Americanas da Zona da Mata

annamiro

Não se soube da parte de quem, mas da Côrte às províncias, espalhou-se a notícia de que a cidade de Leopoldina seria agraciada com a construção de um prédio em uma de suas principais ruas, com o intuito de ser edificada uma Lojas Americanas. O boato, das bocas aos ouvidos, vagarosamente interrompeu o cotidiano dos moradores da cidade, arrematados com a pomposa novidade.

Desencadeou-se, assim, um enorme alvoroço no Largo do Rosário, onde dezenas de pessoas desinformadas procuravam entender o que poderia ser uma loja americana. O consenso geral dos mais informados concluiu que a loja seria uma alavanca para o progresso em nossa sociedade, democratizando o acesso às inovações e tendências provenientes do primeiro mundo.

De imediato, houve um rebuliço na imprensa. A tipografia do jornal O Leopoldinense empenhou-se para encontrar as fontes que espalharam os boatos, dedicando-se totalmente à causa pública e social, confirmando com exclusividade a veracidade das informações dias depois. Em nota, afirmou que graças aos esforços de senhores verdadeiramente comprometidos com o desenvolvimento econômico e social de nossa cidade, Leopoldina fora agraciada com a organização de uma comissão encarregada para a edificação de uma Lojas Americanas. Ouviu-se dizer que a cerimônia de assentamento da Pedra Fundamental está prevista para ocorrer em breve. Demonstramos apreço e apoio à inestimada iniciativa de cidadãos tão obstinados e aproveitamos para ressaltar aos assinantes deste jornal que o pagamento das assinaturas atrasadas podem ser realizadas diretamente em nossa tipografia, na Rua do Rosário, nº 37.

O início das obras despertou a atenção dos curiosos que se amontoavam na Rua Municipal, admirando a edificação das estruturas. O expresso chegava no Largo da Estação carregado de ferro fundido, anunciando abundância e prosperidade de anos vindouros. No Theatro Alencar, a Companhia Dramática Escudero, da atriz Amélie Escudero, oferecia o drama em 3 atos Supplicio de Uma Mulher em benefício às obras da Lojas Americanas.

Houve grande concorrência de público disputando os assentos da plateia na noite do benefício. As publicações do inédito folhetim As Americanas, de Elysio Baltazar, prendiam a atenção dos leitores assíduos do jornal O Leopoldinense, dividindo espaço com as Notícias em First Hand, anunciando as grandiosas novidades que seriam expostas na Lojas Americanas: arnica montana, costaneiras, cartas de ABC, papel sem fim para engenheiros, coagulina para grudar louça, bocetas christofle para rapé, pomada de família, papel de luto, cartas de enterro, folhinha de desfolhar, calendário perpétuo, bálsamo homogêneo sympathico, entre tantas outras estonteantes invenções oriundas da América que brevemente chegarão na cidade da Leopoldina, nada além de 2000 réis.

O tão aguardado dia da inauguração levou a população às ruas da cidade que acompanhava, ao som da apresentação musical da Lyra Leopoldinense, o cortejo iniciado no Largo do Rosário com destino à Rua Municipal. Outro cortejo partia do Largo da Gramma, acompanhando a cavalgada e as acrobacias mortais dos grandes artistas do Circo Casali, em temporada na cidade.

A expectativa para a abertura das portas causava empurrões e pisões entre aqueles que disputavam espaço na multidão formada em frente à Loja. Nas arquibancadas imperiais, dispostas com elegância e privilégio, verdadeiros cidadãos da aristocracia leopoldinense observavam o espetáculo, entre cumprimentos e mesuras em english, a língua inglesa. Dizam hello, how are you?, nice to meet you, wonderful day.

As três portas foram abertas pontualmente ao meio dia daquele dia, horário anunciado pelo sino da Catedral de São Sebastião. Todos correram. Ouviam-se exclamações e afirmações de êxtase e alegria entre os corredores e prateleiras enfileiradas, exibindo as inovações tecnológicas à preços de aguçar os sentidos. No meio ao tumulto e frenesi desencadeado, a pequena e irrelevante inscrição Made in China, contida no fundo das embalagens, passou despercebida aos olhos dos desatentos. Ao fim do ato, todos foram embora, orgulhosos e extasiados, segurando suas caixas e sacolas.

A inauguração da Lojas Americanas definiria um período de avanço econômico e social para Leopoldina, graças ao aumento do fluxo turístico e a circulação de moeda na região, dando à cidade o título, jamais esquecido, de Americanas da Zona da Mata. Os anos de prosperidade seriam drasticamente interrompidos com a arrebatadora crise econômica internacional que atingiu em cheio o Brasil, ocasionando a grande queda nas exportações e o drástico aumento dos preços das safras de café. A decadência da cafeicultura e a seca na lavoura seriam responsáveis pela desativação da Estação Ferroviária de Leopoldina e o fechamento de estabelecimentos comerciais.

Em meio à inseguranças e incertezas, a Lojas Americanas despediu-se da cidade, fechando suas portas definitivamente. Apesar das diversas tentativas de tombamento patrimonial, o histórico prédio caiu no vazio do esquecimento, cedendo seu espaço, décadas depois, para a Igreja Universal do Reino de Deus. Os cultos ocorrem de segunda à domingo, a partir das 18h00.

(Crônica escrita em 2017 e desengavetada agora, mais ou menos um mês após a inauguração oficial das Lojas Americanas aqui na cidade de Leopoldina).

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