Cortesia

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Sempre ensinado a ser educado, gostava de cortejar e cumprimentar as pessoas que via, dando “bom dia”, “boa tarde” e “boa noite”, dependendo “ôpa” e,  até mesmo, “bença”.

Todas as vezes ao sair de casa, fosse para ir à padaria na pracinha da Bandeira ou comprar maizena no armazém, fazia apreço em cumprimentar os senhores e as senhoras sentadas nas varandas ou debruçadas nas janelas ao longo da Vinte e Sete de Abril, além dos conhecidos, os semi desconhecidos, as Cidas e os Cidos.

Lá ia, descendo a rua e dando “bom dia, Dona Tota”, “boa tarde, Dona Dina”, “ôpa Cipó”, “tudo bem  Penha? “, “olá seu Zé!”, “oi Dimar”, “Tudo bom, Marlúcio?”.

Na volta para casa, realizava o mesmo curto e rápido trajeto. Geralmente, reencontrava todas as pessoas que havia acabado de cumprimentar. Muito educado, achava errado dar “olá” somente na ida e passar indiferente no trajeto de volta. Assim, sorridente, cumprimentava todo mundo novamente, independente se a pessoa preferia passar despercebida.

É que, “ingênuinamente” doce, lhe carecia malícia para compreender que nem todas as espécies de pessoas se alegram com “bom dia”.

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Gato Castrado

janela

Quando retornou para Leopoldina, após quase dez anos em distância, montou definitivamente o novo escritório: um confortável cômodo em sua casa de nascença, que possuía o que todos os outros escritórios que já teve, em tantos outros cômodos de tantas outras casas onde já morou, não possuíam: uma janela com vista para a rua.

Observando concentrado, percebia o movimento dos carros e das pessoas passageiras. Aquela abertura na parede seria, portanto, o refúgio de seus olhares.

Trabalhava todo dia, sentado na cadeira e de frente para o computador, computando muitas coisas importantes, mas sem muita importância. Enquanto computava, admirava a rua passar. Os gatos, curiosos, assistiam ao movimento pela janela, faziam amizades com quem passava e,  no decorrer dos dias, conheceriam mais pessoas do que jamais conheceria. Quando os três se sentavam juntinhos na janela, quem presenciava comentava admirado: “olha lá os gatinhos, que lindos!”.

samuel

Do outro lado, na rua, quem passava e olhava pela janela via apenas seu cabelo, sempre amarrado em coque, muitos não souberam se era homem ou mulher. Diferença não fazia e também não se incomodava. Preferia a satisfação e alegria que sentia toda vez que alguém dava um carinho gratuito para seus gatos. dudu

 

Computando eternamente em devaneio, passou os dias em ânsia, desejando possuir um bom dono que possuísse, também, uma janela com vista para a rua.

Quem lhe dera ser um belo gato castrado e tratado.

juju

 

 

Americanas da Zona da Mata

annamiro

Não se soube da parte de quem, mas da Côrte às províncias, espalhou-se a notícia de que a cidade de Leopoldina seria agraciada com a construção de um prédio em uma de suas principais ruas, com o intuito de ser edificada uma Lojas Americanas. O boato, das bocas aos ouvidos, vagarosamente interrompeu o cotidiano dos moradores da cidade, arrematados com a pomposa novidade.

Desencadeou-se, assim, um enorme alvoroço no Largo do Rosário, onde dezenas de pessoas desinformadas procuravam entender o que poderia ser uma loja americana. O consenso geral dos mais informados concluiu que a loja seria uma alavanca para o progresso em nossa sociedade, democratizando o acesso às inovações e tendências provenientes do primeiro mundo.

De imediato, houve um rebuliço na imprensa. A tipografia do jornal O Leopoldinense empenhou-se para encontrar as fontes que espalharam os boatos, dedicando-se totalmente à causa pública e social, confirmando com exclusividade a veracidade das informações dias depois. Em nota, afirmou que graças aos esforços de senhores verdadeiramente comprometidos com o desenvolvimento econômico e social de nossa cidade, Leopoldina fora agraciada com a organização de uma comissão encarregada para a edificação de uma Lojas Americanas. Ouviu-se dizer que a cerimônia de assentamento da Pedra Fundamental está prevista para ocorrer em breve. Demonstramos apreço e apoio à inestimada iniciativa de cidadãos tão obstinados e aproveitamos para ressaltar aos assinantes deste jornal que o pagamento das assinaturas atrasadas podem ser realizadas diretamente em nossa tipografia, na Rua do Rosário, nº 37.

