Ontem veio

Alan Blair ~

Foto e Texto: Alan

Às vezes vêm, depois do banho, do chão encerado.
Vem em fantasia, disfarçado de coisa boa, de amigo oculto.

Às vezes vêm não se sabe quando, mas eu sei que vêm, e quando vêm, imaculado, de tão forte, nem faz estrago. Só congela e dói à mão, entortam os dedos, vêm às vezes quando você assiste a TV ou abre a janela, lava o banheiro, e você nem pensa muito, como bandido, vai infiltrando, “sem pedir licença, sem bater na pele”, eu gosto tanto da minha mãe, puxei tudo dela, que quando vêm me dá uma vontade de ganhar um abraço de presente que te falta o ar, te entope o nariz.

Você sabe quando vem, pelo aperto, e a gente nunca sabe se quer afrouxar ou apertar mais ainda, tragar, ou não, é que vêm torrencialmente, te molham os sapatos e você fica desconfortável o resto do dia, há a possibilidade de calçar, quem sabe, um chinelo, ou esperar secar tudinho, preso nos seus dedos, preso nessa força catastrófica do que vêm tão repentinamente que você mente, mas nem sente que a enxurrada te carrega para longe, e daí você se molha mais ainda.

E, às vezes, quando vêm, é tão assustador que se não viesse, eu não sei, não haveria graça, não haveria texto, não haveria nada, aí eu me alegro até, por vir, e por se tornar visita, e eu querer deixar entrar.

Então, quando vier da próxima vez, faça festa pelo corredor, serenata na minha janela, escancare a minha porta e saiba que sempre será bem-vindo.

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