tudo nesse meio tempo

Foto e Texto: Alan Villela

 

Dei um tempo de tudo

porque tudo nesse meio tempo todo
foi tão pouco
e tão pequeno
que nesse meio tempo que passou
eu te vi,
você me viu,
mal nos olhamos,
não nos falamos,
e deixamos assim:

tudo nesse meio tempo,
que existiu,
e que fingimos que não aconteceu,
para ser um meio tempo em nossas vidas que passou…

porque se eu tivesse todo o tempo de tudo,
esse meio tempo todo seria tão muito
e tão grande
que eu teria te olhado
e teria te falado
para não deixar nosso meio tempo passar.

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Pedágios

Foto: Tirada por Ana Camila,  oferenda para Yemanjá, Salvador, 2011.
Texto: Alan Villela

Ele ainda está por aí, mandou avisar para quem interessar possa, que está aí escondido em algum lugar e que, se você esperar mais um pouco, logo ele vai reaparecer.

Diz ele, não sou eu quem está dizendo isso, que, nada não, melhor deixar como está, que, espere aí, ele disse que era para falar, mas eu acho que prefiro deixar estar, isso sou eu quem está dizendo, que, afinal de contas, o que aconteceu de verdade para ele ter ido embora assim tããão inexplicavelmente?

Ele me mandou te contar que foi embora porque, acho que não sei se devo, acho que não sei se vou, mas ele me deu certeza de que vai reaparecer, na sua vida, de uma forma cabulosa que você não irá esperar, e assim, não esperando e ele reaparecendo, repentinamente inocentemente e inexplicavelmente, da mesma forma com a qual o fez ir embora, você vai, você vai, você vai querer ir embora também, seja lá para onde for, pagando por cada pedágio que você o fez pagar.

Célula Morta

Foto: Meu quarto na “Roda Viva” por Tiago Marinho.  Texto: Alan Villela

Você me assombra como um fantasma e ri da minha cara de criança assustada correndo para o canto da sala, mas não tem jeito de esconder, você me pega pelas costas e quebra as minhas pernas bem devagarzinho, com jeitinho e cuidado para eu não sentir tanta dor.

Eu seguro o choro, firme e forte, me levanto e recomponho ajeitando meu retilíneo uniforme amarrotado e me vou embora mundo afora assobiando pela rua sem olhar pra trás para sua cara gorda linda esplendorosa que eu queria tanto bater que eu queria tanto acariciar mais uma vez, qualquer dia, e eu sei, eu sei que sei, muito bem sei que esse dia vai chegar, tarde ou cedo, seja pra bater, seja para acariciar, me contento com qualquer coisa seu encosto malcriado sem educação peso de papel macumba de esquina enfarto lepra aneurisma na minha cabeça célula morta enraizada no meu couro cabeludo, me machucando me machucando me machucando e puta merda, como eu gosto de sentir dor.

Domingo

Alan Blair ~

Foto e Texto por: Alan.

Para Haroldo Ferreira Lima
Diego Monti Silva
Leonardo Velten Anacleto

“Mas sua luz não se apaga, e até se vê melhor – porque vastas e assustadoras são as trevas dos nossos dias” – Cecília Meireles

Ele chegou perfumado com aquele velho cheiro azedo de hollywood vermelho. A blusa de coqueirinhos verdes que ganhara de sua irmã – “bem Tropicália” – ele me explicou certa vez. Me olhou sem graça e sorriu. Eu, sem graça, sorri também, antes de me engasgar com o “Oi” que eu disse e que, logo em seguida, achei que teria sido melhor não ter falado nada. Só sorrido, como ele.

Faria frio, muito frio, segundo o noticiário que passava de manhã e que eu escutava enquanto terminava de empacotar as minhas coisas, logo antes do telefone tocar e soar rouco pela casa quase vazia, exceto pelas caixas de papelão. Mas eu já não tinha empacotado esse telefone? A voz rouca do outro lado da linha dizendo “Alô?” me fez pensar que foi um erro não tê-lo empacotado.

Ou talvez não.

Era um barzinho aparentemente bacana de uma metrópole qualquer, com árvores na calçada quadriculada. Tocava alguma coisa tipo samba ou bossa-nova, enquanto os pedestres corriam para escapar das nuvens cheias que se preparavam para derramar toda aquela chuva ácida, sobre nossas cabeças e nossos sapatos brancos, enquanto eu, sentado e imóvel, percebia o quanto era difícil, meu deus, olhá-lo nos olhos sem desviar o olhar.

