Unsent em 2008.

Alan Blair ~

(eu e minha tia e meu primo na época de praia e avô joão).

Texto e Foto: Alan Blair

Querido Otávio…

Menino, como você era legal, e como tudo o que aconteceu entre a gente foi verdadeiro. Parecia filme, escondendo bilhetinhos por muros das ruas.

É uma pena que, agora, você abaixa a cabeça e disfarça o olhar quando a gente se cruza.

(Cuidado, querido. Ainda tenho cartas guardadas para incriminar teu amor).

Querido Ariza…
Sei que você está em minas, nesse momento. A lis me disse que deu de cara com você na sexta feira de noite. Se isso tivesse acontecido comigo eu acho que te sorriria amarelo e desajeitado, mas bastante amargo por dentro.
Você foi uma das coisas mais importantes que me aconteceu e eu sei que você sabe disso, e isso me machuca. Queria pegar uma faca bastante pontiaguda e cortar seu coração, lentamente e em pequenos pedaços, para que você chorasse pelo que eu chorei por você. Ainda assim foi bom. Te ver jantando e almoçando na mesa com a minha família foi como domingo, cachorro quente e refrigerante no quintal com crianças tomando banho de mangueira.

Eu penso em você todos os dias desde 28 de junho de 2007.
Todos os dias.
Não que eu seja obcecado por você ou completamente apaixonado por você ou deseje você. Mas é que você foi meu primeiro namorado e você foi o primeiro (e único ainda) que conheceu meus pais e que me mostrou músicas, livros, filmes e me fez superar aquele medo bobo de viajar.

Eu não devia ter viajado. Você não mereceu às oito horas de ida e às oito horas de volta de Leopoldina para Vitória.
Sempre morei em cidade pequena, nunca havia visto nada tão grande. Eu nunca havia atravessado um sinal de trânsito e você não deveria ter brigado comigo por causa disso. São coisas que machucam a gente, como a sua completa falta de etenção e de diálogo.

Aí hoje em dia eu penso em vocês todos os dias quando eu escuto algumas músicas, leio alguns livros e vejo alguns filmes, de certa forma você ainda está impregnado no meu coração, infelizmente. É que nós terminamos de uma forma não terminada e as coisas que eu tinha pra te falar na época, que eu não falei, só olhei pra você, forcei um riso (e não engoli o choro, depois) ainda estão aqui, engasgadas, como o prato de arroz e feijão que eu comia no dia que voce me ligou dizendo que estava à 3 minutos de mim e queria me ver.

Filho da puta.
Filho da puta mesmo.
Passar no vestibular, na federal, de primeira. Foi lindo pra mim te mostrar que eu consigo algumas coisas mesmo sem esse seu pseudo-intelecto de garoto maior e responsável. Bem feito pra você.
E responsável o caralho, se drogar da forma que se drogou não é nada responsável, e eu pelo menos nunca experimentei maconha e passei de primeira no vestibular.

Esse seu cabelinho de lado, a sua blusinha branca de botons, a calça rasgada e a mochila nas costas, quase que um revolucionário segurando uma bandeira. Só faltaria a blusa do che, pra você mostrar para todo mundo que um garoto como você – comunicação social e muito cigarro fumado – tinha idéias e opiniões e linhas para escrever um livro.

Eu vou conquistando um punhado de coisas e vou pensando em você. Queria sentar contigo, tomar uma cerveja, te mostrar o que estou aprendendo, saber da sua vida vitoriana e relembrar esse teu jeito.Quero te mostrar que aprendi a viajar sozinho e sei que pato bota ovo. Falei aquilo só de zueira, nem sei porque.

Eu devia era ter traído você quando tive oportunidade, mas eu não seria mais eu, sabe que não gosto dessas coisas.

