Caligrafia de Asfalto – Editora Multifoco, Rio de Janeiro, 2012.

Amigos leitores,

este blog virou livro, e se chama “Caligrafia de Asfalto”, lançado em outubro pela Editora Multifoco. O lançamento ocorreu em Ouro Preto, MG. Mas se voce é de longe, ou de perto, mas perdeu, já é possível comprar pelo site da editora. O link segue abaixo:

http://www.editoramultifoco.com.br/literatura-loja-detalhe.php?idLivro=998&idProduto=1028

Bem, e vamos escrevendo para uma segunda publicação.

🙂

Clichê

Foto: Samuel (quem conjugo todas as horas de todos os dias) – Texto: Alan Villela

Tem gente que eu gosto,
E tem gente que eu desgosto.
Mas, também tem gente que eu nem gosto e nem desgosto.
E, no meio desse gostar e desgostar,
Tem gente que “Eu Amo”: primeira pessoa do singular do verbo amar.

made in sônia.

Foto: Moaxir. Texto: Alan Villela.

Ouro Preto, madrugada de 15-09, 03h47.

Estou com algumas dificuldades para dormir, já faz uns dias. Amanhã preciso acordar cedo. Não estou conseguindo cair no sono e, assim do nada, comecei a pensar em você. Faz muito tempo que não nos falamos, então resolvi te escrever, espero que não se importe.

Eu queria contar algumas coisas para você saber como anda a minha vida. Hoje estou com 23 anos, ainda morando em Ouro Preto, por pouco tempo, 8° período. Trabalhando, dando aulas para crianças e para idosos, uma gostosura.

Agora tenho um gato. Ele se chama Samuel e está aqui do meu lado com cara de sono, provavelmente querendo saber quando eu irei desligar essa luz. Mas o problema é que, por mais que eu queira, essa luz não se apaga e, infelizmente, é essa luz que, de quando em vez, me traz escuridão. Então estou te escrevendo, desejando que você escureça junto comigo, pelo menos um pouquinho, menino, que escureça, que perca o sono a noite toda e acorde amarrotado para ir trabalhar, porque você fechou o olho para dormir, mas se esqueceu de fechar o buraco que abriu.

Aí ele se tornou meu melhor amigo, o Samuel. Branco com manchas caramelo, me responde toda vez que eu pergunto algo a ele. Deita no meu peito, me lambe e rola no tapete e no final da noite, se encaixa no meu corpo pra poder dormir comigo.

Eu preciso ir dormir agora, se você puder deixar. Sei que não foi sua intenção me fazer perder o sono hoje, mas te escrever foi a forma que encontrei para conseguir dormir. Gostaria de te enviar essa carta pelo correio, mas não sei mais onde você mora, qual o seu endereço, com o que você trabalha e se você está bem. Mas eu sei que, um dia, você vai vir até aqui, ler essa carta sabendo que é especificamente para você. Poderá até achar patética a minha insistência em te escrever, é que meu glossário é muito diversificado e ainda não esgotaram minhas palavras. Eu não me sentirei envergonhado caso você pense algo assim de mim. Te escrever é a única forma de conseguir te deixar ir embora, porque o que mais me incomoda não é a distância,

não é a falta,

não é o silêncio.

É a presença.

Um beijo.

A.

Promete que Jura? – Peça Teatral

Montagem apresentada na VII Semana de Artes da UFOP no dia 27 de maio de 2011 na sala 35 da Escola de Minas em Ouro Preto, Minas Gerais.

Levou os seguintes prêmios:

– Melhor Montagem – Júri Popular
– Melhor Texto Original
– Melhor Figurino
– Melhor Iluminação

Direção e Dramaturgia: Alan Villela
Atuação: Leonardo Oliveira, Maria Gabriela Felipe e Nataly Bentley
Música: Matheus Ferro
Execução: Laís Garcia
Iluminação: Luis Felipe Pereira
Maquiagem: Jairo Alna
Cenografia e Figurino: Alan Villela
Instalação Externa: Gabriel Edeano e Jorge Pessoa

É Verdade.

Foto: 1990’s – 2000’s – Texto: Alan Villela

(Essa pode até ser uma história boba, mas eu gosto de ser bobo.)

Verdade.
Verdade?
Verdade.

É verdade que você tem medo de viajar de ônibus?

É um pouco de verdade. Anos atrás era um problema maior, mas hoje em dia eu venho me acostumando. Desde que me mudei daqui, precisei pegar vários ônibus, e há algo de confortável em estar na estrada ao redor de pessoas que você não conhece, mas estão ali por algumas horas e sabe-se lá se um dia você irá reencontrá-las, ou não, e reconhecê-las, ou não, e se há algum propósito delas estarem ali contigo, ou não.

Verdade.

É verdade que você está mais feliz lá do que aqui?

Não sei. Eu acreditava ser, no início, quando tudo ainda era novo, parecia aniversário todo dia, primeiro dia de aula todas as manhãs. Era como se, a cada dia, houvesse presente novo para abrir, rasgando o papel e abrindo a caixa de olhos fechados, prolongando ainda mais a surpresa. Mas hoje, eu não sei. Parece que sempre vai faltar alguma coisa, independente de onde eu esteja, independente do que seja, porque essa falta a gente nunca sabe o que é, só sabe que falta.

Verdade.

E você? Está mais feliz lá do que aqui?

Não sei. Eu consigo ser feliz aqui e lá, de formas diferentes. Aqui é uma felicidade confortável. Não preciso me preocupar tanto para conseguir ser feliz, ela já vem cuidadosa, vem protegida e eu sei que ela sempre virá. Mas lá, lá é diferente, é uma felicidade conquistada, eu preciso levantar da cama e sair de casa para conseguí-la. É mais difícil ser feliz, mas quando se é, se é com gosto, se é com fome de quem come o máximo que couber na boca, porque quando não se é, não se é, e então você sente aquela dor de nada na barriga.

Verdade.

É verdade que você ainda tem nossas cartas?

Cada uma delas, guardadas dentro de um envelope grande escondido na gaveta do armário por baixo de uns livros.

Verdade.

É verdade que você tem as minhas?

No meu armário de roupas. Já senti vontade de vesti-las, mas então todos saberiam o que você me escrevia. Na verdade, eu gostaria que soubessem, mas há consolo em mantê-las em segredo.

Verdade.

É verdade que você se arrepende da gente?

Não. E você?

Eu não. Só me arrependo do que perdemos e dessa barreira que ganhamos. Nós não nos encostamos mais.

Eu poderia encostar em você agora.

Eu sei que você poderia e você sabe que eu quero, mas isso seria uma violação da conduta que estabelecemos silenciosamente para conseguirmos nos relacionar novamente, depois de todos esses anos.

Agora são onze horas, é hoje que termina o horário de verão? Poderíamos ficar encostados até a meia noite em ponto, então voltaria a ser onze horas novamente. Será como se nada tivesse acontecido.

Teoricamente sim, eu acho, mas isso não seria verdade e haveria consequências.

Talvez seja esse o propósito da brincadeira, optar entre a verdade ou se arriscar na consequência.

Verdade.

É verdade que você prefere consequência?

É verdade.

Consequência.