O início das obras despertou a atenção dos curiosos que se amontoavam na Rua Municipal, admirando a edificação das estruturas. O expresso chegava no Largo da Estação carregado de ferro fundido, anunciando abundância e prosperidade de anos vindouros. No Theatro Alencar, a Companhia Dramática Escudero, da atriz Amélie Escudero, oferecia o drama em 3 atos Supplicio de Uma Mulher em benefício às obras da Lojas Americanas.

Houve grande concorrência de público disputando os assentos da plateia na noite do benefício. As publicações do inédito folhetim As Americanas, de Elysio Baltazar, prendiam a atenção dos leitores assíduos do jornal O Leopoldinense, dividindo espaço com as Notícias em First Hand, anunciando as grandiosas novidades que seriam expostas na Lojas Americanas: arnica montana, costaneiras, cartas de ABC, papel sem fim para engenheiros, coagulina para grudar louça, bocetas christofle para rapé, pomada de família, papel de luto, cartas de enterro, folhinha de desfolhar, calendário perpétuo, bálsamo homogêneo sympathico, entre tantas outras estonteantes invenções oriundas da América que brevemente chegarão na cidade da Leopoldina, nada além de 2000 réis.

O tão aguardado dia da inauguração levou a população às ruas da cidade que acompanhava, ao som da apresentação musical da Lyra Leopoldinense, o cortejo iniciado no Largo do Rosário com destino à Rua Municipal. Outro cortejo partia do Largo da Gramma, acompanhando a cavalgada e as acrobacias mortais dos grandes artistas do Circo Casali, em temporada na cidade.

A expectativa para a abertura das portas causava empurrões e pisões entre aqueles que disputavam espaço na multidão formada em frente à Loja. Nas arquibancadas imperiais, dispostas com elegância e privilégio, verdadeiros cidadãos da aristocracia leopoldinense observavam o espetáculo, entre cumprimentos e mesuras em english, a língua inglesa. Dizam hello, how are you?, nice to meet you, wonderful day.

As três portas foram abertas pontualmente ao meio dia daquele dia, horário anunciado pelo sino da Catedral de São Sebastião. Todos correram. Ouviam-se exclamações e afirmações de êxtase e alegria entre os corredores e prateleiras enfileiradas, exibindo as inovações tecnológicas à preços de aguçar os sentidos. No meio ao tumulto e frenesi desencadeado, a pequena e irrelevante inscrição Made in China, contida no fundo das embalagens, passou despercebida aos olhos dos desatentos. Ao fim do ato, todos foram embora, orgulhosos e extasiados, segurando suas caixas e sacolas.

A inauguração da Lojas Americanas definiria um período de avanço econômico e social para Leopoldina, graças ao aumento do fluxo turístico e a circulação de moeda na região, dando à cidade o título, jamais esquecido, de Americanas da Zona da Mata. Os anos de prosperidade seriam drasticamente interrompidos com a arrebatadora crise econômica internacional que atingiu em cheio o Brasil, ocasionando a grande queda nas exportações e o drástico aumento dos preços das safras de café. A decadência da cafeicultura e a seca na lavoura seriam responsáveis pela desativação da Estação Ferroviária de Leopoldina e o fechamento de estabelecimentos comerciais.

Em meio à inseguranças e incertezas, a Lojas Americanas despediu-se da cidade, fechando suas portas definitivamente. Apesar das diversas tentativas de tombamento patrimonial, o histórico prédio caiu no vazio do esquecimento, cedendo seu espaço, décadas depois, para a Igreja Universal do Reino de Deus. Os cultos ocorrem de segunda à domingo, a partir das 18h00.

(Crônica escrita em 2017 e desengavetada agora, mais ou menos um mês após a inauguração oficial das Lojas Americanas aqui na cidade de Leopoldina).

Fev.

annamiro

Era final de fevereiro daquele ano, regido por Oxalá e Yemanjá. Diziam que a passagem do tempo seria devagar, mas haveria constantes mudanças. De fato, todos precisavam de um ano mais lento, para ver se o coração conseguia aquietar, e de mudanças bem vindas para fortalecer o Orí, dando constância e sustentação para se re-viver este outro ano, novamente, de novo, um dia após o outro.

Enquanto seu vigésimo oitavo mês de fevereiro chegava ao fim, ele não desconfiava que alguma coisa muito além do que já conhecia, que havia presenciado ou vivenciado durante os outros vinte e sete fevereiros anteriores de sua vida, pudesse vir acontecer.

Estava errado, porque em ano regido por Oxalá e Yemanjá há de se esperar que alguma coisa aconteça.

 

 

Caderneta

annamiro

A partir do momento que deixei Leopoldina, passei a colecionar passagens. Bilhetes. Um pedaço de alguma coisa que servisse de recordação pelos lugares onde havia  passado.