Aí você volta na minha casa depois de 20 dias, assim, de surpresa – bergamota, estou à 3 minutos da tua casa e vou ai te ver – e me pega sem jeito, e eu digo – ah, agora? tá – mas na verdade eu grito – caralho, o que eu vou fazer? – e eu te abro a porta e bate vento e vem aquele cheiro de cigarro violento (você nao tinha parado de fumar quando a gente começou a namorar?) e eu olho pra voce e voce olha pra mim e me mostra sua blusinha nova – a maira quem me deu, de coqueirinhos (você sempre foi tao movimentista, senhor tropicalia) e vai pro meu quarto, pergunta se estava estudando pra passar de ano (vai tomar no cú) e pergunta se estava gostando do livro que me indicou (vai tomar no cu) e me fala que sente falta da minha casa, dos meus pais, de mim e que você era um idiota (mmm, é, você tá certo, idiota). Aí você desce, diz que volta nas férias pra gente sair e nunca mais volta, deixa a porta aberta, você deixou a minha porta escancarada, filho da mãe, e eu to aqui, mais de um ano depois e o que mais me doi de tudo isso é que eu, infelizmente, ainda penso frequentemente em você e tenho um carinho por você, velho, e se rolasse da gente ir tomar uma cerveja e conversar sobre o futuro e o novo ano e as coisas velhas, ia ser bem bacana. Você sabe onde me achar. Feliz ano novo.

🙂

Querido Diego…

Você foi o cara mais sexy com quem eu já me deitei. Você foi a pessoa mais bonita que eu já me relacionei.
Lembro de te ver e falar – meu deus, que homem bonito… – e a forma como as coisas aconteceram com a gente foi da forma que eu mais prezo e admiro.
Voce do meu lado, sentado na roda, sua mao no meu joelho, minha mão na sua mão e o meu rosto corado, olhando pra baixo, morrendo de vergonha, morrendo de vontade, morrendo de esperança de desamar um outro alguém.
E foi intenso e verdadeiro e bonito demais.

Você é do tipo de homem trabalhador que chega em casa cansado e ainda tem disposição para agradar a sua mulher, dar todo o amor pra ela e ser o dono do pedaço.

Acho que foi aí que apareceu o erro, meu querido.
Eu não era mulher, eu nao sou mulher, eu nao era e não sou o “seu menininho”.
eu tenho vinte anos nas costas e não “meu menininho de 14 anos” como costumava falar.

Tenho as mesmas necessidades que as suas necessidades, e posso ter cara de anjo mas posso ser muito mais forte e bravo do que sua mãe ou seu pai.

Te desejei demais, e tive você demais, e achava lindo as coisas que você fazia para estar comigo… lindo, meu lindo.
Mas acontece que depois de sete meses com algumas privações a gente cansa, né?

É bom falar com você sempre, meu querido, e foi lindo a gente terminar sem brigar, se amando e chorando esse término. Eu to aqui sempre para o que você precisar, fique a dica, fomos lindos juntos e eu te agradeço por isso.

Obrigado por tudo.

Ah, diego, seja mais flexível se houver outro relacionamento homossexual e pare de escrever alternado no msn.

Beijos!

Wanted.

Alan Blair ~

Texto e Foto: Alan Blair

Sou um cara bacana, tranquilo e legal que busca uma pessoa preferencialmente do sexo masculino que seja também bacana, tranquilo e legal. Não precisa ser bonito em demasia, mas também não precisa ser from hell. Fico satisfeito com as pequenas coisas e demonstrações de amor. Se quiser me comprar caros presentes ficarei grato, mas uma flor não me faria mal nenhum. Essencial que goste de bons filmes, boas músicas, bons livros e uma boa sogra, que durma de conchincha e que ela não se desmanche durante a noite, e que esteja apto a enfrentar tempestades, dificuldades e obstáculos, sejam eles quais forem, e acima de tudo, seja livre para amar sem preceitos.

Dear Alanis,

Alan Blair ~
Texto: Alan Blair

Oi alanis, tudo bom?
Você me alegra em momentos de micro felicidades, sabia?
(macro também, mas as felicidades menores são sempre as gostosas).
Gosto um pouco bastante de você já faz um tempo, eu me perco às vezes gritando pela casa a sua música, meu remedinho amargo, que nem é mais amargo assim.

As vezes, quando eu to querendo dormir, eu ligo o mtv e fico lá, com no pressure over cappuccino, e me lembro da vanessa – alan, vou fazer um filme e vai ter uma cena da protagonista que segue a rua chorando, tocando no pressure de fundo, vai ser lindo – e realmente ia ser lindo. Aí eu lembro de tantas coisas que já aconteceram na minha vida em que você estava presente. Meu primeiro amor de verdade verdadeira – Vanessa, rio de janeiro, carnaval, mulher e não homem, fiquei louco de amor, amor de carnaval desses legítimos, iniciam no primeiro dia de festa e terminam na quarta-feira de cinzas. Meu irmão diz que não gosta de você, mas sei que no fundo é tudo para implicar comigo. Agora que moro fora de casa e ele sente saudade de mim ele diz que até gosta de ti.

