Fev.

annamiro

Era início de fevereiro naquele ano. Provavelmente terceira semana. Então era meio de fevereiro, na verdade, mas enfim. Eu me lembro, pois era um ano regido por Oxalá e Yemanjá. Diziam que seria um ano lento, porém constante e, quem sabe, até um pouco mais tranquilo.

Naqueles tempos, todos precisávamos de um ano mais lento e tranquilo, para ver se o coração conseguia aquietar ou se a gente conseguia fortalecer o nosso Orí. Suportar mais um ano para se viver tudo de novo, um dia após o outro.

Leopoldina, mais conhecida como Stars Hollow da Zona da Mata, era nossa cidade natal e, na época, onde morávamos. De maneira geral, seus moradores compartilhavam em conjunto aquele sentimento cotidiano de amar e odiar morar ali.

Na época, Leopoldina já era uma cidade moderna. Os acontecimentos aqui narrados coincidem com o período em que a cidade recebia sua primeira Lojas Americanas, construída na Barão de Cotegipe, a principal rua da cidade.

Me lembro que a inauguração da loja foi feita em um sábado de manhã, muita gente curiosa, quase parando os carros para olhar lá para dentro. As pessoas queriam saber o que tinha, se era bom mesmo como todo mundo falava. Se era americana.

Foi uma grande novidade durante cerca de dois meses. Depois disso, aquela ansiedade de coisa nova se acomodou no fundo do coração dos moradores da pequena cidade, que passaram à tratar a loja com uma certa indiferença.

Apesar das inovações, Leopoldina sempre manteve, de alguma forma, seu aconchego de cidade querida, do seu cotidiano costumeiro e simples de se viver: frutas expostas que coloriam as quitandas, o leite da roça baratinho que se vendia de porta em porta, o precinho especial do Armarinho Brasília, quiabo e couve que veio da horta do vizinho, senhorinhas em fusquinhas e os senhorinhos em pracinhas jogando dominó.

Sempre nos chamou a atenção os grandes casarões antigos que existiam na cidade. Geralmente murados ou cercados, impedindo nosso acesso e o desejo momentâneo em suprir a curiosidade de espectador, de espiar um pouquinho, olhar as janelas abertas, quem sabe roubar uma flor do jardim, uma mudinha de avenca, ou só uma florzinha mesmo.

Males e os benefícios que uma cidade relativamente pequena carregava. Lá todo mundo se conhecia, seja por um parente, por um amigo, pela irmã do seu amigo, pelo amigo do seu irmão.

No fim das contas, nossas relações sociais e pessoais se assemelhavam bastante com a estrutura física da cidade, composta por ruas que sempre te levavam para o mesmo lugar: o centro.

Então você sentia como se estivesse sempre sendo puxado para o centro de alguma coisa.
Leopoldina era silêncio em todas as suas madrugadas. Um silêncio profundo, quebrado pelo canto do galo sempre às três da manhã.

Zelada pelo Morro do Cruzeiro, a cidade adormecia exalando o seu cheiro de frescor, cheiro verde.

Anúncios