Célula Morta

Foto: Meu quarto na “Roda Viva” por Tiago Marinho.  Texto: Alan Villela

Você me assombra como um fantasma e ri da minha cara de criança assustada correndo para o canto da sala, mas não tem jeito de esconder, você me pega pelas costas e quebra as minhas pernas bem devagarzinho, com jeitinho e cuidado para eu não sentir tanta dor.

Eu seguro o choro, firme e forte, me levanto e recomponho ajeitando meu retilíneo uniforme amarrotado e me vou embora mundo afora assobiando pela rua sem olhar pra trás para sua cara gorda linda esplendorosa que eu queria tanto bater que eu queria tanto acariciar mais uma vez, qualquer dia, e eu sei, eu sei que sei, muito bem sei que esse dia vai chegar, tarde ou cedo, seja pra bater, seja para acariciar, me contento com qualquer coisa seu encosto malcriado sem educação peso de papel macumba de esquina enfarto lepra aneurisma na minha cabeça célula morta enraizada no meu couro cabeludo, me machucando me machucando me machucando e puta merda, como eu gosto de sentir dor.

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Cobertor

Foto e Texto: Alan Villela

Eu cheguei aqui domingo.

De segunda para sábado o chuveiro explodiu três vezes. Parece mentira, logo eu que tomo uns três banhos por dia.
Uma explodida por banho.
Desloquei o pé enquanto tentava arrumar. Parece sacanagem, logo eu que ando por essa cidade feito um louco.
Ando mancando.

Me disseram que as férias destroem aquilo que o amor constrói.
Verdade ou mentira, estou com saudade de mim debaixo do seu cobertor bicolor.
Deve ser isso. Preciso comprar um cobertor novo que esses dias aqui estão mais frios e sozinhos.
Enquanto isso, vou mancando do quarto para o banheiro, tomando banho gelado e me cobrindo com meu cobertor de cor única.