O vestido de Apolo.

Alan Blair ~

Foto e Texto por: Alan.

Eu gostava dos filmes antigos de velho oeste.

As cidades eram sempre vazias, de chão de terra, e aquela bola de poeira/palha/vento rolava na rua, sem ninguém, sem nada, e o vento zumbia no ouvido, assobiando uma canção qualquer.

Lugares vazios me dão um tipo de solidão.

Há um tempo atrás costumava passar na TV propagandas de cigarros onde motoqueiros percorriam enormes estradas de chão, tudo muito deserto, no meio do nada, aquelas montanhas de terras enormes. Eu era bem pequeno e assistia com uma certa fascinação ruim, e quando eles paravam suas motos, acendiam um cigarro, assim meio no êxtase. No meio do nada, aquilo me dava um aperto no peito muito grande. Como “Thelma e Louise” com seu carro e seus sonhos, fugindo da polícia e se jogando de penhascos, suicidando pra viver.

Ainda pequeno, minha mãe ia pra aula e me deixava em casa. Não sei quantas horas demoravam pra ela voltar, mas demorava o bastante pra me sufocar. Eu deitava na sua cama e cheirava seus travesseiros como garantia que o cheiro dela ainda estava dentro de casa e que ela logo voltaria. Eu tinha medo dela nunca voltar. Ainda tenho medo.

Scarlet têm um mapa e um caminho que é só dela. Ela precisa caminhar para se encontrar, eu precisava me encontrar para me caminhar, só que eu não tenho o mapa que Scarlet têm.

” Apollo, your frock

Was always as beautiful

Always as beautiful as the saddest rainstorm

Apollo, your frock

Was always as beautiful

Always as beautiful as your sister’s

That your light shined on”

Anúncios

16:45

Alan Blair ~

Foto e Texto por: Alan.

(“A casa girou ao redor de si mesma duas ou três vezes e ergueu-se lentamente no ar. Dorothy teve a impressão de que estava subindo em um balão”) – “O Mágico de Oz”.

O estômago vazio desde o jantar do dia anterior, salvo apenas pelas sete xícaras de café e quatro bolachas de água e sal desde às oito da manhã do dia de hoje quando acordou com a música alta do vizinho do andar de cima.

Enviou “Boa prova mais tarde. Se quiser passar aqui em casa quando chegar, sei lá, tomar um café, conversar com o Brian, seria bacaninha, AP 401, beijos”.

Varreu a casa
Passou pano no chão
Mudou móveis de lugar
Abriu portas
Olhou a correspondência (essa carta que não chega!)
Repetiu o mesmo cd três vezes
Deitou
Levantou
Deitou
Levantou
Olhou o relógio
Olhou o relógio
Olhou o relógio
Defecou lendo “Ovelhas Negras”
Gozou no box
Rabiscou no vapor do espelho do banheiro
Pés gelados

A hora sem passar cada vez que volta a olhar para o relógio. Aquele fundo ácido no estômago de um maço inteiro de cigarros fumados sem fumar e o pulsar no peito, a mão molhada, sempre molhada.

Três incensos queimados, o pinguim de porcelana da geladeira limpo com Veja, o pulsar do peito, o relógio, mão molhada, vozes distribuídas pelos cômodos da casa.

Tem uma aranha na minha parede tecendo a teia traiçoeira que eu quase sem querer me envolvo, sufoco, enrolando rolando rolando rolando três quatro cinco vezes a teia bem na veia grossa do me pescoço.

16:21
16:22
16:24 – Brian se contorce no aquário.
16:26
16:29 – café.
16:30 – há fé.
16:34
16:35 – Uma nova mensagem na caixa de entrada – Pulsa, Pulsa- SPAM.
16:40
16:45
16:46 – Ter 10 Mar 09
16:48 – “I´m lost but I´m hopefull baby”.

Desconfortável(mente), Brian balança no aquário e eu o acompanho aqui da cama. Latidos perturbadores vindo de fora e até agora nada.

16:52

Nada.

17:05 – O interfone grita. Eu grito junto.

É.
Sim.
Ele chegou.
Ele chegou e leu pra mim:

“- Eu não posso entender por que você deseja sair deste lindo país e voltar para o lugar seco e cinzento que você chama de Kansas.

– Isso é porque você não tem cérebro – respondeu a menina. – Não importa o quanto nossos lares sejam monótonos e cinzentos, nós, pessoas de carne e osso, preferimos morar lá do que em qualquer outro país, por mais bonito que seja. Não existe nenhum lugar como o nosso lar.

O Espantalho suspirou.

– É claro que eu não posso compreender – disse ele. – Se as suas cabeças fossem cheias de palha, como a minha, vocês provavelmente viveriam em lugares lindos, e então não haveria ninguém morando em Kansas. A sorte do Kansas é que vocês têm cérebros.”

(“Apesar do balanço da casa e dos gemidos do vento, Dorothy fechou os olhos e adormeceu profundamente”)

Randon

Alan Blair ~

Foto e Texto por: Alan.

Estraçalho cravos e espinhas.

São três da tarde. Não tenho pressa, mas tenho sede. Bebo Lygia Fagundes Telles para matar essa secura torta da minha garganta.

