Caligrafia de Asfalto – Editora Multifoco, Rio de Janeiro, 2012.

Amigos leitores,

este blog virou livro, e se chama “Caligrafia de Asfalto”, lançado em outubro pela Editora Multifoco. O lançamento ocorreu em Ouro Preto, MG. Mas se voce é de longe, ou de perto, mas perdeu, já é possível comprar pelo site da editora. O link segue abaixo:

https://editoramultifoco.com.br/loja/product/caligrafia-de-asfalto/

Bem, e vamos escrevendo para uma segunda publicação.

🙂

tudo nesse meio tempo

Foto e Texto: Alan Villela

 

Dei um tempo de tudo

porque tudo nesse meio tempo todo
foi tão pouco
e tão pequeno
que nesse meio tempo que passou
eu te vi,
você me viu,
mal nos olhamos,
não nos falamos,
e deixamos assim:

tudo nesse meio tempo,
que existiu,
e que fingimos que não aconteceu,
para ser um meio tempo em nossas vidas que passou…

porque se eu tivesse todo o tempo de tudo,
esse meio tempo todo seria tão muito
e tão grande
que eu teria te olhado
e teria te falado
para não deixar nosso meio tempo passar.

made in sônia.

Foto: Moaxir. Texto: Alan Villela.

Ouro Preto, madrugada de 15-09, 03h47.

Estou com algumas dificuldades para dormir, já faz uns dias. Amanhã preciso acordar cedo. Não estou conseguindo cair no sono e, assim do nada, comecei a pensar em você. Faz muito tempo que não nos falamos, então resolvi te escrever, espero que não se importe.

Eu queria contar algumas coisas para você saber como anda a minha vida. Hoje estou com 23 anos, ainda morando em Ouro Preto, por pouco tempo, 8° período. Trabalhando, dando aulas para crianças e para idosos, uma gostosura.

Agora tenho um gato. Ele se chama Samuel e está aqui do meu lado com cara de sono, provavelmente querendo saber quando eu irei desligar essa luz. Mas o problema é que, por mais que eu queira, essa luz não se apaga e, infelizmente, é essa luz que, de quando em vez, me traz escuridão. Então estou te escrevendo, desejando que você escureça junto comigo, pelo menos um pouquinho, menino, que escureça, que perca o sono a noite toda e acorde amarrotado para ir trabalhar, porque você fechou o olho para dormir, mas se esqueceu de fechar o buraco que abriu.

Aí ele se tornou meu melhor amigo, o Samuel. Branco com manchas caramelo, me responde toda vez que eu pergunto algo a ele. Deita no meu peito, me lambe e rola no tapete e no final da noite, se encaixa no meu corpo pra poder dormir comigo.

Eu preciso ir dormir agora, se você puder deixar. Sei que não foi sua intenção me fazer perder o sono hoje, mas te escrever foi a forma que encontrei para conseguir dormir. Gostaria de te enviar essa carta pelo correio, mas não sei mais onde você mora, qual o seu endereço, com o que você trabalha e se você está bem. Mas eu sei que, um dia, você vai vir até aqui, ler essa carta sabendo que é especificamente para você. Poderá até achar patética a minha insistência em te escrever, é que meu glossário é muito diversificado e ainda não esgotaram minhas palavras. Eu não me sentirei envergonhado caso você pense algo assim de mim. Te escrever é a única forma de conseguir te deixar ir embora, porque o que mais me incomoda não é a distância,

não é a falta,

não é o silêncio.

É a presença.

Um beijo.

A.

Promete que Jura? – Peça Teatral

Montagem apresentada na VII Semana de Artes da UFOP no dia 27 de maio de 2011 na sala 35 da Escola de Minas em Ouro Preto, Minas Gerais.

Levou os seguintes prêmios:

– Melhor Montagem – Júri Popular
– Melhor Texto Original
– Melhor Figurino
– Melhor Iluminação

Direção e Dramaturgia: Alan Villela
Atuação: Leonardo Oliveira, Maria Gabriela Felipe e Nataly Bentley
Música: Matheus Ferro
Execução: Laís Garcia
Iluminação: Luis Felipe Pereira
Maquiagem: Jairo Alna
Cenografia e Figurino: Alan Villela
Instalação Externa: Gabriel Edeano e Jorge Pessoa

Promete que Jura?

Foto: Lis e Alan – Texto: Alan Villela

 

– Tônio, é verdade que amar dói?

– Ai, e eu vou saber? Donde você tirou isso, criatura?

– De um livro de amor!

– Mas você já amou alguém, Chica?

– Ah, Tônio… eu acho que não sei.

– Acha que não sabe?

– É! Acho que não sei!

– Mas como acha que não sabe? Ou você acha, ou você não sabe!

– É que eu não sei se eu sei, então é acho que não sei!

É… faz sentido.

– E você, Tônio?

– Eu o que?

– Você já amou alguém?

– Ai, Chica! Oxe! Eu acho que… também não sei!

– Acha que também não sabe?

– É Chica! Acho que também não sei! Mas você é muito complicada! Diaxo, só sabe fazer pergunta difícil!

– Não é a pergunta que é difícil, Tônio! A resposta que é!

– Mas você também só sabe querer resposta difícil!

– Mas se a resposta fosse fácil, não seria nem preciso perguntar, você não acha?

– É… faz sentido!

– Chica, você acha que dói demais?

– Dói o quê?

– Amar, Chica!

– Ai, depende do tipo de amor!

– Ixe! Mas essa agora? E desde quando amor tem tipo?

– Desde sempre, ora!

– E qual tipo de amor que tem?

– Ah… tem amor de tudo que é tipo… tem de… da… ixe! Mas que você também só sabe fazer pergunta difícil, Tônio!

– Não é a pergunta que é difícil, Chica! É a…

– Eu sei! É a res-pos-ta!

– E você acha que tem remédio, Tônio?

Remédio pra quê?

– Pra dor de amor!

– Oxi! Deve ter! Remédio pra coração, né?

– É! É mesmo! É remédio pra coração! O seu Juca, primo da tia Ritinha, vivia tomando remédio pro coração dele! Só que aí, um dia, deu ataque e ele morreu… de tanto amar! Deve ser tão bonito morrer de amor!

– Ixe, Chica! Vire pra lá essa boca!

– Mas o que é que tem Tônio? Tem tanta gente que morre de coisa feia! Morrer de amor deve ser até feliz, você não acha?

– É… faz sentido!

– Mas você não tem medo não, Chica?

– Medo de quê?

– De morrer!

– Morrer de quê?

– De amor, Chica!

– Ah, Tônio… eu sei não! Me disseram que o seu Juca morreu tão rapidinho que ele nem notou que estava morrendo.  Foi Pá-Pum! O meu medo é de sentir dor. Por isso te perguntei que se amar dói.

– Mas, afinal de contas, pra que você quer saber de tudo isso?

– Ah, Tônio! É que já faz um tempo que eu to querendo te amar, mas eu não quero ficar me doendo!

– Oxi, Chica! É sério?

– É sim!

– Então não se avexe não! Porque outro dia eu vi na telenovela um ator dizendo que “o amor cura tudo!”. Se você me amar, eu vou te amar também. Se teu amor te doer, você fique tranquila que eu pego o meu amor e te curo da dor!

É! Faz sentido! Faz todo sentido, Tônio!

– Mas você promete que vai me amar, Chica?

– Eu prometo!

– Então promete que jura!

Prometo que juro!

– E você? Promete que vai me amar, Tônio?

– Eu prometo!

– Então promete que jura?

– Prometo que juro!

É Verdade.

Foto: 1990’s – 2000’s – Texto: Alan Villela

(Essa pode até ser uma história boba, mas eu gosto de ser bobo.)

Verdade.
Verdade?
Verdade.

É verdade que você tem medo de viajar de ônibus?

É um pouco de verdade. Anos atrás era um problema maior, mas hoje em dia eu venho me acostumando. Desde que me mudei daqui, precisei pegar vários ônibus, e há algo de confortável em estar na estrada ao redor de pessoas que você não conhece, mas estão ali por algumas horas e sabe-se lá se um dia você irá reencontrá-las, ou não, e reconhecê-las, ou não, e se há algum propósito delas estarem ali contigo, ou não.

Verdade.

É verdade que você está mais feliz lá do que aqui?

Não sei. Eu acreditava ser, no início, quando tudo ainda era novo, parecia aniversário todo dia, primeiro dia de aula todas as manhãs. Era como se, a cada dia, houvesse presente novo para abrir, rasgando o papel e abrindo a caixa de olhos fechados, prolongando ainda mais a surpresa. Mas hoje, eu não sei. Parece que sempre vai faltar alguma coisa, independente de onde eu esteja, independente do que seja, porque essa falta a gente nunca sabe o que é, só sabe que falta.

Verdade.

E você? Está mais feliz lá do que aqui?

Não sei. Eu consigo ser feliz aqui e lá, de formas diferentes. Aqui é uma felicidade confortável. Não preciso me preocupar tanto para conseguir ser feliz, ela já vem cuidadosa, vem protegida e eu sei que ela sempre virá. Mas lá, lá é diferente, é uma felicidade conquistada, eu preciso levantar da cama e sair de casa para conseguí-la. É mais difícil ser feliz, mas quando se é, se é com gosto, se é com fome de quem come o máximo que couber na boca, porque quando não se é, não se é, e então você sente aquela dor de nada na barriga.

Verdade.

É verdade que você ainda tem nossas cartas?

Cada uma delas, guardadas dentro de um envelope grande escondido na gaveta do armário por baixo de uns livros.

Verdade.

É verdade que você tem as minhas?

No meu armário de roupas. Já senti vontade de vesti-las, mas então todos saberiam o que você me escrevia. Na verdade, eu gostaria que soubessem, mas há consolo em mantê-las em segredo.

Verdade.

É verdade que você se arrepende da gente?

Não. E você?

Eu não. Só me arrependo do que perdemos e dessa barreira que ganhamos. Nós não nos encostamos mais.

Eu poderia encostar em você agora.

Eu sei que você poderia e você sabe que eu quero, mas isso seria uma violação da conduta que estabelecemos silenciosamente para conseguirmos nos relacionar novamente, depois de todos esses anos.

