Promete que Jura? – Peça Teatral

Montagem apresentada na VII Semana de Artes da UFOP no dia 27 de maio de 2011 na sala 35 da Escola de Minas em Ouro Preto, Minas Gerais.

Levou os seguintes prêmios:

– Melhor Montagem – Júri Popular
– Melhor Texto Original
– Melhor Figurino
– Melhor Iluminação

Direção e Dramaturgia: Alan Villela
Atuação: Leonardo Oliveira, Maria Gabriela Felipe e Nataly Bentley
Música: Matheus Ferro
Execução: Laís Garcia
Iluminação: Luis Felipe Pereira
Maquiagem: Jairo Alna
Cenografia e Figurino: Alan Villela
Instalação Externa: Gabriel Edeano e Jorge Pessoa

Promete que Jura?

Foto: Lis e Alan – Texto: Alan Villela

 

– Tônio, é verdade que amar dói?

– Ai, e eu vou saber? Donde você tirou isso, criatura?

– De um livro de amor!

– Mas você já amou alguém, Chica?

– Ah, Tônio… eu acho que não sei.

– Acha que não sabe?

– É! Acho que não sei!

– Mas como acha que não sabe? Ou você acha, ou você não sabe!

– É que eu não sei se eu sei, então é acho que não sei!

É… faz sentido.

– E você, Tônio?

– Eu o que?

– Você já amou alguém?

– Ai, Chica! Oxe! Eu acho que… também não sei!

– Acha que também não sabe?

– É Chica! Acho que também não sei! Mas você é muito complicada! Diaxo, só sabe fazer pergunta difícil!

– Não é a pergunta que é difícil, Tônio! A resposta que é!

– Mas você também só sabe querer resposta difícil!

– Mas se a resposta fosse fácil, não seria nem preciso perguntar, você não acha?

– É… faz sentido!

– Chica, você acha que dói demais?

– Dói o quê?

– Amar, Chica!

– Ai, depende do tipo de amor!

– Ixe! Mas essa agora? E desde quando amor tem tipo?

– Desde sempre, ora!

– E qual tipo de amor que tem?

– Ah… tem amor de tudo que é tipo… tem de… da… ixe! Mas que você também só sabe fazer pergunta difícil, Tônio!

– Não é a pergunta que é difícil, Chica! É a…

– Eu sei! É a res-pos-ta!

– E você acha que tem remédio, Tônio?

Remédio pra quê?

– Pra dor de amor!

– Oxi! Deve ter! Remédio pra coração, né?

– É! É mesmo! É remédio pra coração! O seu Juca, primo da tia Ritinha, vivia tomando remédio pro coração dele! Só que aí, um dia, deu ataque e ele morreu… de tanto amar! Deve ser tão bonito morrer de amor!

– Ixe, Chica! Vire pra lá essa boca!

– Mas o que é que tem Tônio? Tem tanta gente que morre de coisa feia! Morrer de amor deve ser até feliz, você não acha?

– É… faz sentido!

– Mas você não tem medo não, Chica?

– Medo de quê?

– De morrer!

– Morrer de quê?

– De amor, Chica!

– Ah, Tônio… eu sei não! Me disseram que o seu Juca morreu tão rapidinho que ele nem notou que estava morrendo.  Foi Pá-Pum! O meu medo é de sentir dor. Por isso te perguntei que se amar dói.

– Mas, afinal de contas, pra que você quer saber de tudo isso?

– Ah, Tônio! É que já faz um tempo que eu to querendo te amar, mas eu não quero ficar me doendo!

– Oxi, Chica! É sério?

– É sim!

– Então não se avexe não! Porque outro dia eu vi na telenovela um ator dizendo que “o amor cura tudo!”. Se você me amar, eu vou te amar também. Se teu amor te doer, você fique tranquila que eu pego o meu amor e te curo da dor!

É! Faz sentido! Faz todo sentido, Tônio!

– Mas você promete que vai me amar, Chica?

– Eu prometo!

– Então promete que jura!

Prometo que juro!

– E você? Promete que vai me amar, Tônio?

– Eu prometo!

– Então promete que jura?

– Prometo que juro!

É Verdade.

