samba meu

Foto e Texto: Alan Villela

(para Izabela, Bárbara e Rodrigo)

O Brasil ganhou e hoje eu aprendi a sambar.
E fiz do meu samba não apenas mexer os pés, descompassado.

Foi preciso balançar os ombros,
fechar os olhos,
esticar meus braços e fazer um carnaval,

arremessando confete na cara feia do povo,
arrebentando a pista
e levantando a vida, para ela não te abaixar e sambar todinha em cima de você.

“pra nós todo amor do mundo,
pra eles o outro lado,
eu digo malmequer”

Se você viesse.

Foto e Texto: Alan Villela

(Para Breno)

– Me conta?

– O quê?

– O que você pensa que aconteceria se viesse aqui agora.

– Eu penso que eu irei bater na sua porta, olharei ao redor, se houvesse um olho mágico eu o tamparei com o meu polegar e respirarei fundo.

– E o que mais?

– Depois eu penso que você me convidará para entrar. Eu entrarei com passos pequenos e as minhas mãos pra trás, juntas. E eu olharei ao redor, com vergonha e você falará comigo e eu responderei olhando pra baixo e arriscarei te falar nos olhos alguns segundos, mas não conseguirei, aí olharei pro lado e fingirei me interessar por algum porta-retrato ou detalhe da casa, e eu ficarei olhando fixamente para ele enquanto nós criamos um diálogo despretensiosamente inocente e sem aparentar vergonha.

– Continue.

– Você me mostrará a sua casa, e eu imagino que ela tenha uma salinha, uma cozinhazinha e um quartinho com banheiro. Eu entrarei em seu quarto e fingirei me encantar por ele, caso ele não me encante. Mas se eu me encantar, encantarei-me de verdade e te falarei que meu encanto é verdadeiro, já que eu te confessei que poderia forjar meu encanto. Eu sentarei na sua cama com as mãos no colo, talvez para trás, esticadas no lençol, aparentando, mais uma vez, não estar sem graça nessa situação. Olharei cada detalhe de seu quarto, buscando coisas em comum entre nós dois. Se houver livros serão as primeiras coisas que me chamarão a atenção, logo em seguida eu olharei os seus CDs, se você os tiver, e depois as fotografias, e começarei algum diálogo meio aleatório sobre o como-eu-me-lembro-de-você-naquele-almoço-que-você-estava-com-o-boné-bege, e essas coisas, demonstrando, mais uma vez, inutilmente, não estar com vergonha. Sentarei-me novamente na cama, as mãos no colo, os pés cruzados, e nessa hora eu sempre olho muito para os meus pés. Se tiver um tapete embaixo deles eu ficarei super entretido com ele, esfregando a sola do tênis, enquanto você fala alguma coisa pra mim. Em minha cabeça, eu pensarei em um próximo assunto, em uma próxima fuga.

– Continue.

– E talvez você sente do meu lado. Talvez você sente na minha frente, imagino que na cadeira de uma escrivaninha. Se você sentar na minha frente não será tão bom, você poderá olhar nos meus olhos, e eu terei que olhar para os seus também, e eu pensarei comigo que “eu não vou desviar, eu não vou desviar”, então eu não desviarei, mas estarei tenso, batalhando comigo mesmo, dentro de mim, até o momento em que eu não aguentarei e desviarei o olhar e sentirei como se houvesse perdido alguma disputa, e eu acho que você irá sorrir, e haverá conforto em seu sorriso. Mas se você estiver sentado do meu lado será diferente. Minhas orelhas estarão MUITO QUENTES, muito quentes e vermelhas, e as minhas mãos suadas, eu tenho mãos suadas desde quando era pequeno, e isso é algo que me deixa em um nível maior de timidez. Então as minhas mãos estarão sempre juntas, ou esfregadas no seu lençol para tirar o acúmulo, do suor, da vergonha. Nós olharemos para baixo, conversaremos quietinho, e eu sempre rindo, de qualquer coisa que você fale, de qualquer coisinha minúscula que você fale, eu vou rir e vou sorrir com a mão na boca para guardar o sorriso vergonhoso que eu tenho.
E talvez, muito talvez, você me dê a sua mão, e ficarei mais pianinho e paralisado do que antes, mas farei festa por dentro de mim, pois a parte das mãos é a minha parte mais favorita de todas. Eu adoro dar as mãos, é algo tão bonito, é o sinal de quando realmente a coisa está dando certo, aí eu vou levantar a minha cabeça, talvez eu a esconda em seu pescoço, talvez não, mas eu não farei nada, eu sempre penso que não cabe à mim fazer alguma coisa, tomar alguma atitude, eu me sinto incompetente nessa parte da história, não tomar a iniciativa, não dar o passo à frente, e eu queria poder tomar, mas tenho aquela vergonha.
Então esperarei, esperarei, torcendo.
E eu penso que você tomará.
Que você tomará a iniciativa.
E eu estarei feliz de ter tomado coragem.
De ter saído da minha casa às 02h da madrugada.
De ter apertado o 108 e subido as escadas.

