Domingo

Alan Blair ~

Foto e Texto por: Alan.

Para Haroldo Ferreira Lima
Diego Monti Silva
Leonardo Velten Anacleto

“Mas sua luz não se apaga, e até se vê melhor – porque vastas e assustadoras são as trevas dos nossos dias” – Cecília Meireles

Ele chegou perfumado com aquele velho cheiro azedo de hollywood vermelho. A blusa de coqueirinhos verdes que ganhara de sua irmã – “bem Tropicália” – ele me explicou certa vez. Me olhou sem graça e sorriu. Eu, sem graça, sorri também, antes de me engasgar com o “Oi” que eu disse e que, logo em seguida, achei que teria sido melhor não ter falado nada. Só sorrido, como ele.

Faria frio, muito frio, segundo o noticiário que passava de manhã e que eu escutava enquanto terminava de empacotar as minhas coisas, logo antes do telefone tocar e soar rouco pela casa quase vazia, exceto pelas caixas de papelão. Mas eu já não tinha empacotado esse telefone? A voz rouca do outro lado da linha dizendo “Alô?” me fez pensar que foi um erro não tê-lo empacotado.

Ou talvez não.

Era um barzinho aparentemente bacana de uma metrópole qualquer, com árvores na calçada quadriculada. Tocava alguma coisa tipo samba ou bossa-nova, enquanto os pedestres corriam para escapar das nuvens cheias que se preparavam para derramar toda aquela chuva ácida, sobre nossas cabeças e nossos sapatos brancos, enquanto eu, sentado e imóvel, percebia o quanto era difícil, meu deus, olhá-lo nos olhos sem desviar o olhar.

E não mudara nada. Nada. Os cabelos pretos e lisos escorrendo na testa. O mesmo óculos de armação grossa que eu tanto gostava e aquele tortinho charmoso no dente. Florentino Ariza, eu costumava chamá-lo. Que audácia minha querer ter sido uma Fermina Daza.

Pediu um uísque com bastante gelo e me perguntou o que eu iria beber. Respondi, incerto, que o mesmo, nem sei porque, nunca bebi conhaque e o que eu queria era uma garrafa térmica de café preto bem forte e sem açúcar. Acendeu seu hollywood espantado ao me ver acender meu carlton – “de vez em quando, só de vez em quando”, eu disse. Então eu tragava fundo tudo pra dentro esperando pela vertigem que não vinha com ele ali, bem na minha frente, amarelo e intocável. DO-GMA.

Crostas grossas de sujeira com mosquitos em cima na toalha da mesa, eu observava e cutucava com as pontas dos meus dedos enquanto ele falava da saudade louca que sentia, meu bem, que havia se formado fazia um tempo, que aumentou a sua coleção de livros, entrou na academia, parou de tomar tarjas pretas, maconha e loló, e que, no almoço, fez arroz com ovo frito, assim bem de propósito, para comer a gema do ovo molinha estourada em cima do arroz, uma delícia, simples toda a vida, como a vida que queria.

E me olhava com algum tipo de medo, de cautela, olhar de culpa querendo desculpa que eu não dizia, não dizia, resistia, puta merda, caralho, por que isso agora, porra? Logo agora?
E eu me entortava e me debatia naquela claridade escura dos olhos dele.
Olhos de medusa: traiçoeiros, assassinos, irresistíveis.

O conhaque rasgava fundo por dentro. Esperei o gelo derreter um pouco mais pra ver se ficava mais fraco. Queria ter algum veneno mortal, mas não saberia em qual copo colocar: se no meu ou no dele? Acendi mais um carlton. Meus pés subiam e desciam, feito nervoso de espera. Nervoso de espera. E ele, ele falava, cantando.

A toalha da mesa já encharcada com o suor das minhas mãos, ou apenas um gelo perdido derretendo por aí, quente, fervendo, da forma exata como eu, por dentro, fervia também, até que ele, catito e inocente, perguntou: “E você? Como vai você?”

Esses dois segundos duraram-me a eternidade, e a visão daqueles olhos, refletidos em meus olhos, me paralisaram.

Então eu pisquei.

Naquele exato instante, centenas de milhares de crianças nasciam e centenas de milhares de pessoas morriam enquanto os astros se alinhavam com a terra, e ele ali, bem na minha frente, me perguntando como eu ia.

Como eu ia?

E eu não fui capaz de gritar que não. Não!
Eu não ia.
Eu não ia há muito tempo.
Que eu já tinha me esquecido da última vez que eu cheguei a pensar a ir há algum lugar, e o que você está fazendo aqui? Agora? Quem te deu esse direito? Essa permissão? Com essa blusa, esse cheiro e essa sua postura patética que eu tanto amei?

Veio para tomarmos conhaque, fumarmos e rirmos do tanto que você me foi importante e o quanto que impotente eu fui naquele quarto branco, vazio, exceto pelo bombril na antena da tv e dos nossos peixes dourados, afogando no aquário, enquanto eu mastigava os lençóis da cama, o olho vermelho de febre, de mágoa. O disco arranhado e a sopa esfriando no canto da mesa. E eu fumando, fumando os hollywoods que você esqueceu de buscar junto com todo o resto que você deixou, impregnado. Suas ervas daninhas, matando a sala, matando a casa e me matando depois.

