Grecin 2000

Alan Blair ~
Foto e Texto: Alan

Cortei meus cabelos.
(Mais uma vez).

Ao escorrer para o ralo, ameaçou não descer.
Forcei com os dedos fincando forte no buraco do ralo nojento,
cabelos grudando nas minhas unhas, tufo, maço,
punhado de esperma grisalho, Grecin 2000.

Ameaçou não descer, mas desceu.
Depois de muito esforço desceu,
a água girando anti-horário, redemoinho louco berrando rouco, e eu de pé, tampouco importa,
dando tchau, como quem fecha a porta, tranca duas vezes e joga as chaves fora.

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marasmo.

Alan Blair ~
Foto por Ronald Péret – “Dama da Noite”, Alan Villela.
Texto: Alan.

Cheiro de bosta de cachorro pisada entre o garcía marquez, drummond e josé saramago.

Música envangélica berrando “amém senhor amém senhor amém senhor”, sem nem ter certeza se evangélico diz “amém”.

A tosse seca da moça lá desgranhada cabelo nojento de puta velha mal comida me olhando de um jeito desconfiado
como se fosse roubar seus livros podres, enfia o “amém senhor” na xota e para de me olhar assim que eu só tô folheando.

Poeiras e aranhas entre Sabrinas, quadrinhos e revistas pornôs,
polegar direito direto na coxa desnuda daquele lá que eu não sei dizer quem é mas bem que eu gostaria de saber.

A puta velha entretida no louvor do amém senhor, aí eu saco a minha arma e me preparo pra atirar, atrás da estante,
da poeira nojenta, do cheiro da bosta de cachorro pisada, amém senhor, amém senhor, ai man señior!

Porra melada na coxa desnuda daquele lá que eu não sei dizer quem é mas agora pouco me importa,
poeira, porra e traça entre literatura, cultura e sexo.

Adoro o marasmo dos dias nublados.

P&B

Alan Blair ~

“Há dois anos atrás nós nos conhecemos e o amor veio em bloco, entupindo a avenida, feito enxurrada, cheio de cor e brilho, feito bloco de carnaval. E nós dois dançávamos lindamente, sambando as nossas marchinhas particulares, jogando confete e serpentina pro alto, a cara pintada de vermelho e lantejoulas pelo nosso corpo. E você sempre na dianteira do bloco de nós dois, segurando alto o estandarte, sem nunca deixar cair.”

“Você é o preto e há dois anos eu venho tentando ser o branco; a junção de todas as cores, enquanto você se tornou à ausência de todas elas. Virei uma criatura com medo da escuridão, de me perder dentro dela, de entrar na curva errada dentro dos labirintos. Aí eu evito, cautelosamente eu me policio e evito entrar em becos sem saída.”

P&B: preto e branco, claro e escuro, bom e mal, presa e predador.

P&B é meu primeiro trabalho como dramaturgo que vale realmente algo para ser publicado. O tema central da peça é o reencontro de um ex-casal de namorados que, depois de muito tempo, sentam no bar, fumam, bebem e conversam, sobre o presente, sobre o passado e, quem sabe, sobre o futuro?

Meu objeto de pesquisa para a criação da dramaturgia foram cartas que eu escrevi e que nunca mandei, xerox de cartas que eu, audaciosamente, enviei, e cartas de ex que recebi e não rasguei.

Como a peça é grandinha, achei mais cômodo disponibilizá-la para download.

P&B ~ Alan Villela

Botão direito do mouse, salvar como…

Caso queiram comprar o livro, é só entrar no link abaixo:
http://clubedeautores.com.br/book/3417–PB

(E Leopoldina está linda, sem o frio de Ouro Preto… aquele frio que aperta a gente…)

Lícito

Alan Blair ~

Foto e Texto por: Alan.


“Se a realidade te alimenta com merda, meu irmão, a mente pode te alimentar com flores”
– Caio Fernando Abreu

Expele a fumaça boca à fora.
Rodopia no ar até desaparecer.
Deposita as cinzas na Alegria que sentia/sente, sorridente nessa loucura mansa de viver.

A tontura leve esculpindo um sorriso no rosto, um arrepio no braço.
Queria mais gente, ainda mais agora, a TV pifada, o dedo pelado.
E roda na cama macia com os olhos fechados, aquela necessidade insana de dançar, nem que seja sozinho, errando os passos consigo mesmo e não se importando com nada disso.

Tira a roupa, nu no frio que faz lá fora, mas no quentinho que está aqui dentro.
Fuma o filtro e acha graça, e gargalha num instante de criança, de infância, de presente de natal com um laço enorme.

E o que ele quer, menina, é vivacidade, textura, tato e cabelos cacheados, se possível.

Ele só quer as luzes apagadas e um par para dançar agarrado, enquanto o mundo congela lá fora e eles se descabelam aqui dentro.