Eram muitas passagens de ônibus, que acumulei rapidamente quando iniciei os estudos na universidade. Acabei criando um caderno de viagem. Era uma caderneta escolar bem simples, 102x140mm, 17 pautas, 200 folhas, da Tilibra. Me lembro de treinar espanhol com as especificações técnicas: “libreta, tamaño, hojas internas”. Achava chique.

Sempre fui muito precavido e, naquela época, a tecnologia não era rápida como hoje. Vivíamos em uma era tecnológica, mas que levaria tempo para ser instantânea.

Então anotava no caderninho todos os trajetos e horários possíveis, caso viesse a acontecer um imprevisto na viagem. Caso perdesse o ônibus, ou fosse raptado, enfim. Era muito útil, com telefones úteis e rascunhos grampeados, contendo informações manuscritas pelos atendentes rodoviários.

Eram diversas passagens, distribuídas e grampeadas em folhas, contendo as principais informações: trajeto detalhado, horários, valor da passagem, data de saída, de chegada.

No caderninho, escrevia sempre que possível. Era um caderninho de viagem, então eu deveria escrever enquanto estivesse viajando. Iniciava quando fechava a porta de casa. A partir daí, qualquer coisa poderia se tornar relevante e cair em anotação.

Ainda tenho o caderninho, que está aqui comigo. Resolvi trazê-lo para perto, já que estou falando dele. É um caderno sagrado, não ouso falar pelas costas.

Com ele presente, quem sabe nos dê permissão para o abrir? Poderia flolhear em busca de algo relevante para contar, com bastante cautela e compreensão de que seria apenas uma história (ou outra), tornando a tarefa ainda mais difícil.

Com a permissão concedida, abro o caderno.

Onze de outubro

20:50 – Ubá x Viçosa

Esperei Tiago na rodoviária. Ele é ótimo, seus amigos também. Encontrei a Carla. Vi o Fabrício, tomamos café e cappuccino, depois almoçamos juntos.

Tiago me deu bombons e uma rosa. Nunca me deram nada assim. Saí de Viçosa 12:40. Cheguei em Ouro Preto 15h30.

Anotava as coisas para guardar na memória, deixar como recordação. Imaginava que seria bonito reler anos depois. Essa foi uma boa viagem, apesar de não me recordar da Carla. Pressiono a memória, mas nenhum sinal de quem seria Carla e o que fizemos aquele dia. Sinto-me envergonhado por não recordar, pois Carla está no caderno. Está anotado. Ela foi significativa para mim.

Querida Carla,

sinto muito não me recordar de você. Acredito que vivemos bons momentos, em Viçosa, ou alguma cidade que estava em meu caminho. Não tenho certeza, mas provavelmente tomamos café, você fumou um cigarro, te incodomava a fumaça que saía do cigarro, então você abanava o tempo todo. Ficamos uns quarenta e cinco minutos conversando sobre o que fizemos da vida desde o nosso último encontro e, mais quarenta e cinco minutos indagando sobre o presente e o futuro. Andamos pela cidade, havia uma certa resistência de sua parte em me olhar nos olhos, não sei se recorda. Enquanto descíamos o calçadão, imaginava o que poderia ser. Depois de tantos anos de amizade, a distância parecia ter modificado algo entre nós. Sentia isso silenciosamente, enquanto lambia meu picolé. Estava calor, você decidiu comprar sorvete. Pedi um picolé. Gostava de morder aos pouquinhos. E você observava isso com atenção. Eu mordendo com cuidado, por causa do gelado, as beiradas do meu picolé, que já não me recordo o sabor. Talvez amendoim. Você me ofereceu um pouco do sorvete, mas recusei. O picolé já me bastava. Senti seu desapontamento. Então eu disse “me dá um pouquinho”. Você, sorrindo, veio com a colher cheinha na minha boca, muito sorvete, acho que você fez de propósito. O sorvete me gelava todo por dentro, enquanto escorria pelo meu rosto. Rimos disso, eu estava todo melado. Quando nos despedimos, prometemos que nos veríamos em breve. Lembro que você estava muito feliz, espero que esteja mais feliz ainda. Desculpe a ausência e o silêncio durante todo este tempo. Gostaria de ter escrito algo mais significativo em meu caderno, além de “encontrei a Carla”. Você é boa demais para merecer uma citação rápida. Sinto saudades. PS: Caso leia o que escrevi algum dia, entre em contato. Já sinto ansiedade e insônias profundas para saber quem você é, o que fizemos aquele dia e o que ainda poderemos fazer.