Veio para que eu te diga que, de todos, você foi o maior. Que, com você, eu queria comprar animal de estimação, sabão em pó, buquê de flor, cama de casal, lavar roupas no domingo, cultivar flor em pote de margarina Delícia, tomar banho de mangueira no quintal de casa, tirar seu casaco quando você chegasse do trabalho, e, no fim da noite, assistir televisão com nossas pernas enlaçadas – imortais – até a velhice chegar.

Que, agora, eu quero te bater forte na cara, mas eu quero te beijar longo, e o tanto que eu te odeio, eu te odeio, mas o tanto que eu te amo, eu te amo.
E isso me dói, porque, por mais que você não mereça, eu te quero, mas por mais que eu te queira, eu me proíbo, porque eu sou bobo e o meu orgulho é maior.

Senti algum arrepio gelado correr em meu corpo. Respirei o mais fundo que eu fui capaz e respondi:

“Eu vou bem, muito bem, sempre muito, muito bem”.

Fita cassete

Alan Blair ~

Texto por: Alan.

E ele temia, antecipadamente, debruçado na cama, meia noite e cinquenta, exato, a fita rolando dentro do som, que quase ter vinte e um era assustador.
Incomodava feito aquele barulho agudo de silêncio que, às vezes, dá no ouvido.

A cabeça já doendo e tentando lembrar aonde enfiou a cartela de dramin que toma, às vezes, só às vezes, para dormir.
Ligava a televisão e mais uma vez constatava o quanto odiava o José Luíz Datena.

Vegetariano por opção, clamava clandestinamente por um bom pedaço de bacon com bastante queijo derretido. Só por hoje.
Ficava deveras assustado com o fato de que o tempo não descansa para tomar um café e que ele era efêmero, como o resto de toda a bosta do mundo.

E era estranho saber que amanhã acordaria e que dormiria de noite para novamente acordar até, quem sabe, se deus quiser, e que ele queira, se passar mais vinte e um anos e ele, debruçado na sua cama, talvez meia noite e cinquenta, a fita velha rolando dentro do som, o Datena já morto, menos mal, assustado e lamentando os quarenta e dois anos acumulados e que, se você não arregaça a vida, a vida te arregaça e ainda ri da sua cara.

Tác.

O lado A da fita termina e ele aproveita que já estava levantando e coloca a água para ferver. Enquanto corta os cabelos (como quem corta o passado) decide se café ou chá?

Vira a fita cassete e dá play, mais uma vez, feito uma música no repeat, en-jo-ativa.

Cavalos Marinhos

Alan Blair ~

Foto e Texto por: Alan.

Assim foi sendo, solto nesse devaneio seco, nessa tontura “fádiga”.

Descobriu que cavalos marinhos existiam quando morreu afogado, mas já não fazia tanta diferença.
Antes de perder o último gole de fôlego, agarrado entre as algas do mar, achou gostoso, silêncio quentinho, morrer como um navio naufragado daqueles que escondem dentro de si um baú de tesouros, e que jamais alguém encontraria, fantasiado de natureza viva entre algas e cavalos marinhos, fóssil humano.

Gostou da idéia e fechou seus olhos, como quem fecha o punho e atira pedrinhas no mar.

12/06/2009

machê

Alan Blair ~

Foto por Ronal Peret, “Vertigem do Pecado” – Direção: Eliane Rocha – Atuação: Alan Villela e Higgor Vieira.
Texto por: Alan.

O bombril nas pontas da antena da tv.
Papel machê secando na lâmpada acesa.
Nossos peixes dourados molhados no aquário e, no armário, pão e bolo que eu comprei pra nossa noite.

Os barulhos das chaves são marteladas na minha cabeça. Porta trancada duas vezes, conferindo.
Eu ligo o som na tomada e o que toca é o silêncio…
Fiz um chá de alfazema (?) pra fazer descer o bolo que eu engulo, sozinho.

Eu imagino que seja só uma brincadeira de mau gosto, uma surpresa pra mim, mas no fundo eu sei que não, não é, mas mais lá no fundo a esperança desesperada berra como louca, mas eu sei que não, não é.

Embrulhei minhas semanas no silêncio esse semestre. Economizei palavras e acumulei sentenças, e o que eu sei é dessa necessidade de explodir junho com porradas de garrafas de café.

Agora eu tenho um manicômio inteiro só para mim, minha loucura particular que ele não foi capaz de suportar.
Três meses é uma camisa de força pra você, dezessete. Nem deu tempo de marcar meu dedo.

É que eu só queria ser o mocinho, mais uma vez, e me esqueci que, literalmente, o mocinho era você.

Acumulei mais um pra minha pequena agradável lista de “unsent”.

O José Saramago está embrulhado de dourado no fundo da gaveta, esperando por alguém.

(Que não amarele com o tempo…)

10/06/2009
01h53min.


“You live you learn
You love you learn
You cry you learn
You lose you learn
You bleed you learn
You scream you learn”