A Man

Alan Blair ~

(aos 15 anos…)

Eu me assusto.

Aos 15 eu levava o som para o banheiro e tomava banho cantando Alanis Morissette.
Me enxugava com A Man e olhava para o espelho dublando “I am a man who has heard all he can cuz”. Nossas vozes, minha e da Alanis, entravam pelo ralo e iam até a casa debaixo através do encanamento. A vizinha me caçoava, mas eu não deixava de levar o som para o banheiro por causa disso. Eu tinha muito medo dele cair na água e eu morrer eletrocutado, mas eu morreria ouvindo Alanis. Seria uma tragédia boa para se gabar depois da morte.

Desde novo eu criei vergonha de sorrir, mas no espelho eu sempre sorria, para mim e para Alanis, através do espelho embaçado, cantando sorrindo, meu rosto franzino, magrelo, vermelho de espinhas, e no meio do vapor eu até via algum tipo de beleza na criatura distorcida que eu era.

Mas o que me assusta é que, aos quase 22, eu não levo mais o som para dentro do banheiro. Agora ele fica do lado de fora. Eu ainda arrisco dublar alguma coisa, mas é que, às vezes, eu não consigo, eu me assusto no banheiro da casa que eu já não moro desde os 19. Eu observo o espelho antigo e me lembro perfeitamente da imagem refletida aos 15 anos, só que agora, sobreposta em um rosto mais largo, sem as espinhas que me evitavam sorrir, uma barba modesta aqui e ali, mas a exata pessoa de 7 anos atrás: um menino aí com cabelos cacheados.