E não mudara nada. Nada. Os cabelos pretos e lisos escorrendo na testa. O mesmo óculos de armação grossa que eu tanto gostava e aquele tortinho charmoso no dente. Florentino Ariza, eu costumava chamá-lo. Que audácia minha querer ter sido uma Fermina Daza.

Pediu um uísque com bastante gelo e me perguntou o que eu iria beber. Respondi, incerto, que o mesmo, nem sei porque, nunca bebi conhaque e o que eu queria era uma garrafa térmica de café preto bem forte e sem açúcar. Acendeu seu hollywood espantado ao me ver acender meu carlton – “de vez em quando, só de vez em quando”, eu disse. Então eu tragava fundo tudo pra dentro esperando pela vertigem que não vinha com ele ali, bem na minha frente, amarelo e intocável. DO-GMA.

Crostas grossas de sujeira com mosquitos em cima na toalha da mesa, eu observava e cutucava com as pontas dos meus dedos enquanto ele falava da saudade louca que sentia, meu bem, que havia se formado fazia um tempo, que aumentou a sua coleção de livros, entrou na academia, parou de tomar tarjas pretas, maconha e loló, e que, no almoço, fez arroz com ovo frito, assim bem de propósito, para comer a gema do ovo molinha estourada em cima do arroz, uma delícia, simples toda a vida, como a vida que queria.

E me olhava com algum tipo de medo, de cautela, olhar de culpa querendo desculpa que eu não dizia, não dizia, resistia, puta merda, caralho, por que isso agora, porra? Logo agora?
E eu me entortava e me debatia naquela claridade escura dos olhos dele.
Olhos de medusa: traiçoeiros, assassinos, irresistíveis.

O conhaque rasgava fundo por dentro. Esperei o gelo derreter um pouco mais pra ver se ficava mais fraco. Queria ter algum veneno mortal, mas não saberia em qual copo colocar: se no meu ou no dele? Acendi mais um carlton. Meus pés subiam e desciam, feito nervoso de espera. Nervoso de espera. E ele, ele falava, cantando.

A toalha da mesa já encharcada com o suor das minhas mãos, ou apenas um gelo perdido derretendo por aí, quente, fervendo, da forma exata como eu, por dentro, fervia também, até que ele, catito e inocente, perguntou: “E você? Como vai você?”

Esses dois segundos duraram-me a eternidade, e a visão daqueles olhos, refletidos em meus olhos, me paralisaram.

Então eu pisquei.

Naquele exato instante, centenas de milhares de crianças nasciam e centenas de milhares de pessoas morriam enquanto os astros se alinhavam com a terra, e ele ali, bem na minha frente, me perguntando como eu ia.

Como eu ia?

E eu não fui capaz de gritar que não. Não!
Eu não ia.
Eu não ia há muito tempo.
Que eu já tinha me esquecido da última vez que eu cheguei a pensar a ir há algum lugar, e o que você está fazendo aqui? Agora? Quem te deu esse direito? Essa permissão? Com essa blusa, esse cheiro e essa sua postura patética que eu tanto amei?

Veio para tomarmos conhaque, fumarmos e rirmos do tanto que você me foi importante e o quanto que impotente eu fui naquele quarto branco, vazio, exceto pelo bombril na antena da tv e dos nossos peixes dourados, afogando no aquário, enquanto eu mastigava os lençóis da cama, o olho vermelho de febre, de mágoa. O disco arranhado e a sopa esfriando no canto da mesa. E eu fumando, fumando os hollywoods que você esqueceu de buscar junto com todo o resto que você deixou, impregnado. Suas ervas daninhas, matando a sala, matando a casa e me matando depois.

Veio para que eu te diga que, de todos, você foi o maior. Que, com você, eu queria comprar animal de estimação, sabão em pó, buquê de flor, cama de casal, lavar roupas no domingo, cultivar flor em pote de margarina Delícia, tomar banho de mangueira no quintal de casa, tirar seu casaco quando você chegasse do trabalho, e, no fim da noite, assistir televisão com nossas pernas enlaçadas – imortais – até a velhice chegar.

Que, agora, eu quero te bater forte na cara, mas eu quero te beijar longo, e o tanto que eu te odeio, eu te odeio, mas o tanto que eu te amo, eu te amo.
E isso me dói, porque, por mais que você não mereça, eu te quero, mas por mais que eu te queira, eu me proíbo, porque eu sou bobo e o meu orgulho é maior.

Senti algum arrepio gelado correr em meu corpo. Respirei o mais fundo que eu fui capaz e respondi:

“Eu vou bem, muito bem, sempre muito, muito bem”.