Oi, Alanis.

Alan Blair ~
Foto e Texto por: Alan.

Nove dias agora, só nove dias e parece que eu não durmo tem nove anos e parece que eu não como nada sólido e parece que eu estou cada vez mais deslocado, desmembrado, distorcido, desgrenhado, e parece, realmente parece, que eu tô morrendo de medo de morrer.

Eu to com um tubo, um cano, uma crosta entalada bem no meio da garganta e eu estou implorando por uma vontade de vomitar, de escarrar, de me explodir e me cortar de cima a baixo, em pedaços, em trapos, surdos e mudos, sem postura, sem direito, sem dever, sem prever, sem,
mas ainda é prematuro.

Quarto sem porta, estalando dedos estalados, sufocando, su-focando, catarro escorrendo pelo nariz que não respira, descendo pela boca que não faz um som, assim, desfocado sentado na privada do banheiro, disse que ia cagar pra todo mundo, mas foi chorar, foi chorar com seus fones de ouvido, “And you’ve never met anyone”, com as luzes apagadas ninguém vê nada, ninguém escuta nada, exceto a torneira aberta pra disfarçar uma lavada de mão.

E quando a gente vai dormir, a gente gira, roda, se revolta por não conseguir e se desespera por saber que amanhã, oito dias, sete dias, seis dias, já é o dia e, nisso tudo, não dormimos uma noite.

Eu não sei,
eu realmente não sei,
mas preciso me livrar de tudo isso logo pra poder ficar tranquilo,
mas só tranquilidade não me basta.

Talvez, pedir um abraço já é pedir demais, e eu peço tão pouquinho, que seja, ao menos, um abraço sem carinho, mas que seja um abraço.

“You’ve brought water to me, making sure my bloom rebounds
you know best of what my special care allows” ~ Orchids.

Original Sinsuality.

Alan Blair ~
Foto e Texto por: Alan.

Sentado sobre o meio fio da esquina três – aproximadamente uma hora e vinte e seis minutos da madrugada – olhava o relógio, pisando em urina de gato, rato, tato que fazia arrepiar, e assim, meio sem rumo, sozinho na esquina três, o olho ardendo de sono, a bunda dormente de tudo e a cabeça estourando de dor, batia o pé, em urina de gato, em urina de rato, tato que não tateava nada.

Uma hora e vinte e sete minutos da madrugada, levantou, ainda sem sentir a bunda, desequilibrou alguns passos, balbuciou gemidos e seguiu ao norte da esquina três, por vez parando, por vez andando, por vez cantando qualquer coisa em inglês,

E eu daqui do décimo terceiro andar do Edifício Flores, número cinqüenta e sete da esquina dois, olhando da janela, a luz apagada, meu peito parado e, de fundo, aquela ruiva histérica de sempre, tocando pianos com sua sensualidade original, observava aquele homem sumir, diminuir, desfalecer. E antes de desaparecer completamente, perto de uma hora e meia, ele estranhamente parou.

Tirou sua blusa,
Abriu os braços,
Abriu a boca,
E olhou para o céu, como quem espera alguma salvação divina, um perdão, uma seta indicando o caminho, a saída.

E eu queria que chovesse estrelas, que brilhasse qualquer tipo de coisa, poste purpurina farol, indicando qualquer vestígio de vai meu amigo, segue teu caminho tranqüilo que eu te cuido e te velo e te ajudo daqui de cima, mas nada.
Nem um pássaro, um avião, uma nuvem passou no céu.

E ele abaixou os braços, vestiu sua blusa, desequilibrou alguns passos, balbuciou gemidos e seguiu ao norte da esquina três, por vez parando, por vez andando, por vez cantando qualquer coisa em inglês que eu já não escutava mais aqui da janela com a ruiva gritando,
Com a ruiva gritando em meus ouvidos,
Com a ruiva gritando

“You are not alone
I say, you are not alone in your darkness.
You are not alone, baby,
You are not alone.”

Bösendorfer e brigadeirös.

Alan Blair ~
Foto e Texto por: Alan.

Sobre esse desconforto, há conforto nas lâmpadas quebradas, sendo assim, brilha mais um céu Leopoldinense, e a gente, cá de dentro, quase fora, gritando para os vizinhos “I am piecing a potion, to combat your poison” por volta dás vinte horas e quarenta e oito minutos da noite, desafinando, desafinado, porque eu sempre gostei mais do desafinado desconcertado descompassado desesperado que eu canto gritando.

E a gata tentando pegar um mosquito, e a cachorra dormindo no sofá, e meus pais dormindo em seus quartos, e o irmão fora de casa e eu aqui,

sendo um quase,
sendo um nada.

“She is risen
She is risen
Boys
I said she is risen”

– Barons of Suburbia – Tori.

cafés e(m) cama.

Alan Blair ~
Foto tirada pelo Tiago, Texto por: Alan.

“Maria Bethânia diz em seus shows que “felicidade a gente encontra em horinhas de descuidos”.
Venho me descuidando propositalmente.

Eu me peco em demasia e, as vezes, parece que deus esquece de tomar a pílula.

Deito na cama dos meus pais, sempre ao lado que minha mãe costuma dormir. Não sei, parece que é sempre mais aconchegante e quentinho deitar aonde deita a sua mãe.

Fecho os olhos. O ventilador na velocidade máxima faz barulho de arranhado. Assim, de olhos fechados, eu lembro de portões grandes e antigos, daquela casa que eu costumava pensar em comprar pra minha mãe se um dia fosse rico. (Ainda há tempo).

Tento parar de dar atenção ao barulho e percebo o quanto dói meu joelho direito.
Lateija, incomoda, arranha, que nem o ventilador.

Faz dois meses que tenho pesadelos constantes, com Leopoldina, com Ouro Preto.
Aí eu fico acordado até às cinco da manhã, dançando na cama desconfortável, mastigando o lençol, e acordo às duas da tarde. A casa toda de pé e o almoço já fora da mesa.
Fico, assim, sem comer o dia todo, só na base das canecas de café, andando pela casa, subindo e descendo as escadas, subindo e descendo as paredes, feito um disco arranhando,
repetindo, re-petindo, repet.indo…

“But I believe in peace
I believe in peace Bitch
I believe in peace
I believe in peace
But I believe in peace
I believe in peace Bitch
I believe in peace”

– The Waitress – Tori Amos.