Agora são onze horas, é hoje que termina o horário de verão? Poderíamos ficar encostados até a meia noite em ponto, então voltaria a ser onze horas novamente. Será como se nada tivesse acontecido.

Teoricamente sim, eu acho, mas isso não seria verdade e haveria consequências.

Talvez seja esse o propósito da brincadeira, optar entre a verdade ou se arriscar na consequência.

Verdade.

É verdade que você prefere consequência?

É verdade.

Consequência.

Pedágios

Foto: Tirada por Ana Camila,  oferenda para Yemanjá, Salvador, 2011.
Texto: Alan Villela

Ele ainda está por aí, mandou avisar para quem interessar possa, que está aí escondido em algum lugar e que, se você esperar mais um pouco, logo ele vai reaparecer.

Diz ele, não sou eu quem está dizendo isso, que, nada não, melhor deixar como está, que, espere aí, ele disse que era para falar, mas eu acho que prefiro deixar estar, isso sou eu quem está dizendo, que, afinal de contas, o que aconteceu de verdade para ele ter ido embora assim tããão inexplicavelmente?

Ele me mandou te contar que foi embora porque, acho que não sei se devo, acho que não sei se vou, mas ele me deu certeza de que vai reaparecer, na sua vida, de uma forma cabulosa que você não irá esperar, e assim, não esperando e ele reaparecendo, repentinamente inocentemente e inexplicavelmente, da mesma forma com a qual o fez ir embora, você vai, você vai, você vai querer ir embora também, seja lá para onde for, pagando por cada pedágio que você o fez pagar.

Célula Morta

Foto: Meu quarto na “Roda Viva” por Tiago Marinho.  Texto: Alan Villela

Você me assombra como um fantasma e ri da minha cara de criança assustada correndo para o canto da sala, mas não tem jeito de esconder, você me pega pelas costas e quebra as minhas pernas bem devagarzinho, com jeitinho e cuidado para eu não sentir tanta dor.

Eu seguro o choro, firme e forte, me levanto e recomponho ajeitando meu retilíneo uniforme amarrotado e me vou embora mundo afora assobiando pela rua sem olhar pra trás para sua cara gorda linda esplendorosa que eu queria tanto bater que eu queria tanto acariciar mais uma vez, qualquer dia, e eu sei, eu sei que sei, muito bem sei que esse dia vai chegar, tarde ou cedo, seja pra bater, seja para acariciar, me contento com qualquer coisa seu encosto malcriado sem educação peso de papel macumba de esquina enfarto lepra aneurisma na minha cabeça célula morta enraizada no meu couro cabeludo, me machucando me machucando me machucando e puta merda, como eu gosto de sentir dor.

Cobertor

Foto e Texto: Alan Villela

Eu cheguei aqui domingo.

De segunda para sábado o chuveiro explodiu três vezes. Parece mentira, logo eu que tomo uns três banhos por dia.
Uma explodida por banho.
Desloquei o pé enquanto tentava arrumar. Parece sacanagem, logo eu que ando por essa cidade feito um louco.
Ando mancando.

Me disseram que as férias destroem aquilo que o amor constrói.
Verdade ou mentira, estou com saudade de mim debaixo do seu cobertor bicolor.
Deve ser isso. Preciso comprar um cobertor novo que esses dias aqui estão mais frios e sozinhos.
Enquanto isso, vou mancando do quarto para o banheiro, tomando banho gelado e me cobrindo com meu cobertor de cor única.

Quarentena

Foto de Rodrigo Ladeira. Texto de Alan Villela

Que fato estranho, essa coisa engasgada e engraçada de não sei bem exatamente o quê e nem bem sei exatamente aonde,
mas que ronda por aqui em algum lugar, feito gato pingado.

Três e quarenta da manhã e o nariz escorrendo a rodo,
a cachorrada lá na rua brigando no cio e essa coisa aqui dentro martelando faz um tempo,
essa coisa que martela,
aqui dentro,
essa coisa que martela,
disparando o alarme da gente,
e eu finjo que não sinto e não escuto,
me fazendo de besta e de burro,

então eu digo pra todo mundo que é alarme falso, não entrem em pânico,
e vou trancando as saídas de emergência novamente,
pra ninguém sair,
pra ninguém entrar.

me fazendo quarentena,

pra ninguém poder sair
e pra ninguém conseguir entrar.

Epifanias

Foto e Texto: Alan Villela

Prego laranja no pé de cacau
Ajeito o colete, acendo o cachimbo e coloco o chapéu.
Jogo bola, sou judeu, meu pescoço é bigodudo,
uso pente sem dente pra maracajá meu buxo.

Vatapá bosta na areia,
pois pimenta na orelha abaeté meu peito canastra.

De boné, chifre e coleira,
um vidro gigante de canela e cheiro de vinagre,
lá eu ia, bahia, hasteando na barriga a minha bandeira pela praia.

samba meu

Foto e Texto: Alan Villela

O Brasil ganhou e hoje eu aprendi a sambar.

E fiz do meu samba não apenas mexer os pés, descompassado.

Foi preciso balançar os ombros,
fechar os olhos,
esticar meus braços e fazer um carnaval,

arremessando confete na cara feia do povo,
arrebentando a pista
e levantando a vida, para ela não te abaixar e sambar todinha em cima de você.

“pra nós todo amor do mundo,
pra eles o outro lado,
eu digo malmequer”

Se você viesse.

Foto e Texto: Alan Villela

(Para Breno)

– Me conta?

– O quê?

– O que você pensa que aconteceria se viesse aqui agora.

– Eu penso que eu irei bater na sua porta, olharei ao redor, se houvesse um olho mágico eu o tamparei com o meu polegar e respirarei fundo.

– E o que mais?

– Depois eu penso que você me convidará para entrar. Eu entrarei com passos pequenos e as minhas mãos pra trás, juntas. E eu olharei ao redor, com vergonha e você falará comigo e eu responderei olhando pra baixo e arriscarei te falar nos olhos alguns segundos, mas não conseguirei, aí olharei pro lado e fingirei me interessar por algum porta-retrato ou detalhe da casa, e eu ficarei olhando fixamente para ele enquanto nós criamos um diálogo despretensiosamente inocente e sem aparentar vergonha.

– Continue.

– Você me mostrará a sua casa, e eu imagino que ela tenha uma salinha, uma cozinhazinha e um quartinho com banheiro. Eu entrarei em seu quarto e fingirei me encantar por ele, caso ele não me encante. Mas se eu me encantar, encantarei-me de verdade e te falarei que meu encanto é verdadeiro, já que eu te confessei que poderia forjar meu encanto. Eu sentarei na sua cama com as mãos no colo, talvez para trás, esticadas no lençol, aparentando, mais uma vez, não estar sem graça nessa situação. Olharei cada detalhe de seu quarto, buscando coisas em comum entre nós dois. Se houver livros serão as primeiras coisas que me chamarão a atenção, logo em seguida eu olharei os seus CDs, se você os tiver, e depois as fotografias, e começarei algum diálogo meio aleatório sobre o como-eu-me-lembro-de-você-naquele-almoço-que-você-estava-com-o-boné-bege, e essas coisas, demonstrando, mais uma vez, inutilmente, não estar com vergonha. Sentarei-me novamente na cama, as mãos no colo, os pés cruzados, e nessa hora eu sempre olho muito para os meus pés. Se tiver um tapete embaixo deles eu ficarei super entretido com ele, esfregando a sola do tênis, enquanto você fala alguma coisa pra mim. Em minha cabeça, eu pensarei em um próximo assunto, em uma próxima fuga.

– Continue.

– E talvez você sente do meu lado. Talvez você sente na minha frente, imagino que na cadeira de uma escrivaninha. Se você sentar na minha frente não será tão bom, você poderá olhar nos meus olhos, e eu terei que olhar para os seus também, e eu pensarei comigo que “eu não vou desviar, eu não vou desviar”, então eu não desviarei, mas estarei tenso, batalhando comigo mesmo, dentro de mim, até o momento em que eu não aguentarei e desviarei o olhar e sentirei como se houvesse perdido alguma disputa, e eu acho que você irá sorrir, e haverá conforto em seu sorriso. Mas se você estiver sentado do meu lado será diferente. Minhas orelhas estarão MUITO QUENTES, muito quentes e vermelhas, e as minhas mãos suadas, eu tenho mãos suadas desde quando era pequeno, e isso é algo que me deixa em um nível maior de timidez. Então as minhas mãos estarão sempre juntas, ou esfregadas no seu lençol para tirar o acúmulo, do suor, da vergonha. Nós olharemos para baixo, conversaremos quietinho, e eu sempre rindo, de qualquer coisa que você fale, de qualquer coisinha minúscula que você fale, eu vou rir e vou sorrir com a mão na boca para guardar o sorriso vergonhoso que eu tenho.
E talvez, muito talvez, você me dê a sua mão, e ficarei mais pianinho e paralisado do que antes, mas farei festa por dentro de mim, pois a parte das mãos é a minha parte mais favorita de todas. Eu adoro dar as mãos, é algo tão bonito, é o sinal de quando realmente a coisa está dando certo, aí eu vou levantar a minha cabeça, talvez eu a esconda em seu pescoço, talvez não, mas eu não farei nada, eu sempre penso que não cabe à mim fazer alguma coisa, tomar alguma atitude, eu me sinto incompetente nessa parte da história, não tomar a iniciativa, não dar o passo à frente, e eu queria poder tomar, mas tenho aquela vergonha.
Então esperarei, esperarei, torcendo.
E eu penso que você tomará.
Que você tomará a iniciativa.
E eu estarei feliz de ter tomado coragem.
De ter saído da minha casa às 02h da madrugada.
De ter apertado o 108 e subido as escadas.

– Me conta?

– O quê?

– O que você pensa que aconteceria se viesse aqui agora.

– Eu penso que eu irei bater na sua porta, olharei ao redor, se houvesse um olho mágico eu o tamparei com o meu polegar e respirarei fundo.

– E o que mais?

Depois eu penso que você me convidará para entrar. Eu entrarei com passos pequenos e as minhas mãos pra trás, juntas. E eu olharei ao redor, com vergonha e você falará comigo e eu responderei olhando pra baixo e arriscarei te falar nos olhos alguns segundos, mas não conseguirei, aí olharei pro lado e fingirei me interessar por algum porta-retrato ou detalhe da casa, e eu ficarei olhando fixamente para ele enquanto nós criamos um diálogo despretensiosamente inocente e sem aparentar vergonha.

