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Alan Blair ~

Foto e Texto: Alan

(Ele possui a necessidade absurda de escapar para longe, de mergulhar-se, de cavar um buraco cada vez mais fundo, revelando-se para si mesmo, mas assustando-se com esse interior tão cru.
Foge-se de tudo,
Mas não consegue fugir de si próprio.
Refúgio)

Aquela vontade de fugir das pessoas, trancar portas e janelas, atravessar as ruas, de apagar-se, invisível, se possível fosse, mas não, infelizmente, não é possível, então ele corre da multidão da rua e dos carros e das contas, crediários, atrasados, atolados na caixa de correio que ele não abre tem seis meses e meio, porta retratos abaixados, relógios desligados, telefones cortados, a macieira cuspindo folha no jardim nesse outono da cidade grande bucólica eólica meteórica e chuva o dia todo, sapatos molhados, paletó encardido, pneu vazio, vitamina de abacate estragando no copo do liquidificador tem três dias, roupa sem passar, jornais acumulados na porta da casa vazia, não se sabe, não se vê, não se escuta, não se, absolutamente nada, já faz tempo, desde o momento exato que ele deixou de existir para as pessoas e passou a existir para si.

Então correu, a bota batendo na lama, a lama batendo na cara sem expressão fisionômica gastronômica astronômica, pseudônimo Zinho, sozinho, disfarçado de nada para as pessoas nas ruas não repararem, invisível possível, sim, agora pode, mesmo que visível, pouco o importa, já que agora corre daquilo tudo que deixou pra trás, os crediários, os telefonemas vespertinos matutinos, despertadores, dores, o outono seco da cidade grande bucólica eólica meteórica metafórica que agora passou a ser.

E assim, nesse espirro redemoinho, cúmulo-nimbo, se deixou levar até um vilarejo, distante do caos e do ozônio e do asfalto quente, e de repente, no meio daquela gente nova que nada sabia de correria e horários a cumprir, filas de banco e lotéricas, tele sena, enlatados, semáforos e escadas rolantes, disse que ali ficaria, repousado na casinha que ficava em volta de outras casinhas que estavam ao redor de outras menores casinhas daquela gente inteligente que não sabia ler nem escrever.

A delícia do silêncio.

Fechar os olhos e não ver nada e escutar o zumbido do silêncio no ouvido e cavar fundo a memória e lembrar que ele deixou a roça e se mudou para a cidade por causa do emprego e por isso ganhou um escritório e um telefone que atendia todo dia usando o terno que deixara na lavanderia no dia anterior, pois sujou com o vinho que derramou quando assustou-se com a buzina o alarme o disparo o choro da filha da vizinha que o acordava sempre às quatro da manhã, olheiras fundas embaixo dos olhos, voçorocas já abertas, o despertador berrando alto, a assinatura atrasada, a vida amorosa inexistente, cavando fundo dentro de si, agradecendo a deus que nada mais disso ele temia e nada tinha além de uma cadeira, o café que a boa senhora preparava toda tarde e as casinhas ao redor de sua casinha, poder fechar os olhos e lembrar de si nos três anos de idade, a bola colorida, o pai, a mãe, já falecidos, filtro de barro, fogão a lenha, goiabeira, ribeirão, folha de taioba pra fazer copinho e beber água da mina e se perguntar o por quê do universo e de vida em outro planeta e por quê nascer em setembro e não agosto, de farinha e ovo virar bolo e porque esse nome bolo? e por quê ele nunca teve uma namorada, um namorado, um cachorro ou um gato, nunca mandou cartas, nem foi ao teatro ou passeou domingo no parque, tomou banho de mangueira, riu sozinho, riu em conjunto, riu forçado, e tentava lembrar, na verdade, qual o dia do seu aniversário que ele já não comemorava nem sabia quanto tempo, qual foi seu último beijo, se existia o primeiro, e fechava bem mais forte os olhos naquele silêncio, e não via nada, só o escuro e aquele zumbido rouco no ouvido, então foi quando ele descobriu que morria de medo da escuridão, e queria, na verdade, a claridade, luz de farol, de sinal de trânsito, ozônio, e aquele zumbido de silêncio estourando nos ouvidos era desesperador, queria buzina, telefone, despertador, a filha doente da vizinha chorando quatro da manhã, o vinho manchado no paletó, o outono da cidade grande bucólica eólica meteórica e a enxurrada da chuva ensopando seus pares de sapatos cujo crediários atrasados entopem sua caixa de correio e pelo amor de deus, meus deus do céu, se me escuta, me ajuda que eu não decorei o trajeto que me trouxe até aqui, me faz voltar para as filas do banco onde eu não me escuto, onde eu não me existo, mas existo para todo o resto que não seja para mim.

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2 comentários sobre “?

  1. Venho acompanhando seus posts tem um tempo.
    Vi você no show da Alanis em SP, e por curiosidade te achei no orkut, mas não tive coragem de pedir autorização; porem, achei esse site e sempre que posso passo por aqui. Continue postando, escrevendo =). gosto muito.

    Obrigada Alan.

  2. Ah o Alan Bergamota…
    … acho que troquei palavras contigo uma ou duas vezes, via orkut apenas.
    Estranho isso, apenas acompanhava tua saga como fã de Alanis e amava quando dividias material com todos nós.
    Hoje (há alguns meses) sinto saudades de ti, como se conhecesse, como se o entender das letras emocionais da Morissette ultrapassasse o desconhecer de dois fãs que nunca ao menos souberam mais um do outro.
    Feliz de estar aqui, que a saga continue, mas que desta vez ultrapasse o “ser fã de um ídolo em comum”!

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