Alanis, eu sonho com você. Sonho com você diversas vezes e fico triste um dia inteiro quando eu acordo.
Penso em você todos os dias.
Penso na gente andando por aí, juntos, eu te contando sobre minhas vontades, você sobre esse teu mundo que eu conheço de fora, e fico louco para conhecer de dentro, (não literalmente).
As pessoas me perguntam se eu te beijaria. Beijaria. Não de língua. Eu não beijaria minha mãe de língua. Eu não te beijaria, então, de língua.

Te escrevo coisas mas ficam por aí, tipo largadas, como eu vou te mandar? Aí eu acho melhor mandar tudo em pensamento, que vira energia positiva, essas coisas, chakras, kundalini, vibrações positivas, você que já foi pra índia sabe como é. Om mani padme hum para todos nós.

Alanis, mmm, alanis é quase alan, lembro que na sétima série, eu ainda tinha um bloqueio sobre a minha sexualidade e os meninos me chamavam de “alanis, alanis, alanis” eu ficava puto e queria te matar, garota, ter logo esse nome e ser famosinha, poxa, acabava comigo. Mas como sou felizinho com esse meu nome e a nossa semelhança. Agradeço muito a dona márcia e seu chico por isso, valeu.

Sempre vou me lembrar de Hands Clean pessando no sbt e a voz da moça falando “o mais novo álbum de Alanis Morissette – Under Rug Swept” – a forma como ela gesticulava as palavras estão aqui na minha cebeça até hoje, e a sensação de deixar o volume bem alto e te escutar, limpando as suas mãos.

Eu estou contigo no sempre e no constante, garota, e eu te elogio pela sua coragem, te saúdo pela sua perseverança e te abraço por sua fé.
Temos ainda um bom tempo pra sonhar, e se nesse tempo a gente conseguir se esbarrar, tomar um chá, contar sobre nossas futuras esperanças, assim, um para o outro, eu ficarei bastante lisonjeado e agradecido, e então eu poderei dizer que irei morrer sendo um homem feliz, porque uma de minhas mão está no meu bolso, e a outra, garota, está segurando a tua.

Um beijo do teu amigo brasileiro.

Alan.
Xoxo.

Guarda-chuva para os sapatos.

(já dizia Tori Amos…)

Alan Blair ~
Foto: Tiago. Texto: Alan Blair

Chove torrencialmente em leopoldina.
Os rios de toda a região ficaram cheios e transbordaram, levando casas, carros e árvores por todo o caminho, até desaguar em qualquer lugar.

Já são quatro longos dias de chuvas sem pausa.
Fico trancado em casa, só escutando e molhando meus braços esticados para fora da janela.
Vez ou outra, pego um jornal e faço barcos.
Solto na beirada da calçada, desejando caber nele.

Apago as luzes, e propositalmente despercebido, apago minha luz.

A chuva não se cansa de cantar em meu telhado (e eu não me canso de escutá-la).

PULSE

Alan Blair ~
Foto e Texto: Alan Blair

Têm um bico de chaleira enfiado no meu peito esquentando a pele que se machuca rasga sangra de dentro para fora para dentro do bico da chaleira.

São 04h07min da manhã, está um barulho estranho lá fora e eu me lembrei que esqueci de lembrar de trancar o portão. Tenho medo de sapos, não ponho meus pés lá fora – chão de terra – telefonaria para Campos Pereira – 34413425 – chamaria para tomar um chá dás 04h7min da madrugada, refletir sobre o futuro perdido de como a vida ainda pode melhorar vamos desligar a televisão com essas notícias de morte por balas perdidas, mas ela está dormindo e meu telefone cortado.

A gata tem um sininho prata, por onde ela passa faz um barulho e eu sei que gosto disso, não me sinto sozinho já que às 04h a casa é sempre escura, aí eu dou play no Pink Floyd, estourando meus ouvidos a madrugada toda e prometo que só experimentarei maconha na hora do “Another Brick In The Wall (Part II), fumando com meus pais.

Acendo a luz do banheiro e enfio fundo os dedos nos olhos até arder para imitar o sono. Mas o sono não vêm.

E esse bico de chaleira rasgando a minha pele, tá tocando os ossos, passando a cavidade toráxica e pulsando meu órgão muscular – SÍSTOLE – DIÁSTOLE – mandando sangue quente para a parte mais gelada do meu COR-po.