– Continue.

– Você me mostrará a sua casa, e eu imagino que ela tenha uma salinha, uma cozinhazinha e um quartinho com banheiro. Eu entrarei em seu quarto e fingirei me encantar por ele, caso ele não me encante. Mas se eu me encantar, encantarei-me de verdade e te falarei que meu encanto é verdadeiro, já que eu te confessei que poderia forjar meu encanto. Eu sentarei na sua cama com as mãos no colo, talvez para trás, esticadas no lençol, aparentando, mais uma vez, não estar sem graça nessa situação. Olharei cada detalhe de seu quarto, buscando coisas em comum entre nós dois. Se houver livros serão as primeiras coisas que me chamarão a atenção, logo em seguida eu olharei os seus CDs, se você os tiver, e depois as fotografias, e começarei algum diálogo meio aleatório sobre o como-eu-me-lembro-de-você-naquele-almoço-que-você-estava-com-o-boné-bege, e essas coisas, demonstrando, mais uma vez, inutilmente, não estar com vergonha. Sentarei-me novamente na cama, as mãos no colo, os pés cruzados, e nessa hora eu sempre olho muito para os meus pés. Se tiver um tapete embaixo deles eu ficarei super entretido com ele, esfregando a sola do tênis, enquanto você fala alguma coisa pra mim. Em minha cabeça, eu pensarei em um próximo assunto, em uma próxima fuga.

– Continue.

– E talvez você sente do meu lado. Talvez você sente na minha frente, imagino que na cadeira de uma escrivaninha. Se você sentar na minha frente não será tão bom, você poderá olhar nos meus olhos, e eu terei que olhar para os seus também, e eu pensarei comigo que “eu não vou desviar, eu não vou desviar”, então eu não desviarei, mas estarei tenso, batalhando comigo mesmo, dentro de mim, até o momento em que eu não aguentarei e desviarei o olhar e sentirei como se houvesse perdido alguma disputa, e eu acho que você irá sorrir, e haverá conforto em seu sorriso. Mas se você estiver sentado do meu lado será diferente. Minhas orelhas estarão MUITO QUENTES, muito quentes e vermelhas, e as minhas mãos suadas, eu tenho mãos suadas desde quando era pequeno, e isso é algo que me deixa em um nível maior de timidez. Então as minhas mãos estarão sempre juntas, ou esfregadas no seu lençol para tirar o acúmulo, do suor, da vergonha. Nós olharemos para baixo, conversaremos quietinho, e eu sempre rindo, de qualquer coisa que você fale, de qualquer coisinha minúscula que você fale, eu vou rir e vou sorrir com a mão na boca para guardar o sorriso vergonhoso que eu tenho.

E talvez, muito talvez, você me dê a sua mão, e ficarei mais pianinho e paralisado do que antes, mas farei festa por dentro de mim, pois a parte das mãos é a minha parte mais favorita de todas. Eu adoro dar as mãos, é algo tão bonito, é o sinal de quando realmente a coisa está dando certo, aí eu vou levantar a minha cabeça, talvez eu a esconda em seu pescoço, talvez não, mas eu não farei nada, eu sempre penso que não cabe à mim fazer alguma coisa, tomar alguma atitude, eu me sinto incompetente nessa parte da história, não tomar a iniciativa, não dar o passo à frente, e eu queria poder tomar, mas tenho aquela vergonha.

Então esperarei, esperarei, torcendo.

E eu penso que você tomará.

Que você tomará a iniciativa.

E eu estarei feliz de ter tomado coragem.

De ter saído da minha casa às 02h da madrugada.

De ter apertado o 108 e subido as escadas.

fajuto

Alan Blair ~

Foto e Texto: Alan

Aqui dentro acordou fajuto demais hoje.
Mas lá fora não.
Então eu não saí de casa, todo o dia,
Para não tornar fajuto aquilo que fajuto não estava,
Só porque eu vivi um dia egoísta ao ponto de tornar fajuto para não tornar ausência esse dia de hoje, que amanheceu assim para não amanhecer jamais.

A Man

Alan Blair ~

(aos 15 anos…)

Eu me assusto.

Aos 15 eu levava o som para o banheiro e tomava banho cantando Alanis Morissette.
Me enxugava com A Man e olhava para o espelho dublando “I am a man who has heard all he can cuz”. Nossas vozes, minha e da Alanis, entravam pelo ralo e iam até a casa debaixo através do encanamento. A vizinha me caçoava, mas eu não deixava de levar o som para o banheiro por causa disso. Eu tinha muito medo dele cair na água e eu morrer eletrocutado, mas eu morreria ouvindo Alanis. Seria uma tragédia boa para se gabar depois da morte.

Desde novo eu criei vergonha de sorrir, mas no espelho eu sempre sorria, para mim e para Alanis, através do espelho embaçado, cantando sorrindo, meu rosto franzino, magrelo, vermelho de espinhas, e no meio do vapor eu até via algum tipo de beleza na criatura distorcida que eu era.

Mas o que me assusta é que, aos quase 22, eu não levo mais o som para dentro do banheiro. Agora ele fica do lado de fora. Eu ainda arrisco dublar alguma coisa, mas é que, às vezes, eu não consigo, eu me assusto no banheiro da casa que eu já não moro desde os 19. Eu observo o espelho antigo e me lembro perfeitamente da imagem refletida aos 15 anos, só que agora, sobreposta em um rosto mais largo, sem as espinhas que me evitavam sorrir, uma barba modesta aqui e ali, mas a exata pessoa de 7 anos atrás: um menino aí com cabelos cacheados.

fim de fevereiro

Alan Blair ~

Foto e Texto: Alan

Na minha rua passam cavalos, de vez em quando, de noitinha, dá pra escutar de longe, a rua não é asfaltada, e fica tudo escuro, só o céu iluminado, de vez em quando também passa avião piscando, até disco voador, eu já vi, eu e minha mãe, e quando vai amanhecendo a gente sente o cheiro de café, lá pelas quatro ou cinco da manhã, o galo canta e os vizinhos vão pras ruas, os mais velhos ficam nas janelas e logo as pessoas vão para fabrica trabalhar. Na minha rua tem uma fábrica antiga, de tecidos, coisa assim.

Aqui é cheio de crianças de tardinha, ficam nas ruas pulando elástico, brincando de cházinho ou polícia e ladrão, e tem uma vizinha que vende picolé e chup-chup, o picolé é um real, o chup-chup é cinquenta centavos e tem daquela cor azul que pinta a língua, aí as pessoas vão passando pelas ruas e as crianças vão mostrando as línguas.

A gente sente o cheiro de natal aqui na minha rua desde novembro, e quando dá dezembro o povo acende uma árvore de natal gigante que tem lá no alto do morro, e é tão antiga essa árvore de natal, que se no próximo ano ela não acender é capaz até de ter morrido pela idade que ela tem.

A rua da minha casa se chama “vinte e sete de abril”, que é o aniversário da minha cidade, e a minha cidade é um lugar lindo de se viver, e quando chega fim de fevereiro é sempre a mesma coisa, aqui pra mim, no escuro da minha rua:

é essa vontade de ficar na minha cidade com as crianças da vizinhança, com o cheiro de café quatro ou cinco da manhã, com o barulho dos cavalos galopando lá no fundo, no fundo da minha rua, no fundo, bem no fundo, onde eu jamais saí, onde eu jamais me mudei, onde eu sempre morei,  com meu pai, minha mãe e o meu irmão.

garoa paulista

Alan Blair ~

Foto e Texto: Alan

hoje faz um ano que nós nos conhecemos, e se desse para voltar no tempo eu voltaria, para não apenas te olhar molhado, mas levantar do chão e ir me molhar junto com você. Se desse para fazer isso eu faria, com uma felicidade muito grande, pois eu sempre penso em você, desde quando te vi, molhando na chuva, desejando me molhar também.

;*

black snow

Alan Blair ~

“so I know it’s just a spring haze”

Foto: Vista de casa em Ouro Preto. Texto: Alan

É muito sol quente no couro cabeludo e eu sempre quis comer uma bola de neve, mas aqui nem neva. Quando era menor, eu raspava o teto do congelador e enfiava tudo na boca, até que um dia a minha mãe viu e disse que aquilo era tóxico. Acabou com o meu desejo de comer bolas de neve.

Ela me disse que me deu, bem pequeno ainda, água da chuva na casca do ovo para eu poder falar mais, superstição, mas eu nunca fui muito de falar as coisas, desde pequeno, e acho que a casca do ovo não ajudou tanto. Mas mesmo assim eu sinto a neve que não neva, como Lorelai Gilmore, nós sabemos quando ela cai, mesmo sem cair um pedacinho de gelo.

Deve ser por isso que eu fico encantado quando chove granizo. Ou quando acaba toda a energia da cidade. Eu gosto de quartos escuros. Todo mundo é escurinho um pouquinho por dentro, mas eu sou um apagão. É quando dá para ver as estrelas da melhor forma.

Um garoto me disse que é impossível comer uma bola de neve, ela é tão gelada que me queimaria a garganta.
Mas ele nunca comeu.

Então eu ainda tenho chances.

Maria Bonitinha

 

A graça dela era fingimento.

Sorria o dia todo sem descansar a boca, avental de borboletas amarelas, arco na cabeça e sandalinha moleca.
Pintava, bordava e, ainda por baixo, dava aulas particulares de matemática.

Deitava-se pontualmente às nove e meia, cabecinha no travesseiro depois da oração.
Só que rolava na cama, meio zonza de olcadil.
Desejava matar o marido e matar os filhos e depois se matar.
De prazer, escondidinha no banheiro, sem dar um pio, dando pra qualquer um.

?

