– ela.

Alan Blair ~
Foto: Vanessa Pires. Poesia por: Alan Blair

Poesia inspirada e dedicada para Vanessa.

– diz para ela (em sussurro, em resmungo ou mesmo mudo… diz, finalmente, com os olhos, pois esses não mentem, seja cego, seja míope, seja impuro) que lá no fundo, após a pele, após o osso, após o músculo, existem estrelas que brilham e ofuscam, enviando pelas veias toda a esperança de todo o mundo.

.humano

Alan Blair ~

Foto e Poesia por: Alan Blair

sou malevolente,

promíscuo, lascivo, provinciano, sensual, lúdico, escorregadio, rústico, feminino, misturado, indistinto, confuso, acanhado, obscuro, desordenado, hipérbulo, ambíguo, homossexual, perplexo, embaraçado, duvidoso, atencioso, descrente, contente, paranóico,  acanhado, incerto, homem, imperfeito, hetero, incompleto, libidinoso, travesso, devasso, lúbrico, húmido, resvaladiço, íngreme, perigoso, inseguro, problemático, sonhador, fantasista, devaneador, inacabado.

sou humano.

, à espera do gosto seco.

Alan Blair ~

Foto: Arquivo pessoal. Poesia por: Alan Blair

As flores produziam um cheiro forte que ardiam as narinas. Um cheiro tão singular e natural daquele lugar que fazia arrepiar os cabelos crespos do pescoço.
Passou, apressadamente e insegura, por três lotes, dobrou à direita e suspirou de alívio ao deparar-se com uma cruz de madeira, quase imperceptível, fazendo contraste com os outros jazigos daquele lugar.

Rezou, rezou, rezou e chorou, habitualmente, como fazia no primeiro dia de cada mês.
Brincos de plástico que pendiam até a nuca, de um esverdeado velho, descascado.
Por volta dos olhos, várias voçorocas, onde um bom leitor de mãos desvendaria ocultos destinos. Cabelos longos, armados, de duas cores: brancos no topo, e no que sobrava, vermelho desbotado-descascado-desgraçado, até a ponta.

Depositou as margaridas encostadas no pedaço de madeira que lutava com os cupins.
Sinal da cruz e disse amém.
Caminhou tentando privar-se dos arrepios e do gosto de nada na boca – vazio, seco, catarro.
Cloc, cloc, cloc, eram os barulhos de suas sandálias esmagando as pedras no chão, cada vez mais rápido.
Mal sabia ela – desaventurada – que havia alguém pronto para atacar.
Mal sabia ela – desgraçada – que ali, naquele cemitério imundo e esquecido, seus dias tomariam rumos diferentes.

Sentiu aquela pressão na cabeça – pancada, soco, paulada – e despencou no chão.
Arrancaram a roupa, devassaram suas pernas, rasgaram sua pele, cavaram buracos.
Mordia a boca tão forte que conseguia sentir gosto de sangue.
Pancada, soco, paulada – sangue na boca, rasgava a pele, cavava buracos.

Estirada no chão – acabada, fodida, cortada – decidiu que, desde então, visitaria sua mãe todos os dias no cemitério, à espera de arrepios e do gosto de nada na boca – vazio, seco, catarro.

; par.

Alan Blair ~
Foto e conto por: Alan Blair

Apertaram as mãos do tempo.
Sentiram o frio nos pés descalços.
Tremeram com o vento.
Brilharam com as estrelas e perfumaram-se com as flores do canteiro.

Estavam sozinhos – os dois – debruçados diante de toda a infinidade de prédios que se extinguiam não sabiam aonde.
Contavam os carros – inofensivos, visto de cima – e espiavam, indiferentes, o cotidiano refletido pelas janelas abertas do cortiço mais sem graça de toda a cidade.

Passou um pássaro – passou um avião – passou uma estrela – as horas passaram – passou o silêncio.
Passou, diante de toda a simplicidade dos dois, um gemido nascente de algum beco, com ou sem saída, esquecido e intacto.
Um gemido que não foi capaz de desafinar a sintonia daquele par.

Então, choveu branco-sólido-puro.
A neve fria derretia no encontro da pele dos dois e escorria, remoçando toda a velhice, indo, por fim, de encontro com o chão, direto para o ralo, remoçando, também, as valetas, bueiros, tristezas, desilusões e os destinos de todos os aventurados que cruzavam com o tico da esperança daqueles dois.

Em cima do terraço, enfrentando o tempo, o desgasto e o frio, petrificaram-se, fazendo parte da arquitetura de toda uma eternidade.
Para sempre, um par.

~ o casamento de uma flor com a lua.

Alan Blair ~
Foto: Fabrício Valente. Edição Fotográfica: Alan Blair. Conto: Alan Blair

Assim se fez, abrindo espaço pelas beiradas da calçada, despertando de sua excentricidade, cada pedaço de seu brilho, diante de toda a multidão que nem ao menos percebia.

Foi subindo, devagar, e abrindo lentamente, refletindo suas pétalas nos cantos sujos de toda a rua.
Bailava em pleno ar na medida em que subia, salpicando com seu verde, o rosto das pessoas sem rosto.

Fincada no chão do viaduto, conquistava os prédios, arranhando todo o céu, misturando-se com as nuvens e confundindo-se com a chuva, convidando as estrelas à presenciarem seu casamento com a lua.

Foi tanto brilho e tanta mistura de cores, que as pessoas lá embaixo – apressadas, distraídas – confundiram o amor de uma flor e de uma lua com fogos de artifício, comemorando a procissão que passava pela rua.