Foto: 1990’s – 2000’s – Texto: Alan Villela

(Essa pode até ser uma história boba, mas eu gosto de ser bobo.)

Verdade.
Verdade?
Verdade.

É verdade que você tem medo de viajar de ônibus?

É um pouco de verdade. Anos atrás era um problema maior, mas hoje em dia eu venho me acostumando. Desde que me mudei daqui, precisei pegar vários ônibus, e há algo de confortável em estar na estrada ao redor de pessoas que você não conhece, mas estão ali por algumas horas e sabe-se lá se um dia você irá reencontrá-las, ou não, e reconhecê-las, ou não, e se há algum propósito delas estarem ali contigo, ou não.

Verdade.

É verdade que você está mais feliz lá do que aqui?

Não sei. Eu acreditava ser, no início, quando tudo ainda era novo, parecia aniversário todo dia, primeiro dia de aula todas as manhãs. Era como se, a cada dia, houvesse presente novo para abrir, rasgando o papel e abrindo a caixa de olhos fechados, prolongando ainda mais a surpresa. Mas hoje, eu não sei. Parece que sempre vai faltar alguma coisa, independente de onde eu esteja, independente do que seja, porque essa falta a gente nunca sabe o que é, só sabe que falta.

Verdade.

E você? Está mais feliz lá do que aqui?

Não sei. Eu consigo ser feliz aqui e lá, de formas diferentes. Aqui é uma felicidade confortável. Não preciso me preocupar tanto para conseguir ser feliz, ela já vem cuidadosa, vem protegida e eu sei que ela sempre virá. Mas lá, lá é diferente, é uma felicidade conquistada, eu preciso levantar da cama e sair de casa para conseguí-la. É mais difícil ser feliz, mas quando se é, se é com gosto, se é com fome de quem come o máximo que couber na boca, porque quando não se é, não se é, e então você sente aquela dor de nada na barriga.

Verdade.

É verdade que você ainda tem nossas cartas?

Cada uma delas, guardadas dentro de um envelope grande escondido na gaveta do armário por baixo de uns livros.

Verdade.

É verdade que você tem as minhas?

No meu armário de roupas. Já senti vontade de vesti-las, mas então todos saberiam o que você me escrevia. Na verdade, eu gostaria que soubessem, mas há consolo em mantê-las em segredo.

Verdade.

É verdade que você se arrepende da gente?

Não. E você?

Eu não. Só me arrependo do que perdemos e dessa barreira que ganhamos. Nós não nos encostamos mais.

Eu poderia encostar em você agora.

Eu sei que você poderia e você sabe que eu quero, mas isso seria uma violação da conduta que estabelecemos silenciosamente para conseguirmos nos relacionar novamente, depois de todos esses anos.

Agora são onze horas, é hoje que termina o horário de verão? Poderíamos ficar encostados até a meia noite em ponto, então voltaria a ser onze horas novamente. Será como se nada tivesse acontecido.

Teoricamente sim, eu acho, mas isso não seria verdade e haveria consequências.

Talvez seja esse o propósito da brincadeira, optar entre a verdade ou se arriscar na consequência.

Verdade.

É verdade que você prefere consequência?

É verdade.

Consequência.

Pedágios

Foto: Tirada por Ana Camila,  oferenda para Yemanjá, Salvador, 2011.
Texto: Alan Villela

Ele ainda está por aí, mandou avisar para quem interessar possa, que está aí escondido em algum lugar e que, se você esperar mais um pouco, logo ele vai reaparecer.

Diz ele, não sou eu quem está dizendo isso, que, nada não, melhor deixar como está, que, espere aí, ele disse que era para falar, mas eu acho que prefiro deixar estar, isso sou eu quem está dizendo, que, afinal de contas, o que aconteceu de verdade para ele ter ido embora assim tããão inexplicavelmente?

Ele me mandou te contar que foi embora porque, acho que não sei se devo, acho que não sei se vou, mas ele me deu certeza de que vai reaparecer, na sua vida, de uma forma cabulosa que você não irá esperar, e assim, não esperando e ele reaparecendo, repentinamente inocentemente e inexplicavelmente, da mesma forma com a qual o fez ir embora, você vai, você vai, você vai querer ir embora também, seja lá para onde for, pagando por cada pedágio que você o fez pagar.