“Lembra, Romana?; eu perguntei. Da nossa festa de formatura, ainda tenho o retrato, você comprou para o baile um sapato apertado, acabou dançando descalça, na hora da valsa te vi rodopiando de longe, o cabelo solto, o vestido leve, achei uma beleza aquilo de dançar descalça.”

Não dancei na minha formatura, pois eu não fui. Algumas coisas daquela época de princípio de hoje em dia me perseguem fielmente. A Maria José me telefonou ontem. Deu um toque e parou. Queria dizer coisas para ela, me pinte um quadro, me faça um bolo, mas há burocracia demais, cara fechada demais, me leva na praia com você, beijo.

Existem músicas em momentos específicos que eu prefiro pausar, pular, arranhar meu disco. Eu olho para este livro e penso que devo me presentear com um caderno de caligrafia. Ainda tenho sede, está quente e minhas mãos e pés suam abundantemente, jorrando rasgando borrando essa folha branca de preto, caneta 0.8.

Três e vinte e um e eu espero o carteiro incansavelmente, mas sei que hoje não chega nada para mim, nem alegria, nem dó. Ando atrasado, perdendo ônibus, subindo morro pra poder descê-los depois, de braços abertos, de camisa aberta, de olhos fechados, perigo de bater em poste, vontade de bater nos outros.

Gostaria, ligeiramente, de fazer um resumo desse fim de semana. Tente captar.

macho fome macho

macho examina macho

macho come macho. 

E mais daqui a pouco, quatro e meia,

macho reencontra macho.

Rasuro minhas palavras de cabo à rabo. Eu tenho vontade de gritar nessa cidade. A semana começou hoje e eu só penso na sexta-feira. Thálita escutando músicas de mexicanos, Brian dançando no aquário, a minha cabeça começando a doer, e atrás de mim está Scarlet, colada na parede em oito imagens P&B e uma colorida, fazendo seu caminho, de 1. Amber Waves até 18. Gold Dust. Me canso da forma de como escrevo as coisas, forçando uma casualidade trivialidade subjetividade, sorteando palavras difíceis no dicionário. Acho que vou mandar um e-mail para Fiona pedindo por favor maçã lance um cd novo logo adoro você beijos thakns.

Escolho a roupa mais bonita e provocante que escarra de uma forma inocente a minha ânsia de carne fresca branca juvenil. Pingo pingo pingo em meu pescoço três gotas gotas gotas de veneno cristalino, aroma de bergamotas que ele suga pelas narinas e se deixa levar por todo o meu caminho, como Scarlet em seu vestido de flores e babados e fios ruivos voando na brisa.

Mas eu não tenho brisa.

Mas eu não tenho flores.

Mas eu nem sou Scarlet e não sei o caminho.

Eu te carrego no colo, te abraço por trás, esfregando a barba invisível na sua pelugem prematura e vou lambendo a sua orelha com a ponta da minha língua.

Sou cobra que não troca de pele.

Sou homem que provoca homem.

E todas as minhas tias fingindo um não saber o porquê de eu ser o único sobrinho que nunca apareceu com uma namoradinha loirinha patricinha cheirosinha sonsinha idiotinha perfeitinha alisadinha maquiadinha em  saias curtas e salto alto. Vai ver é porque eu gosto de allstar e calça jeans rasgada.

Mamãe já sabia. Papai idem.

Vamos lá, Scarlet, cante para mim, me mostre seu caminho, sua armadilha, Sweet Sangria.

I can´t see New York from the other side. I can´t see.

Cinco prás quatro. Amarro o tênis, arrumo o pênis, pego minhas chaves e tranco as portas por onde passo. Caminho nas ruas com as mãos no bolso, preparado e ensaiado para sacar a minha arma e te atrair e te atirar bem no meio do seu peito de menino de dezessete anos.

Medusa vira pedra olhando no espelho.

Aperto o gatilho e atiro.

Não sei aonde, certo, Mas sei que acerta.

Roda Viva, roda.

Alan Blair ~

Foto e Texto por: Alan.

Me mudei para debaixo da escada.
As paredes brancas, tenho uma cama e com a falta de bombril, improviso bolinhas de algodão nas pontas da antena da TV, mesmo sabendo que não dará em nada.

Agora eu tenho um peixe vermelho-sangue feito a tinta desta caneta, que bate suas asas, como se voasse, remexendo a calda dentro daqueles aquários redondos. É como pingar corante vermelho na água, dissolvendo bem aos pouquinhos, até ficar um líquido homogêneo.

Ta tudo cheirando a mofo e eu mastigo um caroço de azeitona, com cuidado para não quebrar.

Substituí as fotos antigas por novas, tentando transformar Ouro Preto em Leopoldina. Mas estar aqui, ladeiras e barroco, é tão intenso lúdico e frio que eu me sinto em frases de Caio Fernando Abreu, querendo ser como ele, imundo e brilhante.
Dolorido.

O Caroço se partiu e veio um gosto amargo de dentro, tenho que cuspir na pia da cozinha.

O filete de sangue vermelho batendo as suas asas, nadando para cima e para baixo nesse pequeno espaço de oceano, e vê-lo assim, balançando que nem cetim no ar, ondulando, roda viva, roda, como notas de piano em deserto, em uma introdução de “Beauty Queen”.

Faz um ano.

“Don´t know why she´s in my hand
Can´t figure what it is but I lie again”.