Alan Blair ~

Foto e Texto: Alan

(Ele possui a necessidade absurda de escapar para longe, de mergulhar-se, de cavar um buraco cada vez mais fundo, revelando-se para si mesmo, mas assustando-se com esse interior tão cru.
Foge-se de tudo,
Mas não consegue fugir de si próprio.
Refúgio)

Aquela vontade de fugir das pessoas, trancar portas e janelas, atravessar as ruas, de apagar-se, invisível, se possível fosse, mas não, infelizmente, não é possível, então ele corre da multidão da rua e dos carros e das contas, crediários, atrasados, atolados na caixa de correio que ele não abre tem seis meses e meio, porta retratos abaixados, relógios desligados, telefones cortados, a macieira cuspindo folha no jardim nesse outono da cidade grande bucólica eólica meteórica e chuva o dia todo, sapatos molhados, paletó encardido, pneu vazio, vitamina de abacate estragando no copo do liquidificador tem três dias, roupa sem passar, jornais acumulados na porta da casa vazia, não se sabe, não se vê, não se escuta, não se, absolutamente nada, já faz tempo, desde o momento exato que ele deixou de existir para as pessoas e passou a existir para si.

Então correu, a bota batendo na lama, a lama batendo na cara sem expressão fisionômica gastronômica astronômica, pseudônimo Zinho, sozinho, disfarçado de nada para as pessoas nas ruas não repararem, invisível possível, sim, agora pode, mesmo que visível, pouco o importa, já que agora corre daquilo tudo que deixou pra trás, os crediários, os telefonemas vespertinos matutinos, despertadores, dores, o outono seco da cidade grande bucólica eólica meteórica metafórica que agora passou a ser.

E assim, nesse espirro redemoinho, cúmulo-nimbo, se deixou levar até um vilarejo, distante do caos e do ozônio e do asfalto quente, e de repente, no meio daquela gente nova que nada sabia de correria e horários a cumprir, filas de banco e lotéricas, tele sena, enlatados, semáforos e escadas rolantes, disse que ali ficaria, repousado na casinha que ficava em volta de outras casinhas que estavam ao redor de outras menores casinhas daquela gente inteligente que não sabia ler nem escrever.

A delícia do silêncio.

Fechar os olhos e não ver nada e escutar o zumbido do silêncio no ouvido e cavar fundo a memória e lembrar que ele deixou a roça e se mudou para a cidade por causa do emprego e por isso ganhou um escritório e um telefone que atendia todo dia usando o terno que deixara na lavanderia no dia anterior, pois sujou com o vinho que derramou quando assustou-se com a buzina o alarme o disparo o choro da filha da vizinha que o acordava sempre às quatro da manhã, olheiras fundas embaixo dos olhos, voçorocas já abertas, o despertador berrando alto, a assinatura atrasada, a vida amorosa inexistente, cavando fundo dentro de si, agradecendo a deus que nada mais disso ele temia e nada tinha além de uma cadeira, o café que a boa senhora preparava toda tarde e as casinhas ao redor de sua casinha, poder fechar os olhos e lembrar de si nos três anos de idade, a bola colorida, o pai, a mãe, já falecidos, filtro de barro, fogão a lenha, goiabeira, ribeirão, folha de taioba pra fazer copinho e beber água da mina e se perguntar o por quê do universo e de vida em outro planeta e por quê nascer em setembro e não agosto, de farinha e ovo virar bolo e porque esse nome bolo? e por quê ele nunca teve uma namorada, um namorado, um cachorro ou um gato, nunca mandou cartas, nem foi ao teatro ou passeou domingo no parque, tomou banho de mangueira, riu sozinho, riu em conjunto, riu forçado, e tentava lembrar, na verdade, qual o dia do seu aniversário que ele já não comemorava nem sabia quanto tempo, qual foi seu último beijo, se existia o primeiro, e fechava bem mais forte os olhos naquele silêncio, e não via nada, só o escuro e aquele zumbido rouco no ouvido, então foi quando ele descobriu que morria de medo da escuridão, e queria, na verdade, a claridade, luz de farol, de sinal de trânsito, ozônio, e aquele zumbido de silêncio estourando nos ouvidos era desesperador, queria buzina, telefone, despertador, a filha doente da vizinha chorando quatro da manhã, o vinho manchado no paletó, o outono da cidade grande bucólica eólica meteórica e a enxurrada da chuva ensopando seus pares de sapatos cujo crediários atrasados entopem sua caixa de correio e pelo amor de deus, meus deus do céu, se me escuta, me ajuda que eu não decorei o trajeto que me trouxe até aqui, me faz voltar para as filas do banco onde eu não me escuto, onde eu não me existo, mas existo para todo o resto que não seja para mim.

Ontem veio

Alan Blair ~

Foto e Texto: Alan

Às vezes vêm, depois do banho, do chão encerado.
Vem em fantasia, disfarçado de coisa boa, de amigo oculto.

Às vezes vêm não se sabe quando, mas eu sei que vêm, e quando vêm, imaculado, de tão forte, nem faz estrago. Só congela e dói à mão, entortam os dedos, vêm às vezes quando você assiste a TV ou abre a janela, lava o banheiro, e você nem pensa muito, como bandido, vai infiltrando, “sem pedir licença, sem bater na pele”, eu gosto tanto da minha mãe, puxei tudo dela, que quando vêm me dá uma vontade de ganhar um abraço de presente que te falta o ar, te entope o nariz.

Você sabe quando vem, pelo aperto, e a gente nunca sabe se quer afrouxar ou apertar mais ainda, tragar, ou não, é que vêm torrencialmente, te molham os sapatos e você fica desconfortável o resto do dia, há a possibilidade de calçar, quem sabe, um chinelo, ou esperar secar tudinho, preso nos seus dedos, preso nessa força catastrófica do que vêm tão repentinamente que você mente, mas nem sente que a enxurrada te carrega para longe, e daí você se molha mais ainda.

E, às vezes, quando vêm, é tão assustador que se não viesse, eu não sei, não haveria graça, não haveria texto, não haveria nada, aí eu me alegro até, por vir, e por se tornar visita, e eu querer deixar entrar.

Então, quando vier da próxima vez, faça festa pelo corredor, serenata na minha janela, escancare a minha porta e saiba que sempre será bem-vindo.

Virol

Alan Blair ~
Foto e Texto: Alan

(uma carta para ele)

Eu, Alan Villela Barroso, Brasileiro, 21 anos, solteiro(a), filho de Márcia de Almeida Villela Barroso e Francisco Vargas Barroso que, além de minha própria pessoa, geraram Filipe Villela Barroso, o primogênito heterossexual da família. Sou moreno claro, olhos castanhos, não muito alto, mas não muito pequeno, tipo sanguíneo não me recordo, sapato tamanho 38 ao 41, dependendo da marca, sou extremamente necessitado de cafeína pela manhã, tarde e noite, não assisto televisão pela falta de tempo, pela falta de vontade, gosto de literatura, pintura, música, com um gosto propriamente diversificado, sou vegetariano, mas não do tipo fresco enjoado, adoro pimentão, azeitonas e suco de caju. Já operei minha cabeça quando tinha seis anos de idade, operei três vezes o apêndice devido a sérias complicações. Nasci prematuro e quase não vinguei, mas por benção do senhor jesus cristo, meu amigo, eu sou uma pessoa saudável e não viciada em remédios, apesar de sempre tomar dramin quando eu não consigo dormir, o que me leva a ter um peso na consciência com o medo de me tornar viciado. Nunca experimentei maconha, bebo com moderação, mas nem sempre (fica a dica), eu sou loucamente viciado em doces, qualquer tipo, adoro o macarrão da minha mãe e o café que ela faz. Gosto muito muito muito de animais, quero ter filhos. Gosto de seriados, videogame e tomar banho, sempre viajo de ônibus e sempre faço o sinal da cruz antes de ele começar a andar, mesmo não sendo católico, mas acredito que me proteja de todo o mal, amém. Já tive fã clube da turma da mônica, backstreet boys e chiquititas, já fiz coleção de azulejos, figurinha, gelocos, cartão telefônico, notas antigas e selos. Quando eu era pequeno eu queria ser cantor de ópera, mas desisti da ideia para ser arqueólogo, mas desisti da ideia para ser ator, que ainda não desisti da ideia. Eu me chamava Alan Blair, por causa da Bruxa de Blair, já namorei três vezes, tenho um gosto por homens bastante peculiar, fumo de vez em quando, sou bastante caseiro, tenho fobia social, preguiça das pessoas, atravesso a rua para não ter que cumprimentar os outros, finjo que não enxergo, mas vejo tudo, finjo que estou dormindo, mas estou sempre acordado, ando com fones de ouvido, mas com a música desligada para ouvir conversa alheia, sempre escuto as pessoas batendo na minha porta, mas eu fico quieto e nunca atendo, assim como não atendo telefone sem identificador de chamadas e nem a campainha da minha casa de Leopoldina, tenho um sério problema com sinais de trânsito e ônibus de cidades grandes e ruas de cidades grandes e centro de cidades grandes e cidades grandes, tenho vergonha de ficar sem blusa em público, o que automaticamente me faz não gostar de praias, sempre digo que vou entrar na academia, mas tenho preguiça da preguiça dos primeiros dias da academia, aí eu adio pro ano seguinte e assim sucessivamente, adoro quando acaba a energia da cidade toda e demora horas pra voltar, então eu pego a lanterna do meu pai e saio na rua, adoro também quando chove muito, principalmente quando tem muito raio e trovão. Quando eu era pequeno um raio quase me atingiu, o que parece mentira, mas eu juro que é verdade. Adoro fantasmas e espíritos e aquelas brincadeiras do copo e do compasso, mas nunca consegui um contato com alguém do além, mas já vi diversos vultos e coisas brancas pela casa que morava, uma vez eu amarrei uma cobra de borracha na linha e escondi na calçada, aí uma moça passou e eu puxei, o que a fez pular e gritar e consequentemente berrar pra vizinhança inteira ouvir “seu filho da puta eu tô grávida caralho se meu filho morrer eu vou jogar na porta da sua casa seu peste”, desde então nunca mais fiz esse tipo de brincadeira, exceto uma vez na casa de praia da minha avó que eu comprei uma lagartixa de borracha na feira hippie e coloquei do lado dela e ela gritou e ficou louca e correu atrás de mim com um pedaço de pau enorme, a minha mãe viu e ficou puta com minha avó que estava puta comigo e eu puto com a lagartixa, aí eu fiquei morrendo de vergonha e dormi durante o dia todo e quando eu acordei tudo já tinha voltado ao normal e esse caso me faz lembrar que uma vez um garoto me deu uma bexiga de festa cheia de água, mas esqueceu de me avisar que estourava, minha mãe me levou para buscar meu irmão na aula, enquanto esperávamos no meio de um monte de adultos fiquei balançando a bexiga até que ela estourou no meu colo e eu levei muito susto e fiquei morrendo de vergonha com todo mundo me olhando, mas minha mãe me deu os super óculos escuros dela que me tornava invisível e eu perdi a vergonha. Já apareci na TV cultura, sempre choro em Titanic, sou prendado, viciado em cera para o chão, em farofa pronta da marca Yoki, em canecas, tomo muito água, então eu urino absurdamente muito, o que me deixa bem irritado, pois eu sempre tenho que levantar de madrugada para ir ao banheiro, não gosto de claridade, meus óculos não tem grau, já andei de ultraleve, mas nunca de avião, eu já quis me mudar para o Tibet, no ensino médio eu pintava as minhas unhas de preto e de verde bandeira, já me masturbei dentro de um caixão que alugamos para uma festa do dia das bruxas no meu bairro, e acabei, sem querer, gozando no teto e, inacreditavelmente, uma vizinha velha morreu e foi enterrada no mesmo caixão, já me masturbei também dentro de um elevador e só depois eu vi que havia câmera registrando tudo, recentemente, enquanto eu estava em Leopoldina, quebrei a câmera digital dos meus pais, mas coloquei tudo no mesmo lugar e eles ainda não sabem, gosto de Floribella e sei a coreografia das músicas, minha cachorra mordeu minha bunda uma vez e eu fiquei muito triste, e a mesma cachorra mordeu minha boca e eu levei cinco pontos, aí quando eu cheguei do hospital, a primeira coisa que eu fiz foi abraçá-la e ela me pediu desculpas e hoje em dia temos uma relação ótima, eu não tenho charme pra contar piadas, eu dançava “É o Tchan”, toco piano na minha escrivaninha todo dia, tenho muito déficit de atenção, já roubei uma pipoqueira, tenho saudades da trema, fiz uma promessa que sempre que passasse em frente ao barbeiro que mora na minha rua eu iria cumprimentá-lo, tanto na ida quanto na volta, e eu faço isso até hoje, eu queria ser a Fada Bela, acredito e vejo óvnis com minha mãe, sempre tocava “Marrom Bombom” depois do almoço no rádio e me dava náuseas, pois eu sabia que era o horário de eu ir pra aula, eu tinha mania de pegar qualquer pedaço de mangueira na rua e jogava em cima das pessoas falando que era uma cobra, até o dia em que eu REALMENTE peguei em um cobra ao invés de uma mangueira. Eu sou feliz, eu amo a família que tenho, o lugar onde eu moro, o curso que eu faço e meus amigos que são meus amigos, e esse perfil todo é pra dizer que eu estou a fim de você e que se você não estiver a fim de mim, eu pelo menos tento te conquistar pelo meu carisma.

