve, e foi, devagarzinho, escorregando da madeira gasta da janela velha e suspirou.

Era gostoso assim, não ser mais parte morta daquela sala, e sim vivacidade de todo o céu. Antes de desaparecer de nossas vistas, ele pensou “In-fi-ni-to” e disse “Amém”, catito, na gostosura que era viver.

¨ mundo medíocre.

Alan Blair ~

Foto e poesia por: Alan Blair
Gostaria, pelo amor de Deus, de você e de todos, que parasse de chorar por qualquer coisa, motivo ou simples situação.
Daqui a alguns anos, lágrimas serão raras, não desperdice as suas.
Gostaria também que parasse com sua síndrome de tudo.
De medo, de solidão, de timidez, de falta de atenção.
Falando em atenção, gostaria que demonstrasse mais afeto pela sua família.
Por acaso, já disse alguma vez “eu te amo” para a sua avó? (Única avó presente).
Se continuar roendo as unhas, perderá todos seus dedos.
Já basta o coração roído.
Pare de ter medo do que as pessoas irão pensar.
O ponto de vista delas não te fará vencer na vida, porra.
Siga seu caminho de acordo com seus passos.
Não queira ir rápido demais, poderá facilmente tropeçar nesses buracos tão profundos.
Seu quarto é abafado. Com as três janelas fechadas e a porta jamais destrancada.
Ponha cor na roupa, saúde no coração e força nos braços para agüentar o turbilhão de coisas que estão por vir.
Tenha coragem.
Ninguém terá piedade por você.
Consciência de seus atos faz bem e é essencial, meu filho.
Se as coisas começarem a apertar, dê um salto e não se desespere, pois tem muita gente mais fodida nesse mundo do que você.

(a maior motivação que temos nesse mundo medíocre).