Célula Morta

Foto: Meu quarto na “Roda Viva” por Tiago Marinho.  Texto: Alan Villela

Você me assombra como um fantasma e ri da minha cara de criança assustada correndo para o canto da sala, mas não tem jeito de esconder, você me pega pelas costas e quebra as minhas pernas bem devagarzinho, com jeitinho e cuidado para eu não sentir tanta dor.

Eu seguro o choro, firme e forte, me levanto e recomponho ajeitando meu retilíneo uniforme amarrotado e me vou embora mundo afora assobiando pela rua sem olhar pra trás para sua cara gorda linda esplendorosa que eu queria tanto bater que eu queria tanto acariciar mais uma vez, qualquer dia, e eu sei, eu sei que sei, muito bem sei que esse dia vai chegar, tarde ou cedo, seja pra bater, seja para acariciar, me contento com qualquer coisa seu encosto malcriado sem educação peso de papel macumba de esquina enfarto lepra aneurisma na minha cabeça célula morta enraizada no meu couro cabeludo, me machucando me machucando me machucando e puta merda, como eu gosto de sentir dor.

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