Original Sinsuality.

Alan Blair ~
Foto e Texto por: Alan.

Sentado sobre o meio fio da esquina três – aproximadamente uma hora e vinte e seis minutos da madrugada – olhava o relógio, pisando em urina de gato, rato, tato que fazia arrepiar, e assim, meio sem rumo, sozinho na esquina três, o olho ardendo de sono, a bunda dormente de tudo e a cabeça estourando de dor, batia o pé, em urina de gato, em urina de rato, tato que não tateava nada.

Uma hora e vinte e sete minutos da madrugada, levantou, ainda sem sentir a bunda, desequilibrou alguns passos, balbuciou gemidos e seguiu ao norte da esquina três, por vez parando, por vez andando, por vez cantando qualquer coisa em inglês,

E eu daqui do décimo terceiro andar do Edifício Flores, número cinqüenta e sete da esquina dois, olhando da janela, a luz apagada, meu peito parado e, de fundo, aquela ruiva histérica de sempre, tocando pianos com sua sensualidade original, observava aquele homem sumir, diminuir, desfalecer. E antes de desaparecer completamente, perto de uma hora e meia, ele estranhamente parou.

Tirou sua blusa,
Abriu os braços,
Abriu a boca,
E olhou para o céu, como quem espera alguma salvação divina, um perdão, uma seta indicando o caminho, a saída.

E eu queria que chovesse estrelas, que brilhasse qualquer tipo de coisa, poste purpurina farol, indicando qualquer vestígio de vai meu amigo, segue teu caminho tranqüilo que eu te cuido e te velo e te ajudo daqui de cima, mas nada.
Nem um pássaro, um avião, uma nuvem passou no céu.

E ele abaixou os braços, vestiu sua blusa, desequilibrou alguns passos, balbuciou gemidos e seguiu ao norte da esquina três, por vez parando, por vez andando, por vez cantando qualquer coisa em inglês que eu já não escutava mais aqui da janela com a ruiva gritando,
Com a ruiva gritando em meus ouvidos,
Com a ruiva gritando

“You are not alone
I say, you are not alone in your darkness.
You are not alone, baby,
You are not alone.”

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