E então?

I Don´t Like Mondays.

Alan Blair ~
Foto e Texto: Alan

Ele se engasga,
Arroto rouco,
Ele se difama, só.

Ele acha que seria melhor privar-se menos, na verdade, ele perdeu o potencial que tinha desde que voltou pra cá, e as coisas andam bem mais rápidas que a capacidade que ele tem para captar, um certo déficit de alguma coisa.

Meio de setembro com gosto de agosto e aparência de dezembro sem o cheiro de natal que ele tanto adora, luzes verdes e vermelhas e roupa nova, mas é meio de setembro e é como se ainda fosse tudo muito longe.

Ele se machuca no fato do silêncio após as 22h40min, voto de silêncio, é assim que se fala? Ele não queria tanto isso, janela fechada, cortina fechada, mesmo possuindo fotofobia, é assim também que se fala? Dor nos olhos na claridade exposta, a cabeça quase explode.

Ele queria perfume novo na porta se abrindo, colorindo o corredor, música nova no som e cor de sol nas paredes do seu quarto, mas só de vez em quando, ele enfatiza, para tentar variar os passos na dança oca louca que ele tem ensaiado, sozinho, para conquistar algum par da forma charmosa que ele move seus pés no seu conga amarelo, para lá e para cá, ritmado, marcha de carnaval no inverno gelado que faz naquela cidade oca louca onde ele mora, sozinho, sol e chuva dividindo o céu no mesmo instante, onde ele mora, sozinho, repleto de amigos de todos os lugares de todos os sotaques de todos os jeitos variados diversificados possíveis onde fica tudo mais lindo no lugar mágico e lindo onde ele mora, sozinho, calando a sua voz depois das 22:40, rodando no quarto junto com as luzes coloridas que ele liga para intimidar alguma coisa que ele insiste em não definir como algum de tipo de solidão, é assim que se fala? Solidão? Tanto faz, é tudo mágico e lindo, mágico e lindo, repito, mágico e lindo no lugar lindo onde ele mora, sozinho.

Por que quer, ele diz.
Por que é preciso, eu digo.

Uma garrafa inteira de café só pra mim, a idéia não é tão ruim assim, ele justifica.
Mas é que eu não sou tão egoísta, dividir às vezes é bom, eu confesso.

Ele ta querendo a sua mãe, o seu pai, o seu irmão e um beijo da xuxa, se possível for.
É que, às vezes, as coisas dificultam um pouquinho para o lado dele, little earthquakes, me compreende bem? Ele queria, após 22h40min, ligar para o mundo e dividir café, mas o mundo ta todo dormindo depois desse horário, mas uma garrafa inteira de café só pra ele não faz tão mal assim, ele lembra.

Haroldo, ele ta querendo te ligar nesses dias.

É que eu só queria perfume novo quando abrisse a porta,
Ou alguém que me abrisse a porta,
Música nova no som e mais claridade no meu quarto, de vez em quando.
Aqui é tudo tão mágico e lindo, três vezes mágico e lindo no lugar lindo onde eu moro, só que sozinho, após as 22h40min, aí eu me perco dentro de um quarto com banheiro.

Ainda bem que eu tenho minha Lorelai Gilmore.

Grecin 2000

Alan Blair ~
Foto e Texto: Alan

Cortei meus cabelos.
(Mais uma vez).

Ao escorrer para o ralo, ameaçou não descer.
Forcei com os dedos fincando forte no buraco do ralo nojento,
cabelos grudando nas minhas unhas, tufo, maço,
punhado de esperma grisalho, Grecin 2000.

Ameaçou não descer, mas desceu.
Depois de muito esforço desceu,
a água girando anti-horário, redemoinho louco berrando rouco, e eu de pé, tampouco importa,
dando tchau, como quem fecha a porta, tranca duas vezes e joga as chaves fora.

marasmo.

Alan Blair ~
Foto por Ronald Péret – “Dama da Noite”, Alan Villela.
Texto: Alan.

Cheiro de bosta de cachorro pisada entre o garcía marquez, drummond e josé saramago.

Música envangélica berrando “amém senhor amém senhor amém senhor”, sem nem ter certeza se evangélico diz “amém”.

A tosse seca da moça lá desgranhada cabelo nojento de puta velha mal comida me olhando de um jeito desconfiado
como se fosse roubar seus livros podres, enfia o “amém senhor” na xota e para de me olhar assim que eu só tô folheando.

Poeiras e aranhas entre Sabrinas, quadrinhos e revistas pornôs,
polegar direito direto na coxa desnuda daquele lá que eu não sei dizer quem é mas bem que eu gostaria de saber.

A puta velha entretida no louvor do amém senhor, aí eu saco a minha arma e me preparo pra atirar, atrás da estante,
da poeira nojenta, do cheiro da bosta de cachorro pisada, amém senhor, amém senhor, ai man señior!

Porra melada na coxa desnuda daquele lá que eu não sei dizer quem é mas agora pouco me importa,
poeira, porra e traça entre literatura, cultura e sexo.

Adoro o marasmo dos dias nublados.

P&B

Alan Blair ~

“Há dois anos atrás nós nos conhecemos e o amor veio em bloco, entupindo a avenida, feito enxurrada, cheio de cor e brilho, feito bloco de carnaval. E nós dois dançávamos lindamente, sambando as nossas marchinhas particulares, jogando confete e serpentina pro alto, a cara pintada de vermelho e lantejoulas pelo nosso corpo. E você sempre na dianteira do bloco de nós dois, segurando alto o estandarte, sem nunca deixar cair.”

“Você é o preto e há dois anos eu venho tentando ser o branco; a junção de todas as cores, enquanto você se tornou à ausência de todas elas. Virei uma criatura com medo da escuridão, de me perder dentro dela, de entrar na curva errada dentro dos labirintos. Aí eu evito, cautelosamente eu me policio e evito entrar em becos sem saída.”

P&B: preto e branco, claro e escuro, bom e mal, presa e predador.

P&B é meu primeiro trabalho como dramaturgo que vale realmente algo para ser publicado. O tema central da peça é o reencontro de um ex-casal de namorados que, depois de muito tempo, sentam no bar, fumam, bebem e conversam, sobre o presente, sobre o passado e, quem sabe, sobre o futuro?

Meu objeto de pesquisa para a criação da dramaturgia foram cartas que eu escrevi e que nunca mandei, xerox de cartas que eu, audaciosamente, enviei, e cartas de ex que recebi e não rasguei.

Como a peça é grandinha, achei mais cômodo disponibilizá-la para download.

P&B ~ Alan Villela

Botão direito do mouse, salvar como…

(E Leopoldina está linda, sem o frio de Ouro Preto… aquele frio que aperta a gente…)

Lícito

Alan Blair ~

Foto e Texto por: Alan.


“Se a realidade te alimenta com merda, meu irmão, a mente pode te alimentar com flores”
– Caio Fernando Abreu

Expele a fumaça boca à fora.
Rodopia no ar até desaparecer.
Deposita as cinzas na Alegria que sentia/sente, sorridente nessa loucura mansa de viver.

A tontura leve esculpindo um sorriso no rosto, um arrepio no braço.
Queria mais gente, ainda mais agora, a TV pifada, o dedo pelado.
E roda na cama macia com os olhos fechados, aquela necessidade insana de dançar, nem que seja sozinho, errando os passos consigo mesmo e não se importando com nada disso.

