; par.

Alan Blair ~
Foto e conto por: Alan Blair

Apertaram as mãos do tempo.
Sentiram o frio nos pés descalços.
Tremeram com o vento.
Brilharam com as estrelas e perfumaram-se com as flores do canteiro.

Estavam sozinhos – os dois – debruçados diante de toda a infinidade de prédios que se extinguiam não sabiam aonde.
Contavam os carros – inofensivos, visto de cima – e espiavam, indiferentes, o cotidiano refletido pelas janelas abertas do cortiço mais sem graça de toda a cidade.

Passou um pássaro – passou um avião – passou uma estrela – as horas passaram – passou o silêncio.
Passou, diante de toda a simplicidade dos dois, um gemido nascente de algum beco, com ou sem saída, esquecido e intacto.
Um gemido que não foi capaz de desafinar a sintonia daquele par.

Então, choveu branco-sólido-puro.
A neve fria derretia no encontro da pele dos dois e escorria, remoçando toda a velhice, indo, por fim, de encontro com o chão, direto para o ralo, remoçando, também, as valetas, bueiros, tristezas, desilusões e os destinos de todos os aventurados que cruzavam com o tico da esperança daqueles dois.

Em cima do terraço, enfrentando o tempo, o desgasto e o frio, petrificaram-se, fazendo parte da arquitetura de toda uma eternidade.
Para sempre, um par.

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Um comentário sobre “; par.

  1. Ô, rapaz! Quanto tempo! Queria te encontrar por aí… cara, esse post me lembrou demais um blog que eu costumava ler… mas não lembro o endereço.. um abraço!!

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