– Me conta?

– O quê?

– O que você pensa que aconteceria se viesse aqui agora.

– Eu penso que eu irei bater na sua porta, olharei ao redor, se houvesse um olho mágico eu o tamparei com o meu polegar e respirarei fundo.

– E o que mais?

Depois eu penso que você me convidará para entrar. Eu entrarei com passos pequenos e as minhas mãos pra trás, juntas. E eu olharei ao redor, com vergonha e você falará comigo e eu responderei olhando pra baixo e arriscarei te falar nos olhos alguns segundos, mas não conseguirei, aí olharei pro lado e fingirei me interessar por algum porta-retrato ou detalhe da casa, e eu ficarei olhando fixamente para ele enquanto nós criamos um diálogo despretensiosamente inocente e sem aparentar vergonha.

– Continue.

– Você me mostrará a sua casa, e eu imagino que ela tenha uma salinha, uma cozinhazinha e um quartinho com banheiro. Eu entrarei em seu quarto e fingirei me encantar por ele, caso ele não me encante. Mas se eu me encantar, encantarei-me de verdade e te falarei que meu encanto é verdadeiro, já que eu te confessei que poderia forjar meu encanto. Eu sentarei na sua cama com as mãos no colo, talvez para trás, esticadas no lençol, aparentando, mais uma vez, não estar sem graça nessa situação. Olharei cada detalhe de seu quarto, buscando coisas em comum entre nós dois. Se houver livros serão as primeiras coisas que me chamarão a atenção, logo em seguida eu olharei os seus CDs, se você os tiver, e depois as fotografias, e começarei algum diálogo meio aleatório sobre o como-eu-me-lembro-de-você-naquele-almoço-que-você-estava-com-o-boné-bege, e essas coisas, demonstrando, mais uma vez, inutilmente, não estar com vergonha. Sentarei-me novamente na cama, as mãos no colo, os pés cruzados, e nessa hora eu sempre olho muito para os meus pés. Se tiver um tapete embaixo deles eu ficarei super entretido com ele, esfregando a sola do tênis, enquanto você fala alguma coisa pra mim. Em minha cabeça, eu pensarei em um próximo assunto, em uma próxima fuga.

– Continue.

– E talvez você sente do meu lado. Talvez você sente na minha frente, imagino que na cadeira de uma escrivaninha. Se você sentar na minha frente não será tão bom, você poderá olhar nos meus olhos, e eu terei que olhar para os seus também, e eu pensarei comigo que “eu não vou desviar, eu não vou desviar”, então eu não desviarei, mas estarei tenso, batalhando comigo mesmo, dentro de mim, até o momento em que eu não aguentarei e desviarei o olhar e sentirei como se houvesse perdido alguma disputa, e eu acho que você irá sorrir, e haverá conforto em seu sorriso. Mas se você estiver sentado do meu lado será diferente. Minhas orelhas estarão MUITO QUENTES, muito quentes e vermelhas, e as minhas mãos suadas, eu tenho mãos suadas desde quando era pequeno, e isso é algo que me deixa em um nível maior de timidez. Então as minhas mãos estarão sempre juntas, ou esfregadas no seu lençol para tirar o acúmulo, do suor, da vergonha. Nós olharemos para baixo, conversaremos quietinho, e eu sempre rindo, de qualquer coisa que você fale, de qualquer coisinha minúscula que você fale, eu vou rir e vou sorrir com a mão na boca para guardar o sorriso vergonhoso que eu tenho.

E talvez, muito talvez, você me dê a sua mão, e ficarei mais pianinho e paralisado do que antes, mas farei festa por dentro de mim, pois a parte das mãos é a minha parte mais favorita de todas. Eu adoro dar as mãos, é algo tão bonito, é o sinal de quando realmente a coisa está dando certo, aí eu vou levantar a minha cabeça, talvez eu a esconda em seu pescoço, talvez não, mas eu não farei nada, eu sempre penso que não cabe à mim fazer alguma coisa, tomar alguma atitude, eu me sinto incompetente nessa parte da história, não tomar a iniciativa, não dar o passo à frente, e eu queria poder tomar, mas tenho aquela vergonha.

Então esperarei, esperarei, torcendo.

E eu penso que você tomará.

Que você tomará a iniciativa.

E eu estarei feliz de ter tomado coragem.

De ter saído da minha casa às 02h da madrugada.

De ter apertado o 108 e subido as escadas.