Tira a roupa, nu no frio que faz lá fora, mas no quentinho que está aqui dentro.
Fuma o filtro e acha graça, e gargalha num instante de criança, de infância, de presente de natal com um laço enorme.

E o que ele quer, menina, é vivacidade, textura, tato e cabelos cacheados, se possível.

Ele só quer as luzes apagadas e um par para dançar agarrado, enquanto o mundo congela lá fora e eles se descabelam aqui dentro.

Domingo

Alan Blair ~

Foto e Texto por: Alan.

“Mas sua luz não se apaga, e até se vê melhor – porque vastas e assustadoras são as trevas dos nossos dias” – Cecília Meireles

Ele chegou perfumado com aquele velho cheiro azedo de hollywood vermelho. A blusa de coqueirinhos verdes que ganhara de sua irmã – “bem Tropicália” – ele me explicou certa vez. Me olhou sem graça e sorriu. Eu, sem graça, sorri também, antes de me engasgar com o “Oi” que eu disse e que, logo em seguida, achei que teria sido melhor não ter falado nada. Só sorrido, como ele.

Faria frio, muito frio, segundo o noticiário que passava de manhã e que eu escutava enquanto terminava de empacotar as minhas coisas, logo antes do telefone tocar e soar rouco pela casa quase vazia, exceto pelas caixas de papelão. Mas eu já não tinha empacotado esse telefone? A voz rouca do outro lado da linha dizendo “Alô?” me fez pensar que foi um erro não tê-lo empacotado.

Ou talvez não.

Era um barzinho aparentemente bacana de uma metrópole qualquer, com árvores na calçada quadriculada. Tocava alguma coisa tipo samba ou bossa-nova, enquanto os pedestres corriam para escapar das nuvens cheias que se preparavam para derramar toda aquela chuva ácida, sobre nossas cabeças e nossos sapatos brancos, enquanto eu, sentado e imóvel, percebia o quanto era difícil, meu deus, olhá-lo nos olhos sem desviar o olhar.

E não mudara nada. Nada. Os cabelos pretos e lisos escorrendo na testa. O mesmo óculos de armação grossa que eu tanto gostava e aquele tortinho charmoso no dente. Florentino Ariza, eu costumava chamá-lo. Que audácia minha querer ter sido uma Fermina Daza.

Pediu um uísque com bastante gelo e me perguntou o que eu iria beber. Respondi, incerto, que o mesmo, nem sei porque, nunca bebi conhaque e o que eu queria era uma garrafa térmica de café preto bem forte e sem açúcar. Acendeu seu hollywood espantado ao me ver acender meu carlton – “de vez em quando, só de vez em quando”, eu disse. Então eu tragava fundo tudo pra dentro esperando pela vertigem que não vinha com ele ali, bem na minha frente, amarelo e intocável. DO-GMA.

Crostas grossas de sujeira com mosquitos em cima na toalha da mesa, eu observava e cutucava com as pontas dos meus dedos enquanto ele falava da saudade louca que sentia, meu bem, que havia se formado fazia um tempo, que aumentou a sua coleção de livros, entrou na academia, parou de tomar tarjas pretas, maconha e loló, e que, no almoço, fez arroz com ovo frito, assim bem de propósito, para comer a gema do ovo molinha estourada em cima do arroz, uma delícia, simples toda a vida, como a vida que queria.

E me olhava com algum tipo de medo, de cautela, olhar de culpa querendo desculpa que eu não dizia, não dizia, resistia, puta merda, caralho, por que isso agora, porra? Logo agora?
E eu me entortava e me debatia naquela claridade escura dos olhos dele.
Olhos de medusa: traiçoeiros, assassinos, irresistíveis.

O conhaque rasgava fundo por dentro. Esperei o gelo derreter um pouco mais pra ver se ficava mais fraco. Queria ter algum veneno mortal, mas não saberia em qual copo colocar: se no meu ou no dele? Acendi mais um carlton. Meus pés subiam e desciam, feito nervoso de espera. Nervoso de espera. E ele, ele falava, cantando.

A toalha da mesa já encharcada com o suor das minhas mãos, ou apenas um gelo perdido derretendo por aí, quente, fervendo, da forma exata como eu, por dentro, fervia também, até que ele, catito e inocente, perguntou: “E você? Como vai você?”

Esses dois segundos duraram-me a eternidade, e a visão daqueles olhos, refletidos em meus olhos, me paralisaram.

Então eu pisquei.

Naquele exato instante, centenas de milhares de crianças nasciam e centenas de milhares de pessoas morriam enquanto os astros se alinhavam com a terra, e ele ali, bem na minha frente, me perguntando como eu ia.

Como eu ia?

E eu não fui capaz de gritar que não. Não!
Eu não ia.
Eu não ia há muito tempo.
Que eu já tinha me esquecido da última vez que eu cheguei a pensar a ir há algum lugar, e o que você está fazendo aqui? Agora? Quem te deu esse direito? Essa permissão? Com essa blusa, esse cheiro e essa sua postura patética que eu tanto amei?

Veio para tomarmos conhaque, fumarmos e rirmos do tanto que você me foi importante e o quanto que impotente eu fui naquele quarto branco, vazio, exceto pelo bombril na antena da tv e dos nossos peixes dourados, afogando no aquário, enquanto eu mastigava os lençóis da cama, o olho vermelho de febre, de mágoa. O disco arranhado e a sopa esfriando no canto da mesa. E eu fumando, fumando os hollywoods que você esqueceu de buscar junto com todo o resto que você deixou, impregnado. Suas ervas daninhas, matando a sala, matando a casa e me matando depois.

Veio para que eu te diga que, de todos, você foi o maior. Que, com você, eu queria comprar animal de estimação, sabão em pó, buquê de flor, cama de casal, lavar roupas no domingo, cultivar flor em pote de margarina Delícia, tomar banho de mangueira no quintal de casa, tirar seu casaco quando você chegasse do trabalho, e, no fim da noite, assistir televisão com nossas pernas enlaçadas – imortais – até a velhice chegar.

Que, agora, eu quero te bater forte na cara, mas eu quero te beijar longo, e o tanto que eu te odeio, eu te odeio, mas o tanto que eu te amo, eu te amo.
E isso me dói, porque, por mais que você não mereça, eu te quero, mas por mais que eu te queira, eu me proíbo, porque eu sou bobo e o meu orgulho é maior.

Senti algum arrepio gelado correr em meu corpo. Respirei o mais fundo que eu fui capaz e respondi:

“Eu vou bem, muito bem, sempre muito, muito bem”.

Fita cassete

Alan Blair ~

Texto por: Alan.

 

E ele temia, antecipadamente, debruçado na cama, meia noite e cinquenta, exato, a fita rolando dentro do som, que quase ter vinte e um era assustador.
Incomodava feito aquele barulho agudo de silêncio que, às vezes, dá no ouvido.

A cabeça já doendo e tentando lembrar aonde enfiou a cartela de dramin que toma, às vezes, só às vezes, para dormir.
Ligava a televisão e mais uma vez constatava o quanto odiava o José Luíz Datena.

Vegetariano por opção, clamava clandestinamente por um bom pedaço de bacon com bastante queijo derretido. Só por hoje.
Ficava deveras assustado com o fato de que o tempo não descansa para tomar um café e que ele era efêmero, como o resto de toda a bosta do mundo.

E era estranho saber que amanhã acordaria e que dormiria de noite para novamente acordar até, quem sabe, se deus quiser, e que ele queira, se passar mais vinte e um anos e ele, debruçado na sua cama, talvez meia noite e cinquenta, a fita velha rolando dentro do som, o Datena já morto, menos mal, assustado e lamentando os quarenta e dois anos acumulados e que, se você não arregaça a vida, a vida te arregaça e ainda ri da sua cara.

Tác.

O lado A da fita termina e ele aproveita que já estava levantando e coloca a água para ferver. Enquanto corta os cabelos (como quem corta o passado) decide se café ou chá?

Vira a fita cassete e dá play, mais uma vez, feito uma música no repeat, en-jo-ativa.

Cavalos Marinhos

Alan Blair ~

Foto e Texto por: Alan.

 

Assim foi sendo, solto nesse devaneio seco, nessa tontura “fádiga”.

Descobriu que cavalos marinhos existiam quando morreu afogado, mas já não fazia tanta diferença.
Antes de perder o último gole de fôlego, agarrado entre as algas do mar, achou gostoso, silêncio quentinho, morrer como um navio naufragado daqueles que escondem dentro de si um baú de tesouros, e que jamais alguém encontraria, fantasiado de natureza viva entre algas e cavalos marinhos, fóssil humano.

Gostou da idéia e fechou seus olhos, como quem fecha o punho e atira pedrinhas no mar.

12/06/2009

machê

Alan Blair ~

Foto por Ronal Peret, “Vertigem do Pecado” – Direção: Eliane Rocha – Atuação: Alan Villela e Higgor Vieira.
Texto por: Alan.

O bombril nas pontas da antena da tv.
Papel machê secando na lâmpada acesa.
Nossos peixes dourados molhados no aquário e, no armário, pão e bolo que eu comprei pra nossa noite.

Os barulhos das chaves são marteladas na minha cabeça. Porta trancada duas vezes, conferindo.
Eu ligo o som na tomada e o que toca é o silêncio…
Fiz um chá de alfazema (?) pra fazer descer o bolo que eu engulo, sozinho.

Eu imagino que seja só uma brincadeira de mau gosto, uma surpresa pra mim, mas no fundo eu sei que não, não é, mas mais lá no fundo a esperança desesperada berra como louca, mas eu sei que não, não é.

Embrulhei minhas semanas no silêncio esse semestre. Economizei palavras e acumulei sentenças, e o que eu sei é dessa necessidade de explodir junho com porradas de garrafas de café.

Agora eu tenho um manicômio inteiro só para mim, minha loucura particular que ele não foi capaz de suportar.
Três meses é uma camisa de força pra você, dezessete. Nem deu tempo de marcar meu dedo.

É que eu só queria ser o mocinho, mais uma vez, e me esqueci que, literalmente, o mocinho era você.

Acumulei mais um pra minha pequena agradável lista de “unsent”.

O José Saramago está embrulhado de dourado no fundo da gaveta, esperando por alguém.

(Que não amarele com o tempo…)

10/06/2009
01h53min.


