Beija-amor.

Alan Blair ~
Foto e Poesia por: Alan Blair

Ao invés de apaixonar-me por um beija-flor, perdi-me de paixão por um beija-amor, que, sentindo o cheiro doce das correntezas de minhas veias, foi se aproximando – catito – com seu longo bico.
Jurava-me que não doía o ato de perfurar meu peito e furar meu coração para alimentar-se com o mais distinto amor.
Rendi-me, encantado, diante daquela pequena figura, inocente e morta de sede.
Desabotoei cada botão da blusa, como quem arranca as pétalas de uma flor.
De fato não houve dor.
Houve mais amor ainda.
O pequeno sugador se alimentando, e eu, anestesiado, satisfazendo-me daquele gozo de servir alguém.
Não escutava nada, nem ao menos sabia se o tempo corria.
Minha vista ofuscava-se diante de tanto brilho e luz.
Saciado, o beija-amor se foi.

Depois disso, sequei-me por completo.

~O broto humano.

Alan Blair ~
Foto e Poesia por: Alan Blair.
(aos amigos Joun e Fabrício Valente)

Até que o clima mudou bastante, e mudamos junto com ele.

Abriu sol hoje no meio de tanta tempestade e as nuvens distanciaram-se, abrindo espaço para um lindo céu azul.

Aí tem todo aquele ritual dos pássaros cantando, indo para outras direções, as sementes brotando, crescendo, reproduzindo, os animais em festa, insetos em flores, canários pais levando comida para canários filhos, borboletas rabiscando o céu e arco-íris atrás da montanha.

Em todos nós é aberto aquele sentimento de liberdade junto, e da felicidade de sabermos que no meio de tantas intempéries pode nascer a esperança.
Somos, pois, como simples sementes cravadas na terra, bem lá no fundo, onde ninguém nos enxerga.

Por ventura e sorte, algumas gotas de chuva tocam nossa casquinha e vamos absorvendo essa vida em líquido. E é aí que viramos broto.

Broto verde, vivo, indefeso, com seu delicado caule, mas poderosa raiz.

A graça da vida é conseguirmos desenvolver-nos sem quebrar esse caule frágil, conseguirmos dispersar os insetos e vencermos as tempestades de ventos que teimam em nos entortar.

Todos dizem que a vida é curta, e seja dita a verdade, a vida é curta. Quando vamos perceber, já não somos mais sementes, nem broto, nem planta, nem árvore. Somos balões, grandes, coloridos, livres, em direção, quem sabe, ao longo horizonte, à lua, ao infinito, aonde queira o vento nos levar ou a coragem e vontade de chegar.

Claro, nesse percurso sempre haverá algum perigo. Enormes montanhas, rajadas de vento, medo de altura, pássaros errantes com seus bicos pontudos. Mas no céu não há limite para que tem sonhos, perspectivas e até ambições, por que não?

Viver é ser livre, é caminhar em passos lentos na direção correta da vida, sempre reto, nesse horizonte distante que temos em mãos, digo, em pés. É conseguir levantar depois do tombo sem medo de errar. Não podemos esquecer da imperfeição das pessoas, que cá pra nós, é nossa melhor qualidade. Ser imperfeito é buscar pela nossa própria evolução, sendo sempre um ser humano diferente de todos os outros, mas fazendo a diferença cada vez mais.

Nascemos, crescemos, aprendemos, evoluímos, chegamos até o cume da nossa vida, e só então percebemos que, na vida, não há cume, nem começo e nem fim. Estamos nessa constante expansão.

~ bergamotas vencidas.

Alan Blair ~
Foto e Poesia por: Alan Blair.

(para ler ao som de Rattlesnakes, Tori Amos)

Disseram que eu iria ter uma surpresa.
Acabei fumando um cigarro vencido, vivenciando tudo o que eu estava tentando fugir, ficando com minhas narinas repletas de cheiros antigos.
Bebi um copo cheio de água num só gole e um cubo de gelo ficou entalado na minha garganta.
Espero que derreta logo.

Disseram que eu teria uma surpresa e a surpresa foi perceber que eu não sou tão forte quanto aparento ser.

; (in)Certezas.

Alan Blair ~
Foto e Poesia por: Alan Blair

– Vamos, eu seguro a tua mão.
– Não, não dá.
– Eu prometo que não solto, cara, seguro bem forte.
– Não sei, é como se ainda não fosse o momento.
– Se o momento não for agora, quando será?
– Não sei, é algo tão impreciso. Na verdade estou incerto de muitas coisas, a certeza me faz falta tem um bom tempo.
– Eu tenho a certeza de ser capacitado a segurar a tua mão, de pular deste penhasco e não cair no chão. Eu tenho a certeza de abrir minhas asas, de abrir teus braços, te juntar no meu corpo como se fôssemos apenas um e fugirmos do manicômio do mundo.
– A esquerda ou a direita?
– As duas.

Podridão

Alan Blair ~
Foto e poesia por: Alan Blair

Irei escutar aquele silêncio gritante que te mete medo
Defecar lamentos e vomitar esperanças
E amanhã voltar para casa com um gosto febril na boca.

E lá vamos nós (novamente) sentir o cheiro podre do hospital.

(papai no hospital, Bergamota também.)

vazio…

Alan Blair ~
Foto e poesia por: Alan Blair

Então todas as palavras equilibraram-se nas pontas de meus dedos e escorregaram bem direto para a palma de minha mão esquerda.

Quis protegê-las, guardá-las, prisioneiras das minhas impressões digitais.

Mas ao fechar a minha mão – surpresa – elas se espremeram e se juntaram, formando uma palavra.

Palavra sem sentido, sem explicação, sem tato.

Vazio.
Va…zio.
Va…
…io

– here comes the moon.

Alan Blair ~
Foto e texto por: Alan Blair

Certas coisas, situações, problemas, são facilmente solucionadas com diálogo.
DI-Á-LO-GO.

Estou lavando as minhas mãos, trocando os lençóis, mudando algumas coisas, direções, caminhos e perspectivas. A vida é modificada a cada novo dia e eu não posso tropeçar, querido. Seria uma falha minha cair em um abismo.

Entre tantos dias/horas, nem um pingo de atenção foi derramado na minha aquarela, estou com o pincel intacto. Intacto de você, mas não de mim.

Entre tanto silêncio e falta de bom-dia-como-vai-você houve excesso de estou-com-saudades-nao-sei-viver-sem-seu-amor, e foi aí que entrou o erro.

Ter em excesso é não saber viver em falta.
Na falta, damos valor ao mínimo, ao medíocre, ao resto, se for preciso, correto?
Aprenderei a acostumar todos sem meu máximo, para não sobrar (novamente).

Mas te mando beijos, te agradeço. De fato, as coisas foram boas. Boas em excesso e acabou sobrando, no fim, essa total falta de atenciosidade.
É do resto que eu aprendo a não deixar sobrar.
here comes the moon… lálálálá… here comes the moon…

Só não deixe de aparecer, ok?
Beijos.