Caligrafia de Asfalto – Editora Multifoco, Rio de Janeiro, 2012.

Amigos leitores,

este blog virou livro, e se chama “Caligrafia de Asfalto”, lançado em outubro pela Editora Multifoco. O lançamento ocorreu em Ouro Preto, MG. Mas se voce é de longe, ou de perto, mas perdeu, já é possível comprar pelo site da editora. O link segue abaixo:

https://editoramultifoco.com.br/loja/product/caligrafia-de-asfalto/

Bem, e vamos escrevendo para uma segunda publicação.

🙂

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tudo nesse meio tempo

Foto e Texto: Alan Villela

 

Dei um tempo de tudo

porque tudo nesse meio tempo todo
foi tão pouco
e tão pequeno
que nesse meio tempo que passou
eu te vi,
você me viu,
mal nos olhamos,
não nos falamos,
e deixamos assim:

tudo nesse meio tempo,
que existiu,
e que fingimos que não aconteceu,
para ser um meio tempo em nossas vidas que passou…

porque se eu tivesse todo o tempo de tudo,
esse meio tempo todo seria tão muito
e tão grande
que eu teria te olhado
e teria te falado
para não deixar nosso meio tempo passar.

made in sônia.

Foto: Moaxir. Texto: Alan Villela.

Ouro Preto, madrugada de 15-09, 03h47.

Estou com algumas dificuldades para dormir, já faz uns dias. Amanhã preciso acordar cedo. Não estou conseguindo cair no sono e, assim do nada, comecei a pensar em você. Faz muito tempo que não nos falamos, então resolvi te escrever, espero que não se importe.

Eu queria contar algumas coisas para você saber como anda a minha vida. Hoje estou com 23 anos, ainda morando em Ouro Preto, por pouco tempo, 8° período. Trabalhando, dando aulas para crianças e para idosos, uma gostosura.

Agora tenho um gato. Ele se chama Samuel e está aqui do meu lado com cara de sono, provavelmente querendo saber quando eu irei desligar essa luz. Mas o problema é que, por mais que eu queira, essa luz não se apaga e, infelizmente, é essa luz que, de quando em vez, me traz escuridão. Então estou te escrevendo, desejando que você escureça junto comigo, pelo menos um pouquinho, menino, que escureça, que perca o sono a noite toda e acorde amarrotado para ir trabalhar, porque você fechou o olho para dormir, mas se esqueceu de fechar o buraco que abriu.

Aí ele se tornou meu melhor amigo, o Samuel. Branco com manchas caramelo, me responde toda vez que eu pergunto algo a ele. Deita no meu peito, me lambe e rola no tapete e no final da noite, se encaixa no meu corpo pra poder dormir comigo.

Eu preciso ir dormir agora, se você puder deixar. Sei que não foi sua intenção me fazer perder o sono hoje, mas te escrever foi a forma que encontrei para conseguir dormir. Gostaria de te enviar essa carta pelo correio, mas não sei mais onde você mora, qual o seu endereço, com o que você trabalha e se você está bem. Mas eu sei que, um dia, você vai vir até aqui, ler essa carta sabendo que é especificamente para você. Poderá até achar patética a minha insistência em te escrever, é que meu glossário é muito diversificado e ainda não esgotaram minhas palavras. Eu não me sentirei envergonhado caso você pense algo assim de mim. Te escrever é a única forma de conseguir te deixar ir embora, porque o que mais me incomoda não é a distância,

não é a falta,

não é o silêncio.

É a presença.

Um beijo.

A.

Promete que Jura? – Peça Teatral

Montagem apresentada na VII Semana de Artes da UFOP no dia 27 de maio de 2011 na sala 35 da Escola de Minas em Ouro Preto, Minas Gerais.

Levou os seguintes prêmios:

– Melhor Montagem – Júri Popular
– Melhor Texto Original
– Melhor Figurino
– Melhor Iluminação

Direção e Dramaturgia: Alan Villela
Atuação: Leonardo Oliveira, Maria Gabriela Felipe e Nataly Bentley
Música: Matheus Ferro
Execução: Laís Garcia
Iluminação: Luis Felipe Pereira
Maquiagem: Jairo Alna
Cenografia e Figurino: Alan Villela
Instalação Externa: Gabriel Edeano e Jorge Pessoa

Promete que Jura?

Foto: Lis e Alan – Texto: Alan Villela

 

– Tônio, é verdade que amar dói?

– Ai, e eu vou saber? Donde você tirou isso, criatura?

– De um livro de amor!

– Mas você já amou alguém, Chica?

– Ah, Tônio… eu acho que não sei.

– Acha que não sabe?

– É! Acho que não sei!

– Mas como acha que não sabe? Ou você acha, ou você não sabe!

– É que eu não sei se eu sei, então é acho que não sei!

É… faz sentido.

– E você, Tônio?

– Eu o que?

– Você já amou alguém?

– Ai, Chica! Oxe! Eu acho que… também não sei!

– Acha que também não sabe?

– É Chica! Acho que também não sei! Mas você é muito complicada! Diaxo, só sabe fazer pergunta difícil!

– Não é a pergunta que é difícil, Tônio! A resposta que é!

– Mas você também só sabe querer resposta difícil!

– Mas se a resposta fosse fácil, não seria nem preciso perguntar, você não acha?

– É… faz sentido!

– Chica, você acha que dói demais?

– Dói o quê?

– Amar, Chica!

– Ai, depende do tipo de amor!

– Ixe! Mas essa agora? E desde quando amor tem tipo?

– Desde sempre, ora!

– E qual tipo de amor que tem?

– Ah… tem amor de tudo que é tipo… tem de… da… ixe! Mas que você também só sabe fazer pergunta difícil, Tônio!

– Não é a pergunta que é difícil, Chica! É a…

– Eu sei! É a res-pos-ta!

– E você acha que tem remédio, Tônio?

Remédio pra quê?

– Pra dor de amor!

– Oxi! Deve ter! Remédio pra coração, né?

– É! É mesmo! É remédio pra coração! O seu Juca, primo da tia Ritinha, vivia tomando remédio pro coração dele! Só que aí, um dia, deu ataque e ele morreu… de tanto amar! Deve ser tão bonito morrer de amor!

– Ixe, Chica! Vire pra lá essa boca!

– Mas o que é que tem Tônio? Tem tanta gente que morre de coisa feia! Morrer de amor deve ser até feliz, você não acha?

– É… faz sentido!

– Mas você não tem medo não, Chica?

– Medo de quê?

– De morrer!

– Morrer de quê?

– De amor, Chica!

– Ah, Tônio… eu sei não! Me disseram que o seu Juca morreu tão rapidinho que ele nem notou que estava morrendo.  Foi Pá-Pum! O meu medo é de sentir dor. Por isso te perguntei que se amar dói.

– Mas, afinal de contas, pra que você quer saber de tudo isso?

– Ah, Tônio! É que já faz um tempo que eu to querendo te amar, mas eu não quero ficar me doendo!

– Oxi, Chica! É sério?

– É sim!

– Então não se avexe não! Porque outro dia eu vi na telenovela um ator dizendo que “o amor cura tudo!”. Se você me amar, eu vou te amar também. Se teu amor te doer, você fique tranquila que eu pego o meu amor e te curo da dor!

É! Faz sentido! Faz todo sentido, Tônio!

– Mas você promete que vai me amar, Chica?

– Eu prometo!

– Então promete que jura!

Prometo que juro!

– E você? Promete que vai me amar, Tônio?

– Eu prometo!

– Então promete que jura?

– Prometo que juro!