“You live you learn
You love you learn
You cry you learn
You lose you learn
You bleed you learn
You scream you learn”

Pequeno Incendiário

Alan Blair ~

Foto e Texto por: Alan.

“Just say yes, you little arsonist.
You’re so sure you can save every hair on my chest.
Just say yes, you little arsonist.”

Carros atropelam minhas pegadas antes de, literalmente, me encontrarem.

E eu estou correndo.
To correndo, to correndo, to comendo as migalhas que Maria deixou pelo caminho antes de, literalmente, me encontrarem.

Há muitos anos eu perdi em algum lugar o meu senso infalível de direção.
Fujo de encruzilhadas.
Então eu corro.
Eu corro, eu corro, eu escorro o suor da minha mão na sua mão antes de, literalmente, me encontrarem.

Eu estou tentando te acertar, garoto.
Eu estou tentando te acertar com a ponta afiada da minha faca, antes de, literalmente, me encontrarem.

E se me encontrarem, nu e sádico mordendo sua panturrilha, eu levanto e me visto e persigo os carros que, propositalmente, tentam me alcançar, para descobrir que você está no controle da direção, a duzentos por hora, tentando me acertar, tentando me acertar com a sua faca afiada antes que eu te acerte com a minha, te envenenando com a minha adoração.

17×20

Quem vai matar primeiro a fome?

from the other side.

Alan Blair ~

Texto por: Alan.

(uns reflexos de “Scarlet´s Walk” e uma semana e meia de cama, doente.)

Martelam um prego na minha cabeça três vezes mais rápido que os ponteiros de um relógio.

Pá – Pá – Pá.

Sozinho nessa caixa, afundando feito sonho em areia movediça. A porta trancada pelo lado de fora e eu aqui dentro, feito um palhaço de mola.
Há uma janela na parede com grades de ferro.
Depois das grades, há uma montanha,
E após a montanha, um rio, e dentro do rio, os supostos sapatos vermelhos de Scarlet, afogados e esquecidos, como eu, mofando nesse quarto com um termômetro enfiado no rabo, apitando 39º.

Sinusite
Faringite
Amidalite
Calma, não se irrite.
Estou suando feito uma cabra.

Deixa eu te contar uma coisa:

Eu to sentindo gosto de nada na boca.
To morrendo de fome, e não têm nada pra comer.
To trancado, cara, dilacerando meu estômago com meu próprio estômago, entende?

Esse vazio, esse silêncio, essas quatro paredes que me prendem aqui nesse quarto vazio, comigo e com minha sede. Eu grito por água e ninguém responde.

To perdido em algum lugar que eu não sei aonde é, e às vezes fica tão escuro que eu não consigo me enxergar.

Aí eu fecho os olhos.

“Mas eu acredito na paz.
Eu acredito na paz, sua vagabunda”

O vestido de Apolo.

Alan Blair ~

Foto e Texto por: Alan.

Eu gostava dos filmes antigos de velho oeste.

As cidades eram sempre vazias, de chão de terra, e aquela bola de poeira/palha/vento rolava na rua, sem ninguém, sem nada, e o vento zumbia no ouvido, assobiando uma canção qualquer.

Lugares vazios me dão um tipo de solidão.

Há um tempo atrás costumava passar na TV propagandas de cigarros onde motoqueiros percorriam enormes estradas de chão, tudo muito deserto, no meio do nada, aquelas montanhas de terras enormes. Eu era bem pequeno e assistia com uma certa fascinação ruim, e quando eles paravam suas motos, acendiam um cigarro, assim meio no êxtase. No meio do nada, aquilo me dava um aperto no peito muito grande. Como “Thelma e Louise” com seu carro e seus sonhos, fugindo da polícia e se jogando de penhascos, suicidando pra viver.

Ainda pequeno, minha mãe ia pra aula e me deixava em casa. Não sei quantas horas demoravam pra ela voltar, mas demorava o bastante pra me sufocar. Eu deitava na sua cama e cheirava seus travesseiros como garantia que o cheiro dela ainda estava dentro de casa e que ela logo voltaria. Eu tinha medo dela nunca voltar. Ainda tenho medo.

Scarlet têm um mapa e um caminho que é só dela. Ela precisa caminhar para se encontrar, eu precisava me encontrar para me caminhar, só que eu não tenho o mapa que Scarlet têm.

” Apollo, your frock

Was always as beautiful

Always as beautiful as the saddest rainstorm

Apollo, your frock

Was always as beautiful

Always as beautiful as your sister’s

That your light shined on”

16:45

Alan Blair ~

Foto e Texto por: Alan.

(“A casa girou ao redor de si mesma duas ou três vezes e ergueu-se lentamente no ar. Dorothy teve a impressão de que estava subindo em um balão”) – “O Mágico de Oz”.

O estômago vazio desde o jantar do dia anterior, salvo apenas pelas sete xícaras de café e quatro bolachas de água e sal desde às oito da manhã do dia de hoje quando acordou com a música alta do vizinho do andar de cima.

Enviou “Boa prova mais tarde. Se quiser passar aqui em casa quando chegar, sei lá, tomar um café, conversar com o Brian, seria bacaninha, AP 401, beijos”.

Varreu a casa
Passou pano no chão
Mudou móveis de lugar
Abriu portas
Olhou a correspondência (essa carta que não chega!)
Repetiu o mesmo cd três vezes
Deitou
Levantou
Deitou
Levantou
Olhou o relógio
Olhou o relógio
Olhou o relógio
Defecou lendo “Ovelhas Negras”
Gozou no box
Rabiscou no vapor do espelho do banheiro
Pés gelados

A hora sem passar cada vez que volta a olhar para o relógio. Aquele fundo ácido no estômago de um maço inteiro de cigarros fumados sem fumar e o pulsar no peito, a mão molhada, sempre molhada.

Três incensos queimados, o pinguim de porcelana da geladeira limpo com Veja, o pulsar do peito, o relógio, mão molhada, vozes distribuídas pelos cômodos da casa.

Tem uma aranha na minha parede tecendo a teia traiçoeira que eu quase sem querer me envolvo, sufoco, enrolando rolando rolando rolando três quatro cinco vezes a teia bem na veia grossa do me pescoço.

16:21
16:22
16:24 – Brian se contorce no aquário.
16:26
16:29 – café.
16:30 – há fé.
16:34
16:35 – Uma nova mensagem na caixa de entrada – Pulsa, Pulsa- SPAM.
16:40
16:45
16:46 – Ter 10 Mar 09
16:48 – “I´m lost but I´m hopefull baby”.

Desconfortável(mente), Brian balança no aquário e eu o acompanho aqui da cama. Latidos perturbadores vindo de fora e até agora nada.

16:52

Nada.

17:05 – O interfone grita. Eu grito junto.

É.
Sim.
Ele chegou.
Ele chegou e leu pra mim:

“- Eu não posso entender por que você deseja sair deste lindo país e voltar para o lugar seco e cinzento que você chama de Kansas.

– Isso é porque você não tem cérebro – respondeu a menina. – Não importa o quanto nossos lares sejam monótonos e cinzentos, nós, pessoas de carne e osso, preferimos morar lá do que em qualquer outro país, por mais bonito que seja. Não existe nenhum lugar como o nosso lar.

O Espantalho suspirou.

– É claro que eu não posso compreender – disse ele. – Se as suas cabeças fossem cheias de palha, como a minha, vocês provavelmente viveriam em lugares lindos, e então não haveria ninguém morando em Kansas. A sorte do Kansas é que vocês têm cérebros.”

(“Apesar do balanço da casa e dos gemidos do vento, Dorothy fechou os olhos e adormeceu profundamente”)

 

Randon

Alan Blair ~

Foto e Texto por: Alan.

Estraçalho cravos e espinhas.

São três da tarde. Não tenho pressa, mas tenho sede. Bebo Lygia Fagundes Telles para matar essa secura torta da minha garganta.

“Lembra, Romana?; eu perguntei. Da nossa festa de formatura, ainda tenho o retrato, você comprou para o baile um sapato apertado, acabou dançando descalça, na hora da valsa te vi rodopiando de longe, o cabelo solto, o vestido leve, achei uma beleza aquilo de dançar descalça.”

Não dancei na minha formatura, pois eu não fui. Algumas coisas daquela época de princípio de hoje em dia me perseguem fielmente. A Maria José me telefonou ontem. Deu um toque e parou. Queria dizer coisas para ela, me pinte um quadro, me faça um bolo, mas há burocracia demais, cara fechada demais, me leva na praia com você, beijo.

Existem músicas em momentos específicos que eu prefiro pausar, pular, arranhar meu disco. Eu olho para este livro e penso que devo me presentear com um caderno de caligrafia. Ainda tenho sede, está quente e minhas mãos e pés suam abundantemente, jorrando rasgando borrando essa folha branca de preto, caneta 0.8.

Três e vinte e um e eu espero o carteiro incansavelmente, mas sei que hoje não chega nada para mim, nem alegria, nem dó. Ando atrasado, perdendo ônibus, subindo morro pra poder descê-los depois, de braços abertos, de camisa aberta, de olhos fechados, perigo de bater em poste, vontade de bater nos outros.

Gostaria, ligeiramente, de fazer um resumo desse fim de semana. Tente captar.

macho fome macho

macho examina macho

macho come macho.

E mais daqui a pouco, quatro e meia,

macho reencontra macho.

Rasuro minhas palavras de cabo à rabo. Eu tenho vontade de gritar nessa cidade. A semana começou hoje e eu só penso na sexta-feira. Thálita escutando músicas de mexicanos, Brian dançando no aquário, a minha cabeça começando a doer, e atrás de mim está Scarlet, colada na parede em oito imagens P&B e uma colorida, fazendo seu caminho, de 1. Amber Waves até 18. Gold Dust. Me canso da forma de como escrevo as coisas, forçando uma casualidade trivialidade subjetividade, sorteando palavras difíceis no dicionário. Acho que vou mandar um e-mail para Fiona pedindo por favor maçã lance um cd novo logo adoro você beijos thakns.

Escolho a roupa mais bonita e provocante que escarra de uma forma inocente a minha ânsia de carne fresca branca juvenil. Pingo pingo pingo em meu pescoço três gotas gotas gotas de veneno cristalino, aroma de bergamotas que ele suga pelas narinas e se deixa levar por todo o meu caminho, como Scarlet em seu vestido de flores e babados e fios ruivos voando na brisa.

Mas eu não tenho brisa.

Mas eu não tenho flores.

Mas eu nem sou Scarlet e não sei o caminho.

Eu te carrego no colo, te abraço por trás, esfregando a barba invisível na sua pelugem prematura e vou lambendo a sua orelha com a ponta da minha língua.

Sou cobra que não troca de pele.

Sou homem que provoca homem.

E todas as minhas tias fingindo um não saber o porquê de eu ser o único sobrinho que nunca apareceu com uma namoradinha loirinha patricinha cheirosinha sonsinha idiotinha perfeitinha alisadinha maquiadinha em saias curtas e salto alto. Vai ver é porque eu gosto de allstar e calça jeans rasgada.

Mamãe já sabia. Papai idem.

Vamos lá, Scarlet, cante para mim, me mostre seu caminho, sua armadilha, Sweet Sangria.

 

I can´t see New York from the other side. I can´t see.

Cinco prás quatro. Amarro o tênis, arrumo o pênis, pego minhas chaves e tranco as portas por onde passo. Caminho nas ruas com as mãos no bolso, preparado e ensaiado para sacar a minha arma e te atrair e te atirar bem no meio do seu peito de menino de dezessete anos.

Medusa vira pedra olhando no espelho.

Aperto o gatilho e atiro.

Não sei aonde, certo, Mas sei que acerta.

Roda Viva, roda.

Alan Blair ~

Foto e Texto por: Alan.

Me mudei para debaixo da escada.
As paredes brancas, tenho uma cama e com a falta de bombril, improviso bolinhas de algodão nas pontas da antena da TV, mesmo sabendo que não dará em nada.

Agora eu tenho um peixe vermelho-sangue feito a tinta desta caneta, que bate suas asas, como se voasse, remexendo a calda dentro daqueles aquários redondos. É como pingar corante vermelho na água, dissolvendo bem aos pouquinhos, até ficar um líquido homogêneo.

Ta tudo cheirando a mofo e eu mastigo um caroço de azeitona, com cuidado para não quebrar.

Substituí as fotos antigas por novas, tentando transformar Ouro Preto em Leopoldina. Mas estar aqui, ladeiras e barroco, é tão intenso lúdico e frio que eu me sinto em frases de Caio Fernando Abreu, querendo ser como ele, imundo e brilhante.
Dolorido.

O Caroço se partiu e veio um gosto amargo de dentro, tenho que cuspir na pia da cozinha.

O filete de sangue vermelho batendo as suas asas, nadando para cima e para baixo nesse pequeno espaço de oceano, e vê-lo assim, balançando que nem cetim no ar, ondulando, roda viva, roda, como notas de piano em deserto, em uma introdução de “Beauty Queen”.

Faz um ano.

“Don´t know why she´s in my hand
Can´t figure what it is but I lie again”.

aguardente

Alan Blair ~

Foto e Texto por: Alan.

Mastigo os meus fones de ouvido.

O joelho encostado na mesa de mármore, gelado.

Luminária de argila com furos.

Olhos quentes, aguardente, água ardente descendo pelo meu pescoço, alcançando o peito, barriga.

Eu vou respirando fundo, assim, puxando o ar, soltando o ar, o nariz fazendo barulho,

entupido de catarro querendo escorrer.

Nos meus dentes, o fio dos fones, e eu pressiono mais forte, mais forte,

tocando qualquer Tori do tipo que me desfalece e me corta, e, mordendo mais forte,

mais forte, quase arrebentando o plástico dos fios, para que assim, no silêncio,

reste apenas o barulho do nariz entupido, olhos quentes, água ardente, aguardente queimando meu rosto, meu pescoço, meu peito, minha barriga e o catarro já escorrendo sem nem conseguir mais segurar, a respiração presa, sufocando.

Eu queria pausar tudo agora para poder ter mais colo de mãe, sentindo o cheiro de bolo de banana e dizer coisas do tipo como é difícil saber que meu tempo está acabando

e de como é bom estar aqui, presente,

mas eu não consigo escrever, por mais que eu tente, não sai.

Me enxugo antes que alguém suba para beber água,

já que pesar compartilhado é sempre mais difícil.

Amanhã é menos um. E aí?

What it all comes down to?

Alan Blair ~

Texto por: Alan.

(sobre o show da alanis, sobre são paulo, rio de janeiro e meus amigos com benefícios)

(para se ler com madness e orchids repetidas vezes…)

Em terras leopoldinenses dessas minas gerais, saí do ônibus às duas e quarenta da tarde com um arco-íris desfocado no céu.

Em seis dias algumas muitas coisas aconteceram, e por mais que eu tenha sido protagonista de tudo (dentro do meu ponto de vista pessoal), acabei sendo mais um telespectador daqueles que, com uma enorme bacia de pipoca, senta no sofá e assiste vidrado um dvd, um jagged little pill, live, talvez.

E agora, na minha pequena Leopoldina, sentado no banheiro com a porta fechada, aproximadamente nove da noite, tentando digerir tudo o que me aconteceu, com 39,5° de febre e a garganta estourando, sem saber se é conseqüência pós-alanis ou apenas uma puta gripe.

Tem algo de estranho acontecendo, cara. É como terminar de ler o último capítulo de um livro e, imediatamente, começar a ler outro, quem sabe até uma continuação do livro anterior, feito uma saga. Mas o que resta é perceber que, em alguns dias, coisas aconteceram e geraram mudanças e da mesma forma que a minha garganta está estourando, a minha cabeça também está, louca para sair por aí, rodando que nem you learn, nu na sala de visitas.

Oi, Alanis.

Alan Blair ~
Foto e Texto por: Alan.

Nove dias agora, só nove dias e parece que eu não durmo tem nove anos e parece que eu não como nada sólido e parece que eu estou cada vez mais deslocado, desmembrado, distorcido, desgrenhado, e parece, realmente parece, que eu tô morrendo de medo de morrer.

Eu to com um tubo, um cano, uma crosta entalada bem no meio da garganta e eu estou implorando por uma vontade de vomitar, de escarrar, de me explodir e me cortar de cima a baixo, em pedaços, em trapos, surdos e mudos, sem postura, sem direito, sem dever, sem prever, sem,
mas ainda é prematuro.

Quarto sem porta, estalando dedos estalados, sufocando, su-focando, catarro escorrendo pelo nariz que não respira, descendo pela boca que não faz um som, assim, desfocado sentado na privada do banheiro, disse que ia cagar pra todo mundo, mas foi chorar, foi chorar com seus fones de ouvido, “And you’ve never met anyone”, com as luzes apagadas ninguém vê nada, ninguém escuta nada, exceto a torneira aberta pra disfarçar uma lavada de mão.

E quando a gente vai dormir, a gente gira, roda, se revolta por não conseguir e se desespera por saber que amanhã, oito dias, sete dias, seis dias, já é o dia e, nisso tudo, não dormimos uma noite.

Eu não sei,
eu realmente não sei,
mas preciso me livrar de tudo isso logo pra poder ficar tranquilo,
mas só tranquilidade não me basta.

Talvez, pedir um abraço já é pedir demais, e eu peço tão pouquinho, que seja, ao menos, um abraço sem carinho, mas que seja um abraço.

“You’ve brought water to me, making sure my bloom rebounds
you know best of what my special care allows” ~ Orchids.

Original Sinsuality.

Alan Blair ~
Foto e Texto por: Alan.

Sentado sobre o meio fio da esquina três – aproximadamente uma hora e vinte e seis minutos da madrugada – olhava o relógio, pisando em urina de gato, rato, tato que fazia arrepiar, e assim, meio sem rumo, sozinho na esquina três, o olho ardendo de sono, a bunda dormente de tudo e a cabeça estourando de dor, batia o pé, em urina de gato, em urina de rato, tato que não tateava nada.

Uma hora e vinte e sete minutos da madrugada, levantou, ainda sem sentir a bunda, desequilibrou alguns passos, balbuciou gemidos e seguiu ao norte da esquina três, por vez parando, por vez andando, por vez cantando qualquer coisa em inglês,

E eu daqui do décimo terceiro andar do Edifício Flores, número cinqüenta e sete da esquina dois, olhando da janela, a luz apagada, meu peito parado e, de fundo, aquela ruiva histérica de sempre, tocando pianos com sua sensualidade original, observava aquele homem sumir, diminuir, desfalecer. E antes de desaparecer completamente, perto de uma hora e meia, ele estranhamente parou.

Tirou sua blusa,
Abriu os braços,
Abriu a boca,
E olhou para o céu, como quem espera alguma salvação divina, um perdão, uma seta indicando o caminho, a saída.

E eu queria que chovesse estrelas, que brilhasse qualquer tipo de coisa, poste purpurina farol, indicando qualquer vestígio de vai meu amigo, segue teu caminho tranqüilo que eu te cuido e te velo e te ajudo daqui de cima, mas nada.
Nem um pássaro, um avião, uma nuvem passou no céu.

E ele abaixou os braços, vestiu sua blusa, desequilibrou alguns passos, balbuciou gemidos e seguiu ao norte da esquina três, por vez parando, por vez andando, por vez cantando qualquer coisa em inglês que eu já não escutava mais aqui da janela com a ruiva gritando,
Com a ruiva gritando em meus ouvidos,
Com a ruiva gritando

“You are not alone
I say, you are not alone in your darkness.
You are not alone, baby,
You are not alone.”

Bösendorfer e brigadeirös.

Alan Blair ~
Foto e Texto por: Alan.

Sobre esse desconforto, há conforto nas lâmpadas quebradas, sendo assim, brilha mais um céu Leopoldinense, e a gente, cá de dentro, quase fora, gritando para os vizinhos “I am piecing a potion, to combat your poison” por volta dás vinte horas e quarenta e oito minutos da noite, desafinando, desafinado, porque eu sempre gostei mais do desafinado desconcertado descompassado desesperado que eu canto gritando.

E a gata tentando pegar um mosquito, e a cachorra dormindo no sofá, e meus pais dormindo em seus quartos, e o irmão fora de casa e eu aqui,

sendo um quase,
sendo um nada.

“She is risen
She is risen
Boys
I said she is risen”

– Barons of Suburbia – Tori.